De Gary Cooper a Sérgio Cabral: Matar ou Morrer

Pedro do Coutto

O governador decidiu instituir no Estado do Rio de Janeiro, acolhendo projeto da Secretaria de Segurança, uma estranha e surpreendente gratificação para a PM e Polícia Civil: a gratificação por redução de mortes em conflito. Absurdo. Não é por aí. Os vencimentos dos policiais, muito baixos, sem dúvida, precisam ser melhorados, porém não dessa forma. Não faz sentido. Os desfechos fatais não dependem apenas dos agentes da lei e sim da ousadia dos criminosos e de sua disposição de resistir às ordens de captura e prisão.

Os leitores já perceberam que tenho o hábito citar as fontes de informação que comento. Vamos lá. São três: a reportagem de Fábio Vasconcelos e Sérgio Ramalho, O Globo de 28, o filme famoso de Fred Zinnemann, com Gary Cooper, Grace Kelly e Katy Jurado, as mensagens impressionistas de Élio Gáspari, criando correspondências do além entre os que já se foram e os administradores que permanecem aqui.

Em “Matar ou Morrer” (High Noon), Gary Cooper é o xerife solitário que tem de enfrentar bandidos presos por ele, mas que retornam à cidade para matá-lo. A curiosidade do filme é que ele tem a mesma duração do espaço que marca o início da ação e o duelo final. Duas horas.

Duelo final. O problema é este, não outro. O governador Sergio Cabral instituindo uma recompensa pela não morte (exatamente o contrário do que fez Marcelo Allencar), indiretamente está contribuindo para, em vez de diminuir, aumentar os riscos dos policiais que aparentemente tenta gratificar.

Os problemas financeiros atingem os contingentes, inclusive a tropa de elite, e a perspectiva de ganho extra pode levar a vacilações que contribuam para elevar, não a morte dos criminosos, mas sim a dos agentes da lei. Sergio Cabral não pensou bem no assunto. Não pesou todas as parcelas que conduzem a situações de risco. Ele se baseou em estatísticas. Tudo bem. Mas não analisou devidamente os números.

Vejam só. Partiu da comparação entre os Estados do RJ e o de São Paulo, para uma população de 40 milhões de habitantes, houve – revelam Fábio Vasconcelos e Sérgio Ramalho – 2.312 homicídios no primeiro semestre do ano. No Rio de Janeiro, total de 18 milhões de habitantes ocorreram 2.556 crimes de morte. Uma desproporção enorme. Que acentua ser o RJ muito mais perigoso do que SP.

Houve no Rio, no mesmo espaço de tempo, 134 latrocínios (roubo seguido de morte). Em São Paulo muito menos: 76. Os homicídios e latrocínios são situações limite. Sergio Cabral não levou este aspecto em conta, precipitando-se em dar uma solução a um problema tão múltiplo quanto complexo.

O governador baseou-se nas mortes assinaladas como praticadas em atos de resistência. Em São Paulo (estado todo, não esqueçamos) 281. No RJ, 505. A partir daí, Cabral traçou um patamar comparativo e resolveu – não se sabe ainda como – pagar gratificações em escala variada pela redução em 6,7% dos casos em que a Polícia Militar e a Polícia Civil matam bandidos.

A ideia não tem pé nem cabeça, como se diz. Aferir o número de mortes não é tarefa difícil. Mas avaliar o grau de risco dos policiais não é possível. A variação de situações, à base de escalas estatísticas, é impraticável. E mais um aspecto essencial que diferencia o Rio de São Paulo: as favelas. As áreas de risco paulistas construídas pela pobreza e ocupadas pelo tráfico são planas. As cariocas montanhosas. Os bandidos atiram de cima. Veja-se o exemplo do Complexo do Alemão. Foram necessários tanques de combate para derrubar as barricadas.

E não é só. Em 2007, o governo estadual tentou, durante 90 dias, invadir o local e a Vila Cruzeiro. Não conseguiu. Morreram policiais e inocentes. Para os policiais, em ação nas favelas, a alternativa mais lógica é agir como Gary Cooper no clássico de Fred Zinnemann.

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