De Jânio Quadros a Bolsonaro, tentativas de ditadura acabam em renúncia e recuo aparente

Oscilação torna a situação de Bolsonaro extremamente crítica

Pedro do Coutto

Ao longo dos sessenta anos que separam a renúncia do presidente Jânio Quadros do recuo formal do presidente Jair Bolsonaro em relação aos insultos que dirigiu aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso, a história contempla duas claras tentativas de implantar uma ditadura no Brasil, mas que felizmente não lograram o êxito esperado pelos seus autores ou sequer pelos seus apoiadores.

A condecoração de Ernesto Guevara com a ordem de Tiradentes por Jânio Quadros levou-o a uma forte contradição com o pensamento das lideranças militares. Mas não foi apenas isso que marcou o desfecho de 1961, quando Jânio abriu uma crise institucional que atravessa o tempo e perdura até hoje. No dia 21 de agosto, Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, numa entrevista à TV Tupi revelou ter sido convidado pelo presidente Jânio Quadros a participar de um golpe de Estado. No dia seguinte, a entrevista foi manchete principal da edição do Jornal do Brasil.

SEM APOIO –  Jânio Quadros pensou em decretar intervenção federal na Guanabara, porém não encontrou apoio dos titulares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Partiu então para o lance da renúncia, esperando que o seu gesto levasse uma multidão às ruas a exemplo do que aconteceu em Havana quando Fidel Castro simulou uma renúncia ao poder. O Senado e a Câmara Federal, cujas antenas estavam ligadas pela denúncia de Lacerda, homologaram imediatamente a renúncia, considerando-a como um ato pessoal não sujeito à aprovação pelo Congresso.

Agora, em 2021, o presidente Jair Bolsonaro adotou um caminho diferente de Jânio, mas partiu para o ataque, principalmente contra o Supremo, como ficou claríssimo em seus pronunciamentos em Brasília e na Avenida Paulista. Não encontrou, graças a Deus, respaldo do Exército para desfechar um golpe que o tornasse imperador do Brasil. Ficou absolutamente isolado e teve então que, num gesto extremo, recorrer ao ex-presidente Michel Temer que, de forma inusitada, tornou-se o redator do documento de recuo no qual Bolsonaro tentou se desculpar com Alexandre de Moraes, com Luís Roberto Barroso e com a própria Corte Suprema.

A situação de Bolsonaro tornou-se extremamente crítica e o extremismo da direita que era a sua base de apoio restringiu-se aos grupos para os quais a verdade não importa, num gesto que a transforma num simples desejo, confundindo realidade com vontades. Temos assim, duas investidas históricas de grupos da direita contra instituições nacionais.Mas não foram essas, ao longo do tempo, as únicas investidas contra a vontade das urnas  e contra a democracia.

POSSE DE JK – Em 1955, o então deputado Carlos Lacerda, liderou um movimento sectário contra a posse de Juscelino Kubitschek, vitorioso nas urnas. A investida de Lacerda e da direita exigiu dois movimentos militares liderados pelos  generais Teixeira Lott e Odílio Denys que garantiram a posse de JK. Como se constata, os movimentos subversivos não foram só os que derrubaram João Goulart, culminando com o encontro dos sargentos na sede Automóvel Clube no Rio de Janeiro.

Na ocasião, Dom Hélder Câmara, então bispo auxiliar do Rio, dirigiu uma carta aberta a Carlos Lacerda dizendo que a sua atitude demonstrava a existência de ódio em seu coração e acrescentou nesse documento esquecido pelos historiadores: “Carlos, você fala em tanques e canhões. Você os teme ou os deseja? Faz-me parecer que você os deseja se eles estiverem ao seu lado”.

Dom Helder apontava assim a maior contradição que marcou a vida do jornalista, do deputado e do governador. Sua ânsia de poder o levou ao desastre. A ansiedade configurada também na reunião de 2 de abril de 1964, no Palácio Guanabara, quando ao lado dos governadores Magalhães Pinto, Adhemar de Barros e Petrônio Portela, este do Piauí, afirmou num discurso que era amigo e admirador do general Castello Branco, e desejava ser o seu sucessor nas eleições diretas de 1965. Não houve eleições diretas. Lacerda foi vítima da sua própria ansiedade e o Brasil passou 21 anos sob uma ditadura militar.

COMPORTAMENTO IDEOLÓGICO – Em artigo na Folha de S. Paulo ontem, sexta-feira, Ruy Castro acentuou um aspecto que envolve o comportamento ideológico da direita, principalmente por sua extrema. O bolsonarismo, disse, existia antes de Bolsonaro e agora ameaça ressurgir como um bolsonarismo sem Bolsonaro. A ironia do escritor não retira a força da verdade contida na frase e muito menos a força da verdade eternizada pelos acontecimentos históricos.

A extrema-direita estará sempre ao lado de desfechos de força, sobretudo porque a sua mensagem não incluiu qualquer compromisso social e capaz de resultar num programa construtivo de governo que reduza o desemprego e eleve o poder de consumo da população. Pelo contrário, o que caracteriza a extrema-direita é a sua disposição no sentido de concentrar cada vez mais a renda nacional. Assim, a sua alternativa é a da força que nem sempre dá certo, vejam os exemplos de Jânio Quadros, de Jair Bolsonaro e do próprio Carlos Lacerda que se transformou a luz do tempo de adversário da realidade em adversário de si mesmo.

19 thoughts on “De Jânio Quadros a Bolsonaro, tentativas de ditadura acabam em renúncia e recuo aparente

    • A citação de Pedro do Couto, ao santo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara, que quando atuou como Bispo auxiliar do Rio, criou uma comunidade próximo a PUC, na Gávea. O alerta que fez em carta aberta ao governador da Guanabara, com certeza ele alertaria também ao SR. Bolsonaro, que tem demonstrado ódio em seu coração e nenhuma empatia com os mortos pela Covid além de flertar com aventuras golpistas.Eu diria para o presidente: “Bolsonaro, você fala em fuzis, meu exército, minha PM e Estado de Sitio. Você teme as urnas eletrônicas ou teme o eleitor,? os teme ou os deseja ao seu lado? Faz-me parecer que você deseja o voto impresso por outras razões, todas em seu benefício rumo a reeleição”.
      Bolsonaro, seu destino pode ser o de Carlos Lacerda, que esperou o ano de 1965 para ser o candidato da direita extrema na eleição que não veio. O general Castelo Branco prorrogou seu mandato frustando o sonho do politico, levando de Roldão Juscelino.
      Bolsonaro só tem chance de ser reeleito, através do voto. Caso queira enveredar para um golpe, não será ele, o comandante em chefe das Forças Armadas e sim um general de quatro estrelas da ativa. Nem Mourão, o vice, muito respeitado no Exército teria alguma chance.
      Foi assim, no período militar de 21 anos.
      Quando o general Ernesto Geisel escolheu o general João Figueiredo para sucede-lo, o então chefe do SNI só tinha três estrelas e era o quarto da lista para promoção. O que fez o alemão Geisel? Promoveu Figueiredo, o homem sem medo, dando carona em três generais, que tiveram que passar para a reserva.
      O general Hugo de Abreu, o primeiro da lista, se sentiu traído pelo presidente Geisel. Saiu magoado e lançou o Livro : O outro lado do Poder.
      Então, fora das quatro linhas da eleição, Bolsonaro terá que vestir o pijama de ex- presidente. Com um agravante: ninguém vai chamar o capitão para receber dele, nenhum aconselhamento, como ele fez com Temer, o ex- presidente cada vez mais parecido com o amigo da onça.

  1. Os textos do jornalista Pedro Couto,nos últimos dias,o seu quinto parágrafo 5°,virou míssel exocet certeiro.

    É tbem,minha avaliação externada aqui no blog dia 08.

    Zé trovão e Cia foram usados como massa de manobra,bucha de canhão.

    A bem da verdade,as FFAA foram obrigada a se posicionar,pois o mercado financeiro,leia- se banqueiros e grandes empresários exigiam o fim da balbúrdia econômica e política.

    Parabéns Pedro Couto,comungo pela análise.

  2. Bom dia, Pedro Coutto!
    Lembro do Genocida ter feito elogio ao Hugo Chavez, no final da década de 90. Então eleito presidente. Antes, tentou no Golpe. Mas depois conseguiu permanecer no poder de modo não tão diferente de um.

    – tirando o fato do golpe (tentado de Chavez) antes de eleito, enquanto vestia farda (no caso Bolsonaro foi atentado terrorista dentro do quartel)

    Será que Bolsonaro tenta o seu caminho inspirado em Chavez, guardando as devidas diferenças de alinhamento e fazendo as adaptações de modelos diferentes?

  3. O Genocida busca trazer o engajamento de expressiva parcela do eleitorado (radicalizado).
    Compra a maioria no Legislativo (para ser blindado às investidas de impedimento – que Dilma não fez)
    Promove no meio administrativo dos órgãos perseguições contra funcionários que manifestam outros pensamentos e são substituídos (quando comissionados) ou colocados na geladeira, em funções das mais burocráticas, tiradas quaisquer gratificações (se concursados), enchendo órgãos de militares cedidos para terem dois contracheques – embora não exerçam ao mesmo tempo a outra função originária, logo, um enriquecimento sem causa.

  4. Já vi esse filme.

    “A extrema-direita estará sempre ao lado de desfechos de força, sobretudo porque a sua mensagem não incluiu qualquer compromisso social e capaz de resultar num programa construtivo de governo que reduza o desemprego e eleve o poder de consumo da população.”

    A extrema esquerda sempre se caracterizou pela candura e singeleza de seus atos, aos inimigos distribuía pombinhas da paz, santinhos do bem aventurado Stalin, abraçavam o Lago Baikal com o dedo mindinho pintado de branco simbolizando a paz.

  5. Sr Coutto;
    Lacerdda foi um grande orador e sagaz nas respostas. Mas, nesta ocasião (golpe contra a posse de Juscelino) ele se complicou.
    Quando Lacerda fazia o seu discurso, um estudante ( na época era comum estudantes de direito assistirem os debates na Câmara do RJ) pediu a palavre e perguntou;
    ” Dr Carlos, o senhor fez a campanha com o slogan contra o roubo e contra o golpe. Hoje o senhor está pregando a favor do golpe. Quando que o senhor pregará favor do roubo? “

  6. Victor, o político Carlos Lacerda foi vítima de seu próprio veneno.
    Foi comunista na tenra juventude e depois migrou para a extrema direita. Tramou para a derrubada do segundo período de Getúlio Vargas, frustrado o golpe que viria, com a jogada de mestre do suicídio. Vargas não se preparou para o regime democrático. Não suportou a pressão da classe política, dos empresários e dos militares. Vencer essas três forças, se tornou difícil até para Getúlio, que era uma águia .
    No momento, Bolsonaro está em vias de perder uma das pontas desse tripé: a classe empresarial.

    • A julgar pelo silencio ensurdecedor das FFAA, em torno dos últimos acontecimentos, eu arriscaria a dizer que esse tripé está contando só com um pé, já que os milicos do segundo contracheque não contam, e o pé restante é mantido pela caneta do patrão, para a qual o Paulo Guedes não está conseguindo fornecer muita tinta.

    • Seria lógico concluir, usando a pura razão, que o Jair pode também desistir de tudo como o Getúlio? Nunca desejaria isso a ele, mas sabe cumé – antes ele do que eu! E esse eu não sou eu, mas personifica o povo que sofre e que morre de fome e que não pode andar nas ruas e que em casa não vive mas se esconde.

      • Rus, não acredito em desistência. Ele gostou dessa mordomia presidencial. Anda de avião e helicópteros para todo lado, com nossos impostos, não trabalha, só discursa e anda de moto. Como desistir disso tudo?
        O Poder, tem um que de afrodisíaco.
        Quem nele entra, não quer mais sair. Ainda não vi, ninguém desistir da reeleição, desde que foi implantada pela vaidade e vontade de Fernando Henrique Cardoso de ficar mais quatro anos. Viu no que deu, sociólogo FHC. Esse foi seu nefasto legado.

  7. “Não encontrou, graças a Deus, respaldo do Exército para desfechar um golpe que o tornasse imperador do Brasil.”
    Dado a minha qualidade de imperialista e bonapartista eu gostaria que nosso imperador fosse Dom Bolsonaro I°.

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