Equilibrando-se em busca do poder, Temer tropeça pela primeira vez

Carlos Newton

Na condição de maior beneficiário do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o vice-presidente Michel Temer vive momentos de grande emoção. Ao mesmo tempo em que sonha o tempo todo com o dia em que tomará posse no Planalto, se vê obrigado a manter as aparências, tem de defender ardentemente a permanência de Dilma e ainda atuar de forma incisiva para evitar a deterioração do que ainda resta da base aliada e do próprio governo.

Embora se esforce para se manter nos bastidores e ainda pareça estar num papel secundário, disputando apenas o Oscar de Coadjuvante, na verdade já faz tempo que Temer está desempenhando o papel principal, como grande protagonista de seu próprio roteiro. E a atuação dele vinha sendo irretocável.

Estava sempre pronto a defender o governo, nenhuma crise o abala, sabe acalmar os demais personagens e ilude até mesmo os figurantes da imprensa. Quem o vê no comando do Conselho Político do governo, tentando colar os cacos da base aliada, até pode pensar que se trata do mais fiel dos três ministros sem pasta (os outros são o professor Marco Aurélio Garcia, assessor de assuntos internacionais, e o marqueteiro João Santana, uma espécie de assessor de assuntos aleatórios). Mas as aparências enganam. Temer está apenas jogando o jogo, e escorregou ao declarar que o país precisa de alguém que possa uni-lo. Ou seja, a presidente Dilma não serve…

PANOS QUENTES

Depois de escorregar na corda bamba, Temer voltou a se equilibrar ao colocar panos quentes na decisão do PDT e do PTB de adotar postura de independência em relação à base aliada. “Essas coisas não devem nos impressionar. Muitas vezes acontece uma dissensão. Temos uma base aliada de muitos partidos. Um ou outro pode, momentaneamente, se afastar”, afirmou Temer. 

“Aliás, o que declararam foi independência: independência significa que votarão de acordo com suas convicções, o que de alguma maneira já vinham fazendo”, disse, citando um exemplo: “O PDT, muito atento às suas convicções, quando se verificaram as medidas provisórias e a do seguro-desemprego, veio a mim e disse que ia votar contra. Independência neste ponto temático já existia”, alegou, deixando aberta a porta para dialogar com os dois partidos.

ELOGIANDO DILMA…

Temer enxerga longe e já está costurando alianças para sustentar seu próprio governo, que deve suceder Dilma, caso a Justiça Eleitoral seja compreensiva e não determine a cassação da chapa PT-PMDB por crimes eleitorais, deixando o impeachment por conta do Congresso.“Temos que ter tranquilidade para harmonizar toda a base governista e mais do que harmonizar a base, haver uma preocupação com país”, afirmou esta quinta-feira, fazendo questão de elogiar Dilma Rousseff.

“A presidenta Dilma fez trabalho excepcional ao longo do tempo, ajudou a produzir os avanços sociais que o Brasil conhece, ajudou estados e municípios. Teve uma atuação no governo federal e um relacionamento, embora muitas vezes digam o contrário, muito fértil com o Congresso e com os governadores”, observou, para demonstrar que a governabilidade está hipoteticamente garantida por ela (ou por ele?).

Se Chacrinha estivesse vivo e presenciasse essa exibição de Temer,  o genial apresentador de TV logo perguntaria: “Ele vai ou não vai para o trono?”.

4 thoughts on “Equilibrando-se em busca do poder, Temer tropeça pela primeira vez

  1. “O processo já se iniciou. Não sabemos se vai chegar ao afastamento, mas já começou e isso se espalha como rastilho de pólvora”, disse o presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), referindo-se ao impeachment da presidente Dilma, durante encontro de presidentes estaduais da legenda, realizado em Brasília nesta quinta-feira (06).

    Freire apontou como aceleradores do processo a prisão do ex-ministro de Lula José Dirceu, na operação Lava Jato, e a declaração do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) de que o país precisa de alguém que o reunifique. Segundo Roberto Freire, a fala é “de quem está começando a assumir a presidência”.

    Para Freire, a declaração de Temer demonstra que a presidente da República já não exerce nenhum papel, nem como chefe de Estado, nem como chefe de governo. “Esse processo vai se aprofundar”, disse, lembrando que a sociedade vai se pronunciar sobre esse momento no panelaço previsto para acontecer durante programa de TV do PT, hoje, e na manifestação do próximo dia 16.

    “Esse pronunciamento de Temer foi preparado numa reunião de senadores do PMDB e do PSDB, incluindo Renan Calheiros (PMDB-AL), Aécio (PSDB-MG) e Serra (PSDB-SP), dentre outros, quando se discutiu a situação pós-Dilma naquela que é a questão básica do momento: o PMDB saber se haverá apoio das forças pró-impeachment para assumir”, acrescentou Freire. Ele comentou que Temer parecia nervoso ao fazer a declaração.

    Isolamento

    No entender de Freire, a omissão do PT com relação à prisão de Dirceu é um sinal de isolamento do partido e do governo, aturdidos com o fato. “Já está se discutindo na sociedade quem será o próximo”, disse, referindo-se a petistas de alto coturno envolvidos na corrupção na Petrobras.

    Para Roberto Freire, o país vive “um desmoronamento da força que sustenta Dilma, neste momento em que o governo não consegue mais aprovar um requerimento para adiar uma votação de matéria que lhe preocupa”. Segundo Roberto Freire, o governo prioriza um ajuste, mas não consegue mais adiar uma votação na Câmara por entender que ela pode comprometer essa medida.

    Numa mesma noite, acrescentou Freire, dois partidos – PDT e PTB – anunciaram ruptura com a base governista. “O Congresso já se prepara para votar as contas de Dilma com as pedaladas fiscais, e as forças que apoiam o impeachment precisam estar prontas para apoiar o governo que virá em consequência desse impedimento da presidente”.

    Freire exorta os políticos a “acabar com algumas veleidades de achar que se vier o impeachment não temos responsabilidade”. Ele contou episódios da estruturação do governo Itamar Franco, após o impeachment de Collor, quando se fez uma administração de união nacional. “O PT se recusou, mas Lula ia às reuniões e indicava ministros”,lembrou.

    Trauma

    Freire salientou que haverá traumas, principalmente na economia, com o impedimento da presidente Dilma. “Mas atualmente, com esse quadro que vivemos, os agentes políticos e econômicos não veem perspectivas de solução da crise. Precisamos apresentar um caminho para a saída”, ponderou.

    O presidente do PPS lembrou ainda que o partido rompeu com o governo Lula em 2004 por discordar da política econômica e advertiu o país que ele poderia levar “a uma desgraça”.

    Situação terminal

    Já o vice-líder da oposição na Câmara, deputado Raul Jungmann (PPS-PE), afirmou que a declaração de Temer sobre a crise mostra que o governo Dilma está em situação terminal. “Precisamos preparar as condições porque teremos uma transição. E esse alternativa passa pelo vice-presidente Michel Temer. Temos que estar preparados para dar sustentação a um governo de coalização. Essa saída é inevitável e está por vir”, alertou o parlamentar.

  2. Se Temer estiver certo ao dizer que dilma faz e fez um trabalho excepcional, então ele poderia fazer um outro trabalho mais excepcional ainda: distribuir lentes de contato (óculos é passado) para os 92% da população brasileira que não consegue enxergar o sucesso administrativo de dilma.

  3. Mantendo a analogia da corda bamba, parece aquela escorregão proposital para despertar o público e mostrar que ele,
    o Equilibrista, é o dono da situação e sabe o que está fazendo.

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