“De onde vem a ideia?”, pergunta o surpreendente poeta Augusto dos Anjos

Resultado de imagem para augusto dos anjosPaulo Peres
Site Poemas & Canções

O advogado, professor e poeta paraibano Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) é conhecido como um dos intelectuais mais críticos do seu tempo, e até hoje sua obra é admirada. Embora identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano,  alguns importantes literatos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois há características nitidamente expressionistas em seus poemas.

A IDEIA
Augusto dos Anjos

De onde ela vem? De que maneira bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas
Delibera, e, depois, quer a executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!

8 thoughts on ““De onde vem a ideia?”, pergunta o surpreendente poeta Augusto dos Anjos

  1. Coincidência! Amanheci pensando em Augusto dos Anjos, o poeta da morte, paraibano do Engenho Pau D’Arco. Ele me acompanha, desde meus idos de 14 anos, quando cursava o Ginasial. Escreveu apenas um livro – Eu e Outras Poesias – e é um dos mais importantes poetas brasileiros. Morreu cedo, vitima de tuberculose, aqui em Minas onde tinha vindo se tratar. Foi vítima da doença da época aos 30 anos. São muitas as poesias dele que sei de cor.

    Versos Íntimos – Augusto dos Anjos

    Vês! Ninguém assistiu ao formidável
    Enterro de tua última quimera.
    Somente a Ingratidão – esta pantera –
    Foi tua companheira inseparável!

    Acostuma-te à lama que te espera!
    O Homem, que, nesta terra miserável,
    Mora entre feras, sente inevitável
    Necessidade de também ser fera.

    Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
    O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

    Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
    Apedreja essa mão vil que te afaga,
    Escarra nessa boca que te beija!

  2. Em versos íntimos, Augusto dos Anjos chama atenção de como as pessoas são ingratas e que é preciso a gente estar sempre preparado para as decepções “Acostuma-te à lama que te espera…”

    Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
    Enterro de tua última quimera.
    Somente a Ingratidão – esta pantera –
    Foi tua companheira inseparável!

    Acostuma-te à lama que te espera!
    O Homem que, nesta terra miserável,
    Mora entre feras, sente inevitável
    Necessidade de também ser fera.

    Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
    O beijo, amigo, é a véspera do escarro.
    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

    Se a alguém causa ainda pena a tua chaga
    Apedreja essa mão vil que te afaga.
    Escarra nessa boca de que beija!

  3. Augusto dos Anjos faz um percurso para encontrar de onde vem a idéia. Como se forma a idéia
    “de criptas misteriosas” “estalactites duma gruta?” do “feixe de moléculas nervosas”. Finalmente, ele diz que a idéia estava na língua.
    Em “O último número” ele falada da idéia que morrerá com ele:
    Hora da minha morte. Hirta, ao meu lado,
    A Idéia estertorava-se… No fundo
    Do meu entendimento moribundo
    Jazia o último Número cansado.
    (,,,) Não te abandono mais/morro contigo)

  4. “Li o “Eu” na adolescência e foi como se levasse um soco na cara. Jamais eu vira antes, engastadas em decassílabos, palavras estranhas como simbiose, mônada, metafisicismo, fenomênica, quimiotaxia. Zooplasma, intracefálica… E elas funcionavam bem nos versos! Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia. A leitura do “Eu” foi para mim uma aventura milionária. Enriqueceu minha noção de poesia. Vi como se pode fazer lirismo com dramaticidade permanente, que se grava para sempre na memória do leitor. Augusto de Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira.”
    – Carlos Drummond de Andrade (escrito em 1984, Centenário de Augusto dos Anjos, a pedido da Biblioteca Nacional)

  5. Não adianta levantar outra parede, perseguir com um pedaço de pau, a consciência humana é como este morcego.

    O morcego – Augusto dos Anjos

    Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
    Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
    Na bruta ardência orgânica da sede,
    Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

    “Vou mandar levantar outra parede …”
    — Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
    E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
    Circularmente sobre a minha rede!

    Pego de um pau. Esforços faço. Chego
    A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
    Que ventre produziu tão feio parto?!

    A Consciência Humana é este morcego!
    Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
    Imperceptivelmente em nosso quarto!

    Augusto dos Anjos.

  6. Se tem uma coisa que nunca acontece comigo é acordar pensando em Augusto dos Anjos. Penso nos amores que não tive, em noites que passei em claro (esqueci de apagar a luz); penso no sucesso do vizinho, no erro de não ter casado com a minha cunhada. São tantas as coisas que penso pela manhã, mas jamais em poetas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *