De Vargas a Lula, a razão da popularidade

Pedro do Coutto

No final da semana, os três grandes jornais do país – O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo – editaram cadernos especiais analisando o que significaram para o país os oito anos da era Lula que marcam o fim de seus dois mandatos mas não terminaram com sua influência, pois foi realçada com a vitória de Dilma Rousseff nas urnas de  outubro.

O Globo, a FSP, O Estadão apontaram avanços e estagnações, analisando o desempenho do governo sob vários ângulos, inclusive o político, abalado por escândalos como os protagonizados principalmente pelos que ocuparam a Casa Civil, José Dirceu e Erenice Guerra.

José Dirceu, primeiro ministro, jogou a presidência da República fora no episódio. Erenice Guerra impediu que Dilma vencesse no primeiro turno. Tiveram reflexos, portanto. Os três jornais, entretanto, ao calcarem a tecla final do balanço, chegaram a um total bastante positivo do presidente cujo mandato  hoje ingressa no crepúsculo.

A popularidade é enorme. O Ibope, semana passada, matéria publicada pelo Estado de São Paulo, assinalou aprovação de 87%, rejeição de apenas 4 pontos. Na história universal não existe exemplo anterior de julgamento popular igual. Atribuir este fato ao carisma pessoal de Lula, exclusivamente, é valorizar demais a forma e reduzir o peso do conteúdo.

Há, isso sim, uma convergência dos dois fatores e vetores do sucesso. No título, eu destaquei uma estrada na história do Brasil, que possui pontos comuns. Estes pontos comuns entre Vargas e Lula, tenho certeza, encontram-se, embora sob óticas diferentes, no projeto de valorização do trabalho humano.

Getúlio Vargas, no seu período de ditadura absoluta, de 37 a 45, outorgou a lei da Previdência Social e a CLT. Foram – e são até hoje – documentos importantíssimos do progresso social do Brasil. A Previdência representa uma etapa da redistribuição da renda, na medida em que a contribuição dos empregadores é maior que a dos empregados. A CLT, de 1943, fez a passagem da semiescravidão que havia para o direito do Trabalho. Não havia férias remuneradas, indenização, limite para a jornada diária, aviso prévio para os casos de demissão.

Vargas, além disso, governou num contexto internacional dificílimo: de um lado a democracia de Churchill e Roosevelt de outro a tirania de Hitler e Stálin. Os dois maiores assassinos da história enfrentar-se-iam a partir de 41, na guerra mundial que acabou em 45. Stálin, em 35, Hitler em 38, tramaram o assassinato do presidente. Vargas, em 42, já unido a Churchill e Roosevelt, se uniria a Stálin contra Hitler. Mas esta é outro ângulo da questão, aliás pouco observados pelos historiadores.

Voltemos ao trabalho. Este é o ponto comum entre Lula e Getúlio. Lula assumiu em Janeiro de 2003 com o índice de dezembro de 9,7% sobre a força de trabalho herdado de FHC. Passa o bastão a Roussef com uma taxa de 5,7%, destacada pelo O Globo, reportagem de Fabiana Ribeiro e Cássia Almeida, edição do dia 18. Começou com um salário mínimo de 100 dólares. Deixa com um piso de 300.

No período Fernando Henrique, os salários, especialmente dos servidores públicos, perderam para a inflação do IBGE. Com Lula empataram, sendo que o salário mínimo avançou muito mais que o fator inflacionário. Não acabam aí as diferenças capazes de sensibilizar a opinião pública. A expansão do crédito pessoal é outra realidade.

Mas Lula não enfrentou os absurdos juros cobrados pelos bancos. Apenas favoreceu o acesso popular a eles. Estão aqui as razões concretas de sua enorme aprovação. Em 50, Vargas voltou ao poder para morrer. Mas em quem os trabalhadores deveriam votar? Nele, ou nos conservadores da UDN?
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