De volta a Alhambra de Granada

Alhambra é um dos redutos históricos mais belos do mundo

Sebastião Nery

GRANADA – A primeira vez em que vim a Granada foi no violão de meu pai lá nas noites da roça. Agustín Lara, o barroco mexicano Ángel Agustín Maria Carlos Fausto Mariano Alfonso Rojas Canela del Sagrado Corazón de Jesús Lara y Aguirre del Pino, embolerava as noites com as canções “Granada”, “Solamente una Vez”, “Noche de Ronda”, “Palmeras” (o nome da nossa fazendinha) e outras.

A segunda vez em que vim a Granada foi nos iluminados comícios da Constituinte espanhola de 1977, quando a Espanha reaprendeu a democracia, a luta política e a liberdade.

A terceira vez em que vim a Granada foi na Exposição Internacional de Sevilha em 1992 quando o então presidente espanhol Felipe Gonzalez acompanhou o presidente Fernando Collor numa visita aos eternos labirintos de Alhambra, soluço incontido da história e Patrimônio Cultural da Humanidade, soberbos séculos construídos pelos árabes e pelo cristianismo desde os fenícios, os romanos, os gregos.

LABIRINTOS

A quarta vez em que vim a Granada foi agora. Mas não vim a Granada porque vir a Granada sem ir a Alhambra é não ir a Alhambra nem vir a Granada. Aqueles magníficos e perturbadores palácios, brotando de dentro das florestas de ciprestes são um dos mais apocalípticos documentos da espiritualidade humana. A partir do ano 712 os árabes dominaram o reino de Granada durante 536 anos. Em 1248 Fernando III, O Santo, conquistou Sevilha e Granada para a cristandade.

Os mulçumanos foram embora de Granada ficando apenas cristãos e judeus. Em 5 séculos construíram dezenas de palácios e quilômetros de caminhos nas colinas vermelhas da Alhambra. Sevilha é um símbolo da união do mundo árabe com o mundo cristão. Na catedral toda em ouro, está o túmulo de Cristovão Colombo, todo em prata.

Cheguei a um tempo em que caminhar horas é maratona. Vou voltar a Alhambra ouvindo Granada de Agustín Lara.

CAPITALISMO

O jornal “El Pais”, o maior da Espanha e da Europa, publicou uma pesquisa assustadora: “O 1% mais rico tem tanto patrimônio quanto todo o resto do mundo”:

– “2015 será relembrado como o primeiro ano da série histórica em que a riqueza de 1% da população mundial alcançou a metade do valor de todos os ativos. Em outras palavras: o 1% da população mundial, aqueles que têm um patrimônio avaliado em 760.000 dólares têm tanto dinheiro liquido ou investido como os 99% do restante da população mundial. Esta enorme faixa entre privilegiados e o resto da humanidade, continuou ampliando-se desde o inicio da Grande Recessão, em 2008”.

– “A estatística do Credit Suisse, uma das mais confiáveis, chega já a uma leitura possível: os ricos sairão das crises ainda mais ricos, em termos absolutos como relativos, e os pobres relativamente mais pobres”.

ELEIÇÕES

No dia 20 de dezembro a Espanha vai às urnas para escolher o novo Chefe do Governo que, como o regime é parlamentarista, sairá da maioria conquistada por cada partido. Estes números que estão ai em cima comandam o debate eleitoral. Como também os números do orçamento nacional.

Aqui não há pedaladas. Como a União Europeia achou que os números do orçamento para 2015 estavam sem objetividade, reclamou e pediu que o Governo Espanhol seja mais objetivo para que não só a população espanhola como os governos de todos os estados da União Europeia possam caminhar seguros diante dos números.

No dia 20 a palavra final é das urnas.

7 thoughts on “De volta a Alhambra de Granada

  1. Alhambra deveria ser eleita como uma das maravilhas do mundo, e tombada pelo patrimônio histórico internacional.
    Igualmente dezenas de outros prédios magníficos construídos pelos árabes quando dominaram a Península Ibérica, como a cidade citada por Nery, Sevilha.
    Já escrevi neste blog incomparável que coleciono PPS sobre igrejas, basílicas, catedrais, mosteiros, abadias, santuários, mesquitas, sinagogas, templos, palácios e castelos.
    Tenho um apreciável acervo – cerca de 5.000 PPS – a respeito dessas obras estupendas, que são testemunhas de uma época passada de mais de mil anos, algumas, porém a maioria com 600, 500 anos de existência!
    E elas são maravilhosas, principalmente as catedrais e basílicas espanholas, além das mesquitas espalhadas mundo afora, que caracterizam a arquitetura árabe como verdadeiramente estonteante, pujante, rica, espetacular!
    Alhambra é uma delas e, decididamente, não é a mais espetacular, que eu designaria a Mesquita Azul como a construção mais extraordinária construída pelo Império Otomano, pois está localizada na Turquia, Istambul.
    Descrita como inalcansável símbolo de elegância e esplendor, por sua arquitetura, com seus seis esbeltos minaretes e seu majestoso domo, representa o supremo exemplo da arquitetura clássica otomana, por sua cúpula central de 43 m de diâmetro e 23 m de altura que se sustenta em quatro pilares.
    No interior da mesquita reluzem 20.000 lâmpadas de porcelana de Izenik, de alto valor estético, com suas cores azuis, verdes e brancas. A Mesquita de Sultanahmet é conhecida também como Mesquita Azul, graças a decoração de intensa cor azul que cobre as cúpulas pequenas e grande parte do interior da cúpula principal.
    Uma peculiaridade que distingue a Mesquita Azul de outras mesquitas principais é porque é a única na Turquia com seis minaretes. A disposição dos 6 minaretes reflete uma grande maestria, já que servem de união entre o edifício principal e o pátio interior.
    Belo artigo de Nery, e uma pausa para se comentar a respeito de belezas, e não somente de lixo e podridão, que tem sido o governo brasileiro e a nossa política deletéria!

    • Concordo com o Bendl, estive um dia inteiro maravilhado em Alhambra.
      Minha filha e meu genro estiveram na Mesquita Azul, em Istambul, disseram-me… indescritível. Mulheres só podem entrar com o véu …
      Turismo tb é cultura e blog.

    • O contrârio também é verdadeiro, veja que a superacumulação do capital desvirtua a economia trazendo desequilibrio aos fatores produtivos. É o que está ocorrendo neste momento com todos os países do mundo em função da superacumulação do capital pelos bancos.
      O endividamento com o sistema financeiro, tanto do setor privado quanto dos governos, decorrente dessa superacumulação, está drenando aa economia desses países

  2. http://pmdb.org.br/artigos/o-pensamento-magico-e-a-aritmetica/

    O pensamento mágico e a aritmética … Delfim Netto (*) … 20 de outubro de 2015
    Uma boa parte das dificuldades de comunicação e de entendimento entre os economistas decorre do fato que nunca colocam a clara diferença entre os fins (a natureza da sociedade que cada um almeja) e os meios (instituições e os instrumentos) para construí-la e administrá-la. Temos duas questões hierarquizadas.
    Primeiro, um problema político: a escolha dos objetivos da sociedade. Eles dependem da nossa “visão do mundo” no qual, inevitavelmente, temos que viver. De como vemos nossa inserção nela, e de como nossa ambição de explorar os limites das potencialidades de que somos portadores poderá ser realizada, o que depende do que acreditamos ser. Se apenas um “homo faber”, ou seja, um pouco melhor do que uma formiga, que tem consciência das suas necessidades, ou um ser infinitamente mais complexo: um “homo sapiens sapiens”, que em condições adequadas florescerá, conscientemente, na plenitude da sua humanidade e extrairá o máximo da alegria proporcionada pelo acidente de ter nascido.
    É evidente que a sociedade “civilizada” que queremos é um imperioso ato de vontade. Dá o norte da caminhada, mas a geografia é complicada. O caminho mais curto entre dois pontos não é, seguramente, a linha reta, o que nos deve prevenir contra a escolha de atalhos sugeridos por cérebros peregrinos. Vale apenas insistir que, como nos advertiu Goya, “os sonhos da razão produzem monstros”…
    O socialismo “real” não resolveu o problema da pobreza
    Entendido que vivemos numa organização “capitalista”, temos que reconhecer que ela não é nem “natural”, nem ”atemporal”. E mais, que o direito de propriedade que a sustenta não é uma criação divina para garantir a separação entre o trabalho e o capital. Ele confere ao sistema de preços relativos, que se forma “naturalmente” em mercados competitivos desde tempos imemoriais, o papel de coordenador das atividades produtivas do homem. Finalmente, é preciso compreender que a brilhante e abstrata “teoria do equilíbrio geral”, na qual não há papel econômico para o Estado, e se aceita qualquer distribuição de renda, não é uma proposta para a construção de uma sociedade “civilizada”.
    É preciso, ao contrário, insistir que um Estado forte, constitucionalmente limitado, é fundamental não apenas para garantir o direito de propriedade e o bom funcionamento dos “mercados”, mas também para controlar os inevitáveis abusos da organização do capital que distorcem os mercados. Infelizmente, as mudanças têm sido lentas pela influência do poder das finanças (lobismo e corrupção) que se infiltrou na administração pública. O ”capitalismo” continua caracterizado pela velha “trindade maléfica”: a pobreza (que diminuiu), a “desigualdade” (que aumentou, ainda que haja controvérsia) e a “irregularidade cíclica” (que explodiu), a que se referiu o professor Paul Hugon, na FEAUSP, em 1949.
    Uma vez escolhida a natureza política da sociedade, sua construção pode contemplar diferentes soluções. Temos um problema técnico sobre o qual a economia, desde o século XVII, vem acumulando preciosos conhecimentos de utilidade indisputada para a boa administração econômica. Tratase do estudo disciplinado dos mesmos problemas que afligem todas as sociedades, cujas soluções mudam, porque combinam a evolução do pensamento abstrato com a experiência histórica e superam as consequências indesejadas e insuspeitadas, das soluções anteriores.
    Por exemplo, no combate à inflação, o controle de preços e salários sempre foi uma heresia. Durante décadas, nos países do socialismo “real” e depois da Segunda Guerra até os anos 70 do século passado, quando o keynesianismo hidráulico terminou num desastre universal, foi considerado “boa” ciência pelo então “mainstream”. Hoje é apenas um expediente inútil que pode ser muito custoso, como estamos vendo…
    A experiência histórica levou 70 anos para demonstrar que a implantação do socialismo “real” não resolveu o problema da “pobreza”. Apenas mitigou a “desigualdade” geral, mas aumentou a distância entre os que detinham o poder e os que lhe deviam obediência absoluta. Em compensação, corrigiu a “irregularidade” (as flutuações cíclicas ínsitas ao capitalismo) à custa da criação de dois problemas ainda piores: a dramática redução da eficiência produtiva (pela perda de coordenação da atividade econômica pelo bom funcionamento dos mercados) e pela necessidade da mais completa e trágica anulação da liberdade individual.
    Um último exemplo: chegou a hora de reconhecer que o aumento da relação dívida bruta/PIB e a maior taxa de juro real do universo no Brasil não são culpa do “capitalismo”, como insiste em dizer uma esquerda infantilizada, porque a aritmética é a mesma no “capitalismo” e no socialismo “real”. São culpa exclusiva da má administração financeira resultante do voluntarismo-ativo conduzido pelo mesmo pensamento “mágico”, que hoje sugere que basta reduzir, “na marra”, os dois, e distribuir os “recursos” resultantes para que tudo se acerte! O único problema é que o pensamento mágico não funciona nem no socialismo “mágico”…
    (*) Professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento e escreve às terças-feiras no jornal Valor Econômico

    • Depois de escamotear bastante a situação do país e falar muita mentira sobre a falsa competência de Dilma, o Sr. Delfin resolveu falar algumas verdades óbvias para sustentar sua imagem. Ora pois…

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