Debaixo do lixo corre o esgoto

Carlos Chagas 
                                              
Apresenta razões mais escabrosas ainda esse lamentável choque  entre PMDB e PT por cargos no governo. Debaixo do lixo  corre o esgoto. Sabem por que o ministério da Saúde e seus penduricalhos são os mais disputados? Por possuírem a maior verba incluída no orçamento: dezenas de bilhões, mais de oitenta.
                                              
Com todo o respeito, por que os partidos pretendem gerir tanto dinheiro assim? A suspeita é de que, aplicando fortunas através de empresas privadas, prestadoras de serviço e empreiteiras, os gestores venham a recolher comissões. Percentuais sobre os gastos sempre superfaturados. Assim  Delúbio Soares e sua quadrilha amealhavam recursos para financiar o mensalão.
                                              
Foram-se os tempos do dr. Jatene. A investida agora exige a distribuição de fatias do erário através de  prepostos das direções partidárias, com ênfase para o PMDB, que estrila por haver perdido o caminho da fonte. Espera-se que o PT possua outras motivações para abocanhar o sistema de saúde pública, mas garantir, ninguém garante.
                                              
Escreveu diversas vezes o médico Aloísio Campos da Paz,  certamente o maior administrador brasileiro de recursos da saúde pública,  criador da rede de hospitais Sarah, que a medicina pública é incompatível com o lucro. Ganhar dinheiro com a doença e o sofrimento do cidadão beira as raias do crime. 
                                              
Deve-se dar ao ministro Alexandre Padilha o crédito de uma vida política escorreita e sem percalços. Por isso ele deveria estar lutando feito leão para não permitir o esquartejamento de sua pasta pelas hienas partidárias. Vamos ver se consegue.
 
E A CUT, ONDE ANDA?
 
Paulo Pereira da Silva, da Força Sindical, saiu na frente e parece o único líder  sindicalista a verificar o garfo embutido na proposta do novo salário mínimo de 540 reais.  Porque essa quantia constitui um esbulho. O reajuste está abaixo da inflação do ano passado,  importando menos  argumentar  que o PIB cresceu menos em 2009, mas que em 2012 os trabalhadores terão considerável aumento por conta do elogiável crescimento econômico em 2010. O que interessa para a massa de operários e camponeses é 2011.
                                              
No meio dessa discussão,  onde anda a CUT? É verdade que nos últimos oito anos a maior central sindical de nossa História omitiu-se. Não podia criar problemas para o Lula. Mas se os planos da companheirada são de oito anos para Dilma Rousseff e, depois, mais oito para Luiz Inácio da Silva, o resultado será a transformação da CUT numa assembléia de condomínio de um prédio de subúrbio. Já perdeu muito de sua influência, e mais perderá calando-se diante da injustiça desse novo salário mínimo.
 
GUIDO LÊ VOLTAIRE? 
 
Papai Noel deveria ter deixado  a coleção completa das obras de Voltaire de presente para o ministro Guido Mantega. Ele poderia ler num dos primeiros artigos do jovem François Marie Arouet, recém-chegado a Paris, o conselho dado ao regente da França, Felipe de Orleáns. Foi por conta da necessidade de fazer economia  que o  tio do ainda menino Luís XV decidiu vender a metade dos animais das cavalariças reais. Voltaire escreveu que o governante faria mais economia caso se livrasse não dos cavalos, mas da metade dos jumentos que compunham a corte. Ganhou sua primeira passagem para a Bastilha.

Guido Mantega quer cortar bilhões nos gastos públicos, coisa que fatalmente atingirá serviços essenciais para a população, da educação à saúde e à  segurança pública.  Melhor faria se mandasse suprimir os mais de 35 mil cargos federais em comissão, os famigerados DAS que abrigam funcionários sem concurso e sem competência…
 
MESQUINHARIAS
 
Alguns ranzinzas protestam por estar o ex-presidente Lula, com a família, hospedado numa dependência do Exército, à beira-mar, aproveitando para descansar sem ser perturbado como fatalmente seria se freqüentasse o balneário do Guarujá. Lembram que Fernando Henrique não se valeu de prerrogativa igual e que depois de deixar o poder viajou para a Europa só com dona Ruth. As situações são diferentes, mas nem tanto, porque ao chegar à capital francesa o sociólogo teve à  disposição todo o aparato da embaixada brasileira.
                                              
Faria o quê, o Lula, se tivesse embarcado para a Europa? Monoglota, encontraria montes de  dificuldades, quando na verdade deseja apenas descansar. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, convidou-o a   ocupar por alguns dias aposentos no Forte dos Andradas,  defronte a uma praia privada, onde se encontra livre dos chatos, dos inoportunos e dos curiosos.  Melhor do que viajar às custas de empreiteiras, como acontece com montes de parlamentares.

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