Defesas mais compactas, menos gols na Copa 2010

Pedro do Coutto

Em excelente reportagem publicada no caderno de Esportes de O Globo edição 17 de junho, Miguel Caballero, apoiado por bela e objetiva ilustração gráfica, focalizou o fenômeno estatístico divulgado pela FIFA retratando a acentuada redução, este ano, da média de  gols na fase de classificação, comparada com as médias registradas através da história de dezoito Taças do Mundo.

Na décima nona, na África do Sul, a média está sendo de 1,56 por partida. Em 2006, na Alemanha, foi de 2,44. Qual a razão? Predominância da tática sobre a técnica? Crise no futebol arte? Nada disso. O futebol nunca foi tão valorizado como agora. Basta ver os contratos dos jogadores e técnicos no mercado europeu liderado pela Itália, Espanha, Inglaterra e Alemanha. Nunca um volume publicitário mundial em torno da disputa alcançou uma escala avassaladora como a de hoje.

A queda do índice médio de gols foi objeto também de, como sempre, ótimo artigo de Tostão na Folha de São Paulo, também do dia 17. Tostão que, a meu ver integraria a Seleção Brasileira de todos os tempos, sustenta que a explicação talvez se encontre na exagerada distância em campo entre a chegada de uma equipe ao ataque e seu sistema defensivo. Pode ser uma interpretação, mas não toda ela. É verdade que tal fato termina causando número acentuado de faltas, muitas violentas, na saída de bola dos times. Os adversários procuram ganhar tempo para recolocação, paralisando o desenvolvimento das partidas. Esta visão geral, como disse, é válida. Mas não esgota o tema, dos mais interessantes.

É que em minha opinião, antes as equipes atuavam com onze jogadores ocupando o espaço. Atualmente os onze ocupam na verdade nada menos do que quinze espaços. Surpresa? Talvez. Mas vamos desenvolver o raciocínio. No passado, os dois zagueiros laterais marcavam os pontas direita e esquerda e quase não avançavam. Hoje, os dois laterais correm o triplo do que em outras épocas e exercem missão dupla.São defensores e são pontas. Defendem e atacam. A figura do ponta clássico como Tesourinha, Julinho Botelho, o genial Garrincha e Jairzinho (os grandes que vi jogar de 41 a 2010), desapareceu na névoa do tempo. Citei os da direita. Poderia incluir os da esquerda como Pepe, Chico, Rodrigues e Vavá. Zagalo já era, ao mesmo tempo, ponta e armador que retornava para auxiliar a defesa. Foi ele, em 58, quem completou o primeiro quatro-três-três do futebol brasileiro.

Falei dos pontas. E o meio campo? Anteriormente pouco voltava para participar de ações defensivas. Hoje, recua maciçamente. Pelo menos dois de seus integrantes ocupam espaço tanto no ataque como na defesa. Com os laterais, atacando passaram a ter 13 jogadores. Com dois de meio campo que vão e voltam, completa-se a soma de 15 à qual eu cheguei observando os desempenhos das seleções nesta Copa.

O futebol emociona e apaixona. Porém o arrebatamento, a febre do gol, tem que considerar a nova solidez dos sistemas defensivos. No futebol brasileiro, uma herança deixada por Zezé Moreira. Nenhum time mágico que só atacava foi campeão do mundo até hoje. Se, no passado, em 50, por exemplo, nosso meio campo com Zizinho, Danilo, Jair da Rosa Pinto voltasse, teria caído para a esquerda e dado cobertura a Bigode que era seguidamente ultrapassado por Ghigia. No passado, havia mais espaço para atacar. Na época atual há menos. A explicação está nisso. Como diz o samba, não adianta chorar nem lamentar.

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