Déficit não é só de 300 mil professores; é de qualidade e tempo também

Pedro do Coutto

Numa ótima reportagem publicada no Globo de 29, Marcelo Remígio, com base em dados do próprio Conselho Nacional de Educação, revelou faltarem nada menos de 300 mil professores no ensino público do país, correspondendo a 15% do magistério efetivo. Quer dizer: o sistema possui 2 milhões de professores e professoras, mas deveria ter 2 milhões e 300 mil. Foto de Efrem Ribeiro acompanha a matéria.

O déficit é alarmante, sem dúvida. Porém, analisando-se atentamente a questão, ele é ainda muito maior. Faltam 300 pessoas aptas a ensinar, autores do amanhã, arquitetos do futuro. Mas este aspecto não é o único a tolher o desenvolvimento da educação brasileira. Temos que incluir a baixa qualidade, os baixos salários, o déficit de tempo e preparação para as aulas.

Pela Constituição Federal, os professores podem exercer cumulativamente duas matrículas. Solução simples para a escassez da oferta de mão de obra especializada? Nada disso. Pelo contrário. A acumulação acrescenta em complexidade e, em vez de diminuir, agrava o déficit. Basta comparar as cargas horárias e a distância entre uma escola e outra, entre um colégio e outro. Quantas aulas, em tal sistema dá um professor por dia? Qual a distância entre os estabelecimentos em que leciona? Qual o tempo necessário para o transporte entre os dois pontos?

A questão não termina aí. Pela Carta de 88, os integrantes do magistério podem ter duas matrículas. Nas redes públicas. Mas isso não impede que, para suprir os baixos salários, eles tenham que trabalhar também num colégio ou escola particular. Não é uma boa. A sobrecarga reflete-se nos nervos, amplia a ansiedade e o cansaço, faz cair ainda mais a qualidade das aulas e portanto do aprendizado proposto. Resultado: professores com pouco preparo, sobrecarregados de tarefas, agindo para que os alunos aprendam menos.

Num enorme número de casos, estudantes completam o nível médio, aos 17 anos, sem ter conhecimento de quase nada. Não são capazes de escrever um bilhete compreensível. Um desastre. Desastre, aliás, reconhecido pelo governador Sérgio Cabral, em entrevista a Eleonora de Lucena e Paula Cesarina Costa, Folha de São Paulo de sexta-feira 30, quando confessou seu desgosto com o fato de o Rio de Janeiro ter obtido a vigésima sexta colocação no país em matéria de Índice de Educação Básica, o IEB. Vigésimo sexto em 27 estados.

Incrível, sobretudo tratando-se da antiga capital cultural do país, posto do qual evidentemente foi rebaixado pela luz dos fatos. Por falar em luz, belíssima foto de Rafael Andrade ilumina a página 7 da FSP focalizando momento da entrevista do governador tradicional em salão do Palácio Laranjeiras. Mas esta é outra questão.

O essencial é que, reflexo do processo aberto com os governos militares a partir de 64, ainda não encerrado, ocorreu um gravíssimo retrocesso no Serviço Público de modo geral. Os professores são funcionários públicos. O valor dos vencimentos caiu assustadoramente. Está muito abaixo dos níveis do mercado. Tanto assim que se constata, como revelou Marcelo Remígio no Globo, escassez de mão de obra no setor.

Antigamente, digo isso com experiência de minha família, toda de professores, a remuneração era muito mais alta, a função muito mais valorizada. Meu tio, era diretor geral aposentado do Pedro II e diretor do Colégio Paula Freitas. Íntegro a toda prova, conseguiu comprar uma casa na Av. Paulo de Frontin. Qual professor ou servidor público, pode adquirir uma casa nos tempos de hoje?

A lógica é irredutível: baixou o valor do salário, reduziu o status, a respeitabilidade e, com tudo isso o nível social do magistério. Na realidade, a educação brasileira vive um drama. Parte da qualificação profissional, passa pela assiduidade, ameaça se eternizar no baixíssimo rendimento dos alunos. Uma perda enorme para o presente e para o futuro do país. Qual a saída?

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