Del Nero fugiu antes de o FBI aterrissar na Suíça para prendê-lo

Pedro do Coutto

A constatação do que motivou a repentina decolagem de Marco Polo Del Nero da Suíça para retornar imediatamente ao Brasil. deixando até de participar da eleição na FIFA, é óbvia: com a explosão internacional do escândalo marcado pela corrupção no futebol, que incluiu a prisão de José Maria Marin pelo FBI, o atual presidente da CBF temeu sofrer destino igual. Apressou-se, portanto, em deixar Zurique, sede da Federação Mundial, e retornar ao Rio de Janeiro, Barra da Tijuca, depois de retirar o nome de Marin do edifício. Del Nero, vale acentuar, foi vice-presidente da Marin na CBF até há poucos meses.

As reportagens de Jailton de Carvalho, Luiza Damé e Miguel Cabalero, no Globo, e de Leandro Colón e Marcel Rizo, na Folha de São Paulo, edições de sexta-feira, iluminam a cena e, ao mesmo tempo, eliminam sombras ainda existentes que tanto preocuparam (e preocupam) Del Nero. Afinal de contas, vice de Marin e por ele apoiado para sucedê-lo, não poderia ignorar o que se passava ao longo de mais de vinte anos na Confederação Brasileira e também as pontes existentes entre o esporte no Brasil e competições internacionais realizadas através do tempo.

Pois se José Hawilla, um ex-repórter, agora coloca à disposição da Justiça dos EUA, para confisco, 151 milhões de dólares, como a imprensa revelou, algo fora do esquadro das possibilidades ocorreu. De onde nasceu tal fortuna? Claro que, da mesma forma que Kleber Leite, outro ex-repórter, o enriquecimento surgiu de suas ligações com direções da CBF que se sucederam ao longo do tempo. Venda de direitos de transmissão e publicidade através de comissões que só podem incluir, a exemplo do que aconteceu no assalto à Petrobrás, superfaturamentos de preço. Alguém foi fortemente lesado, pois não existe débito sem crédito e vice-versa.

FRAUDES E SONEGAÇÃO

Fica no ar a dúvida, como admitiu o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, se as operações financeiras executadas com a participação da Traffic e da Kefler envolveram também – o que não parece impossível – fraudes fiscais e sonegação do Imposto de Renda. Isso porque, como está evidente no caso de José Hawilla, comissões eram pagas no exterior, atravessando estados da América do Norte, daí a participação do FBI nas investigações e nas prisões daqueles que considera culpados da prática de crimes financeiros.

José Maria Marin está preso na Suíça, aguardando desfecho de um processo de extradição para os Estados Unidos. José Hawilla, pelo que se interpreta da delação premiada que ofereceu junto com a devolução de 151 milhões de dólares, encontra-se nos EUA. Mas Kleber Leite está no Brasil. Teme naturalmente, agora, a Polícia Federal, mas não a extradição. A Constituição de nosso país proíbe a extradição de brasileiros. Se vier a ter seu nome incluído na lista do FBI, Del Nero passa à mesma situação de Kleber leite: não pode ser extraditado, assim escapa à perspectiva de ser preso nos Estados Unidos.

Por isso – claro – tratou de conseguiu passagem para antecipar seu retorno. Praticou assim, o que se pode considerar uma confissão, por ação tácita, de seu comprometimento, tenha sido este por participação ou por omissão diante de um plano sequência que se estendeu por vinte anos, segundo o FBI, numa versão confirmada pelo segredo e pelo silêncio.

ERRO COLOSSAL AO ATACAR O EUA

O presidente da Fifa, Joseph Blatter, como se constata por sua entrevista, publicada na edição de ontem de O Globo, cometeu um erro colossal ao acusar o governo dos Estados Unidos de ter agido por questões políticas no caso da denúncia sobre a corrupção no futebol e a prisão de dirigentes da própria Federação Internacional, pelo FBI, na Suíça.

Blatter, ao acusar o governo de Washington de revanchismo pelo fato de o país não ter sido escolhido para sediar a Copa de 22, esqueceu das denúncias, inclusive confirmadas pelo brasileiro José Hawilla, que confessou a existência de subornos e se dispôs a devolver 151 milhões de dólares. Blatter abriu caminho para ser processado pela justiça americana e ter aprofundadas as investigações quanto a sua atuação. Pelo menos foi omisso em apurar os fatos, uma vez que não seria possível não ter conhecimento das articulações feitas à sombra do futebol internacional.

EDMUNDO BARRADO

As influências e os interesses de empresas na comercialização dos espetáculos eram bastante visíveis, como escreveu Carlos Heitor Cony na edição de ontem, domingo, da Folha de São Paulo. Ele lembrou o episódio da final da Copa de 98, em Paris quando depois de anunciar a escalação de Edmundo no lugar de Ronaldo, que não teria passado bem, o técnico Zagalo foi obrigado a mudar sua decisão, por determinações que recebeu dos dirigentes brasileiros, que não desejavam contrariar uma grande empresa patrocinadora. Este é um fato que em si confirma os interesses extra esportivos que envolveram e envolvem o futebol. Blatter não podia ignorá-los. Tampouco esquecer a entrevista de José Hawilla publicada na revista Veja. Errou pelo menos por dupla omissão.

6 thoughts on “Del Nero fugiu antes de o FBI aterrissar na Suíça para prendê-lo

  1. Bem diz o ditado, “não há honra entre ladrões”. O medo do Del Nero é tanto que não esperou nem o resultado do julgamento de seu comparsa para retirar o nome dele do prédio da sede da CBF… Se espera que com isso vai conseguir desvincular seu nome dos desmandos que os dois fizeram, vai ter uma decepção.

  2. Ricardo Teixeira também foi rapidíssimo em sair dos Estados Unidos (Miami) e vir, voando batido para a terra da impunidade e da Justiça aparelhada. E colocou à venda sua mansão de US$ 22 milhões em Miami, porteira fechada, incluindo uma lancha para viagens oceânicas.

    Conclusão óbvia: é melhor ser livre na bosta que preso em jardim de rosas.

  3. Só uma bosta humana tira uma conclusão como acima. É por caras assim que me afasto de participar. Não sabe nem o que é a justiça de seu país, quanto mais a estadual da Flórida e a federal norte americana que deixa livre e impune terrorista que explode avião com atletas estrangeiros.

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