Demissões em massa entregam mais uma tradicional faculdade aos “valores do mercado”.

Lucas Alvares
 
Desde a última sexta-feira, uma das mais tradicionais faculdades de Comunicação Social do Rio de Janeiro passa por uma das maiores crises de seus 40 anos de história. As Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), sob controle do grupo Comatrix, promoveram demissões em massa entre seus professores e coordenadores.

De acordo com uma lista que circula entre os alunos da instituição, deixaram a Facha 14 professores e os coordenadores de ensino, pesquisa e extensão, Dráuzio Gonzaga, e de publicidade e propaganda, Aluízio Pires, além do assessor pedagógico Naílton Maia. Justificados como parte de um processo de reestruturação da empresa “de fins filantrópicos”, os desligamentos indignaram alunos e professores, que ameaçam deixar de pagar as mensalidades se não forem apresentados os devidos esclarecimentos.

A Comatrix, contratada por instituições privadas para serviços de “gestão empresarial”, é conhecida pelas “reestruturações” que promove após a assinatura de seus contratos, em especial com instituições de ensino. Nas passagens anteriores pela universidades Estácio de Sá e UniCarioca, legou um rastro de cortes de pessoal e arrochos salariais.

Especializada em gestão à brasileira, demonstra ver na redução de custos a missão do empresário na Terra, e no aumento das receitas um cume inatingível, afinal os impostos e o Estado são sempre os culpados.

Revoltados, os estudantes da Facha realizam ao longo desta semana uma série de debates e encontros para discutir a crise na instituição. Em um deles, receberam um representante da empresa gestora, e este confirmou que “houve algumas demissões”. Posteriormente, em assembléias com dirigentes da faculdade, tiveram negados os rumores de que os profissionais demitidos seriam substituídos pelas indefectíveis “aulas semi-presenciais” – à moda da concorrente Estácio – e que haveria novos cortes ainda neste semestre.

São comuns as queixas de formandos que perderam seus orientadores e, em especial, contra a atitude de incluir uma antropóloga de 81 anos de idade, mais de 30 na casa, entre os demitidos. E o fim da picada: a proposta feita pela gestora a ela e aos colegas – parcelar o recebimento dos direitos trabalhistas em dez vezes ou ter de recorrer à justiça, em uma atitude amoral.

A entrega da gestão da Hélio Alonso, um dos últimos bastiões do ensino de qualidade e do jornalista-pensador no Brasil, a um grupo que apresenta larga experiência na transformação de instituições de ensino tradicionais em corporações à brasileira, representa muito mais do que os empregos perdidos por 17 chefes de família que culpa alguma têm das intempéries pelas quais passa uma empresa.

Representa o triste retrato da submissão de nossas instituições de ensino aos mais obscuros interesses do mercado financeiro e de seus valores e condutas. Ao desrespeitar um trabalhador, no afã de parcelar 30 anos de dedicação em dez vezes – como as prestações de um sofá – os gestores abraçam o que há de mais imoral na relação entre o capital e o trabalho: o total desinteresse, ou mesmo repulsa, de um pelo outro.

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