Depoimentos na CPI demonstram que não há chance de o governo Bolsonaro dar certo

Merval Pereira
O Globo

Além das mentiras já comprovadas do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que o noticiário em tempo real já explora desde quarta-feira e os jornais estão certamente aprofundando, os depoimentos à CPI da Covid até agora estão desvelando a maneira primitiva com que as decisões não são tomadas no governo Bolsonaro.

Juntando com a operação da Polícia Federal realizada ontem sobre a venda ilegal de madeira para os Estados Unidos, denunciada pelo próprio governo americano, temos a prova cabal de que não é apenas a questão ideológica que interfere na formação de um governo totalmente disfuncional.

INVESTIGAÇÃO SIGILOSA – O (ainda?) ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e diversos escalões do Ibama, inclusive seu presidente, foram apanhados por uma investigação sigilosa que incomodou Bolsonaro, que fez trocas no Ministério da Justiça e na Polícia Federal na tentativa de controlar as instituições do Estado brasileiro e viu-se surpreendido com a independência da PF.

Um exemplo típico, e fundamental, dessa disfuncionalidade é a crença de que as palavras de Bolsonaro nas redes sociais e nas lives fazem parte apenas do seu “etos político”, e não representam orientações do governo. Ao explicar a famosa frase “um manda, outro obedece”, Pazuello disse que era “uma frase de internet”, isto é, uma resposta para ajudar o político Bolsonaro, que estava sendo criticado por seus seguidores nas redes sociais porque o Ministério da Saúde havia anunciado a compra da CoronaVac, a “vacina chinesa” do Doria.

Seria uma releitura abrutalhada de Maquiavel, que separava a ética política da ética moral, ou então de Max Weber, uma referência para os que querem ser servidores públicos conjugando a “ética da convicção”, dos princípios morais aceitos em cada sociedade, e a “ética da responsabilidade”, que prevalece na atividade política.

O MESMO BOLSONARO – Se houvesse um lado B de Bolsonaro, que para fora do governo enviasse uma mensagem, e o lado A agisse com bom senso, não teríamos tido a tragédia sanitária de que Pazuello é cúmplice. Basta assistir ao vídeo da famosa reunião ministerial que precipitou a saída do ex-ministro Sergio Moro para ver que o Bolsonaro das redes sociais é o mesmo nas entranhas do governo.

Ao mentir na CPI, tentando livrar a cara do presidente, o ex-ministro da Saúde comete um “crime continuado”, mesmo fora do governo. Os fatos o desmentem. O caso do avião oferecido pelos Estados Unidos para levar oxigênio para Manaus, na crise sanitária ocorrida dentro da pandemia no Brasil, é exemplar da incapacidade de trabalho em equipe deste governo.

O ex-chanceler Ernesto Araújo não falou com o governo da Venezuela, nem com o dos Estados Unidos, por questões ideológicas. E também não encaminhou, segundo Pazuello, um pedido formal com as características dos cilindros que seriam apanhados na Venezuela para levar a Manaus.

OMISSÃO CRIMINOSA – Araújo já havia feito isso quando recebeu a carta da Pfizer oferecendo vacinas. Não comunicou ao presidente Bolsonaro porque supôs “que o governo tinha recebido a carta”.

Pazuello soube que havia um avião dos Estados Unidos pronto para trazer oxigênio, mas não fez nada, pois não lhe perguntaram nada, só informaram.

Ernesto Araújo disse que cabia ao Ministério da Saúde dar as informações técnicas para o voo. Os dois não se falaram, demonstrando que as autoridades do governo tiveram comportamentos burocráticos durante a crise humanitária em Manaus.

VISÃO PROVINCIANA – Pazuello reafirmou uma visão provinciana das negociações internacionais sobre as vacinas. Disse que mostrou ao representante da Pfizer o tamanho do Brasil num mapa, assim como o presidente Bolsonaro dissera anteriormente que o mercado brasileiro era tão grande que poderíamos negociar o preço das doses.

Deu tudo errado, e, ao final, compramos a vacina da Pfizer pelo preço definido no início das negociações, perdendo tempo e prioridade na distribuição das doses.

É um governo completamente disfuncional. Com esses depoimentos e declarações, não há a menor chance de dar certo.

7 thoughts on “Depoimentos na CPI demonstram que não há chance de o governo Bolsonaro dar certo

  1. Esse governo, promovido por um presidente TOTALMENTE DESPREPARADO, nuca deu certo nem dará. Na realidade, ele é um mito, uma ficção. De concreto ele não tem nada. Jamais foi um estadista e jamais será. Envolvido por uma equipe política e familiar sem o menor preparo, ele está fadado a um gigantesco FRACASSO !!!

  2. O Jair não acerta nem que a vaca cante – ele foi desmascarado. Poderia ter tido sucesso como militar da reserva, mas quis bancar o bom, sifu. O mesmo está acontecendo com os 3 e 4 estrelas que fazem parte de sua curriola – vão faturar com o furo do teto de salários, mas vão ficar mais sujos do que chão de banheiro de botequim de subúrbio. Melhor seria criar galinha até o passamento.

  3. O governo federal mentiu por diversas vezes, na época e depois, sobre o problema do oxigênio. Primeiro disseram que somente um avião especialmente adaptado por questões de “pressão na cabine” poderia levar oxigênio, e depois que o único capaz disso no Brasil era um Hércules C-130, mas ele estava em manutenção, e depois que estavam pedindo ao governo americano o envio de um avião capaz de fazer o transporte. Além de que quase qualquer um dos muitos aviões e transporte, de vários tipos, da FAB poderia fazer esse transporte (e fizeram depois), particulares doaram e enviaram cilindros de oxigênio para Manaus em aviões da GOL e até em monomotores Cessna Citation. Quem tem alguma noção de aviação sabe que qualquer avião capaz de levar carga tem capacidade de levar cilindros de oxigênio desde que possam ser acomodados sem perigo de se deslocarem. As desculpas do governo, além de bisonhas, sujaram a reputação da nossa Força Aérea.

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