Depois da demissão, a nomeação

Carlos Chagas                                                        

Deve a presidente Dilma Rousseff estar concluindo que governar o Brasil é participar de uma  interminável corrida de  obstáculos. Ultrapassado um, logo vem outro. Não terá sido fácil levar Alfredo Nascimento a exonerar-se do ministério dos Transportes. Ele não entendeu o primeiro recado, que era para sair junto com os quatro assessores flagrados em atos de corrupção  e postos para  fora por ato isolado e unilateral da presidente.   Ficou. Por conta dos 42 deputados e 6 senadores do PR, ainda arrancou  uma nota de apoio e confiança do palácio do Planalto.  

Como se a lambança continuasse, agora atingindo um filho do ministro, a demissão surgiu inevitável, mas Nascimento ainda tentou sobreviver, mobilizando seu partido. Não conseguiu. O fato de Dilma haver convocado o  secretário-executivo do ministério  para despachar assuntos do PAC, sem dar conhecimento ao ministro, foi mais um sinal.   Caso não escrevesse a carta de despedida,  seria despedido  sem ela.                                                        

Tudo resolvido? Nem pensar. O PR, agora presidido pelo ex-ministro, reivindica o lugar e não aceita a solução ideal para Dilma, que seria efetivar o secretário-executivo Paulo Sérgio Passos.  A solução ficou inconclusa, com as bancadas do partido já ameaçando de forma ostensiva obstruir os trabalhos parlamentares se  não  vier a indicar o novo ministro.

Há quem sustente que a presidente deve aproveitar a oportunidade para libertar-se de uma vez das sucessivas chantagens que vem sofrendo no Congresso, não apenas por  parte do PR, mas,  em grau bem maior, do PMDB e do PT.  Sem contar a herança recebida do Lula, que impôs boa parte  do ministério.  O preço poderia sair caro, ainda que compensador. Ensejaria a Dilma livrar-se de outros ministros que lhe foram enfiados goela abaixo  pela base oficial e pelo antecessor,  obviamente isolados no  governo, alguns até hoje sem ter sido chamados para despachar em seu gabinete. Vale evitar o constrangimento de fulanizá-los, mas estão à  vista de todos. Em especial aqueles que nenhuma intimidade tinham e continuam  não  tendo com os setores da administração que dirigem. 

***
UM OUTRO ROBERTO JEFFERSON

Quanto a Alfredo Nascimento, enfrentará dois problemas: voltando ao Senado, precisará explicar-se ao Conselho de Ética, mesmo composto, em maioria, por senadores acostumados  a não condenar ninguém. O problema é que se lhe faltou idoneidade para continuar ministro, como encontrará condições  para exercer o mandato?                                                       

Acresce que voltando a presidir o PR, de que forma entrará no gabinete presidencial para as reuniões  do Conselho  Político e sucedâneos? Envergonhado? Arrogante? Disposto à revanche? Será bom interlocutor,  caso chamado a indicar o novo ministro?                                                           A 

A presidente já enfrenta problema igual com relação ao PTB. O partido a apóia, até com mais deputados e senadores do que o PR, mas seu presidente, Roberto Jefferson, encontra-se banido do palácio do Planalto.  Jamais foi convocado, ainda que não abra mão do cargo. 

***
AS INTOCÁVEIS                                                        

Dessa novela de horror ainda inconclusa emergem personagens intocáveis. São as empreiteiras, aquelas que superfaturando o preço das obras, canalizavam comissões e propina para os agora afastados altos funcionários do ministério dos Transportes.  Nada parece capaz de atingi-las. Mesmo com os contratos sob exame, não haverá como revogá-los,  coisa  que paralisaria os trabalhos em execução. Nenhuma devassa conseguirá levar seus responsáveis ao banco dos réus, até porque sua blindagem parece inatingível.  Dispõem de influência e de obras  em muitos outros ministérios, quer dizer, em muitos outros partidos, bancadas  e regiões. Detém cada vez maiores parcelas de poder, sem falar   de presença  na mídia. 

***
E O LULA?                                                        

Já se escreveu que nada será capaz de afastar a presidente Dilma do ex-presidente Lula. No relacionamento entre eles jamais se estabelecerá a emulação entre criatura e criador. Mesmo assim, o antecessor foi responsável pela  permanência de Alfredo  Nascimento nos Transportes durante quase todo o seu duplo mandato e, mais, pela permanência dele no governo da sucessora.  Corre a versão de ter-se  devido ao Lula  a sobrevida de quatro dias do agora ex-ministro em sua pasta.  De sua inspiração  teria sido a esdrúxula nota de confiança da presidente em Nascimento.                                                   
A pergunta que se faz é se o Lula vai interferir na nomeação do novo ministro. Mestre na arte de engolir sapos, sua inclinação seria para uma  composição de Dilma com o Partido da República, ou seja, a aceitação de um  nome  indicado por suas bancadas. Resta saber se ela  aceitará a permanência do ministério dos Transportes como feudo  de uma legenda cujo presidente de honra é Waldemar  da Costa Netto.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *