Depois de dezenas de anos enclausurado, escondido, o ditador Mubarak aparece, mistifica: “Não serei candidato à reeleição, ficarei até setembro”. Tem que sair agora, o Egito quer “DIRETAS, JÁ”.

Helio Fernandes

Diziam que o ditador do Egito estava muito doente, com 81 anos, cercado de médicos. Pois ontem, elegante, bem vestido, com a fisionomia ótima de quem passou a vida explorando um povo, falou da sacada do palácio. E disse textualmente que vai continuar até setembro, quando haverá “eleição”. (As aspas são indispensáveis).

Por que um ditador que está há mais de 30 anos discricionariamente no Poder, tem que ficar por mais 7 meses? Nesse tempo, tudo pode acontecer, ou até não acontecer, ele conhece como ninguém os obscuros meandros (não para ele) do domínio do poder.

O povo do Egito quer Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Agora que despertou dessa letargia imposta, não pode mais recuar, contemporizar, esperar. Esses sentimentos que estavam reprimidos, sufocados, estrangulados, agora vitoriosos, têm que ser concretizados.

Um país e um povo com a História do Egito, desde milhares de anos antes de Cristo, quando ainda era Macedônia e foi mudando de nome, não pode abandonar as ruas, a não ser quando o ditador já estiver expulso, e vier para essas mesmas ruas, por onde não passa há mais de 30 anos.

Vendo as fotos da multidão, e os números oficiais que calculavam essa massa em 1 milhão de participantes, lembrei de 1984, o comício da Candelária, 1 milhão de pessoas de ponta-a-ponta, gritando DIRETAS, JÁ. Não recuamos, perdemos no Congresso com diferença de miseráveis votos, só fomos ter eleições diretas 5 anos depois, em 1989.

Não sei como será feita a modificação no Egito, são muitas as dificuldades. Inicialmente a divisão religiosa, toda aquela região é dominado por essa questão. Muitos países parecem satisfeitíssimos com o fim da Era Mubarak, são inimigos, portanto querem mais desgraça, derrota e derrocada do Egito, melhor para eles.

Outros, com bom relacionamento, se assustam, não se manifestam, esperam a decisão dos EUA, “o senhor dos anéis”, tudo depende deles. Os EUA mantiveram o Egito nesses 30 anos, deram apoio militar e patrocinaram financeiramente o regime discricionário, autoritário, arbitrário. Mas como agir agora?

O poderoso EUA, antes do vulto do protesto, da revolta, da participação do povo, “aceitava o fim da Mubarak, mas depois de setembro e da eleição”. Agora, já sentiram que isso não é mais possível ou solucionável, concordam com saída imediata de Mubarak. Mas não sabem como agir, como fazer, como retirar Mubarak do Poder? É realmente complicado, mas os EUA aprendem com os fatos.

Outro grande problema: os militares, que sempre serviram ao ditador e aos EUA. No início, quando o movimento popular começava tímida e discretamente, os militares chegaram a mostrar apoio e solidariedade ao povo revoltado das ruas. Mas “sentindo” que a revolta crescera muito e que não só Mubarak perderia o Poder, eles seriam também retirados, mudaram de posição, já estão querendo “eleição em setembro”, garantem Mubarak mais 7 meses.

A oposição (sem lideranças estabelecidas, mas com alguns nomes sem muito reconhecimento interno, mas agora participando e apoiando o povão) não admite acordo. Com isso, mostram sensibilidade extraordinária, repetem uma palavra que foi muito usada (teoricamente) no Brasil: “O povo unido, jamais será vencido”. E no Egito? Isso se repetirá? O povo pode ficar unido, mas é sempre vencido, na hora ou logo depois. O que parece acontecerá no outrora glorioso Egito.

Enquanto os EUA tentam encontrar a “melhor” solução para eles, ou então a que pode ser oficializada e anunciada, Mubarak insiste em ficar até setembro. Agora com o apoio de SEMPRE dos militares. Estes, de forma melíflua, que palavra, pressionam o povo e a oposição, por enquanto se apresentam fazendo APELO.

Mas não merecem o menor crédito. “PEDEM” ao povo: “É hora de ir para casa, ESVAZIAR AS RUAS, deixar que os problemas serão (ou sejam) decididos pelo governo”. No tom de voz de apelo, e nos gestos pretensamente pacíficos, escondem as armas, que é o grande “argumento” de que DISPÕEM.

A convicção da massa é de não atender o “apelo”, que na verdade é uma ordem, e permanecem nas ruas. Compreenderam agora, que essas ruas são as suas casas. Mas o Exército não manterá por muito tempo o tom de camaradagem e solidariedade, sabem que estão arriscando a permanência no Poder, como aconteceu nos últimos 30 anos.

*** 

PS – Os fatos visíveis, acontecem nas ruas, empolgam e repercutem no mundo inteiro. Mas tudo isso pode ser ultrapassado pelo que se trama nos bastidores.

PS2 – No momento em que escrevo, as coisas se manterão na expectativa. Tem que haver decisão que não contrarie o povo, a coletividade, a massa de cidadãos.

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