Depois do bombardeio, ou ocupação terrestre ou fracasso

Pedro do Coutto

O presidente Barack Obama ordenou o ataque à Líbia buscando derrubar ou matar o ditador Kadafi, ressalvando que a ação americana se restringiria aos mísseis sem que as forças americanas pisassem o solo de Trípoli. Impossível, como os exemplos históricos demonstram. No primeiro dia de ataque, aviões franceses já penetravam no espaço aéreo e davam curso aos bombardeios. A estratégia de Washington, dando seguimento à resolução da ONU, era a de contar com a capacidade dos rebelados contra a ditadura e retomarem a ofensiva para derrubar aquele que se encontra encastelado no poder absoluto há 42 anos. Não está aparecendo factível. Daí a resistência do governo constituído pela força.

No começo, as correntes avançaram  e tomaram Bengazi, Tobruk e outras cidades importantes. Mas, com o passar dos dias, foram perdendo o ímpeto e provavelmente encontraram dificuldades para repor a munição gasta nos combates. Kadafi então reagiu. O massacre estava iminente, acentuado pelas ameaças do ditador. Foi neste ponto que a ONU decidiu pela ação militar. Ela foi desencadeada, como todos sabem. Porém bombardear somente não resolve. Nunca resolveu.

Veja-se a invasão da Normandia. As forças americanas, inglesas, canadenses e mais uma divisão voluntária polonesa tiveram que desembarcar. As de defesa comandadas por Rommel foram bombardeadas durante dias seguidos. Mas era indispensável tomar as praias. Foram mobilizados 157 mil homens sob o comando do general Eisenhower. A luta, das mais violentas, estendeu-se por dez dias até que subissem as encostas onde se situava a artilharia alemã e ganhassem o caminho para, primeiro Giverny, depois Paris. Já então sob o comando do general francês Le Clerc.

Em Giverny, encontra-se totalmente preservada a bela casa do pintor impressionista Claude Monet, hoje centro de atração turística. Fica na beira da estrada entre a Normandia e a eterna Cidade Luz. Mas esta é outra questão. O fundamental é que sem força terrestre é impossível a vitória ou, na falta desta, que sempre tem um caráter heróico, o êxito de uma investida.

Vejam os leitores o exemplo da participação (heróica) da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália. A artilharia alemã estava fortificada em Monte Castelo e Montese. A aviação aliada bombardeou os redutos durante 48 horas ininterruptas. Mas era preciso conquistar os espaços. Os soldados brasileiros subiram as encostas de gelo sob fogo nazista. Venceram.
Centenas de outros exemplos podem ser apresentados. Como o cerco e a tomada de Berlim. Mas estes que alinho aqui são suficientes.

Por que têm que haver forças de ocupação? Simplesmente porque não tem sentido, o que seria possível militarmente, destruir-se todo o país ou cidades inteiras. Destruir retira o sentido econômico e político de que se revestem os atos humanos. Além do que, caso da Líbia, dizimaria a população, envolvendo portanto também os que pegaram em armas para depor Kadafi, principal alvo das forças americanas, francesas, britânicas, italianas, entre outras que nos últimos dias passaram a integrar a coligação internacional. Há petróleo na Líbia. Só um alucinado, talvez o próprio Kadafi, seria capaz de incendiá-lo. Para evitar tal desfecho, só as forças fixadas no solo.

No Globo de quarta-feira, Élio Gáspari ressaltou a hipótese se os EUA estarem fabricando um novo Che Guevara. Difícil. Guevara podia não ter o apoio de Fidel, que o enviou à Bolívia, mas tinha do povo cubano. Se tivesse o apoio do povo líbio, Kadafi não teria perdido o controle da situação. Como aconteceu. Sua queda, agora, é inevitável. Desaparece de cena.

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