Depois do muro

Sebastião Nery

BERLIM – O sarcástico, às vezes iracundo e quase centenário Bernard Shaw (nasceu na Irlanda em julho de 1856 e morreu em Londres em novembro de 1950), jornalista, político, teatrólogo e sobretudo filosofo do humor, encantou-se por uma bela mulher , que não queria nada com ele:

– Dou-lhe um milhão de libras para dormirmos juntos.

– Aceito.

– Não, minha senhora. Um milhão é muito. Dou-lhe mil libras.

– O senhor esta pensando que eu sou o quê?

– O que a senhora é nós dois já sabemos. O problema é o preço.

A “globalização”, esse novo Imperio Romano comandado pelos Estados Unidos, todo mundo já sabe o que é: um novo sistema financeiro internacional, dirigido pelos banqueiros, a serviço da especulação e dos lucros brutais. Resta saber o preço a ser pago por cada país.

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COMUNISMO

Dois carimbos marcaram o rosto e o tumulo do comunismo: “Cortina de Ferro” e “Muro de Berlim”. Tornou-se historicamente impossível separar, pela violência política, um continente que o tempo e os povos juntaram. Desde o Império Romano, aqui é tudo primo. O que Gorbachev e João Paulo II fizeram foi abrir uma janela que já cedia ao sopro dos ventos.

Mas nem por isso foi menor a presença do comunismo na Europa no século passado. Os 70 anos foram mais poderosos pelo que obrigaram a fazer do que pelo que fizeram. Os bustos de Lenin, quase todos derrubados do lado de lá, deviam estar do lado de cá. Foi aqui, muito mais do que do noutro lado do muro, que a “Revolução de 1917” deu seus frutos.

O comunismo sempre foi bom na oposição, onde precisava da liberdade para lutar, e ruim no Governo, onde fazia a ditadura para ficar. A bandeira da União Soviética, que decidiu a batalha da Europa (sem Stalingrado e Leningrado, Hitler teria entrado em Londres como entrou em Paris), parecia que ia tremular de Moscou a Lisboa com os partidos comunistas, comandantes das batalhas contra o nazismo e o fascismo.

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EUROPA

Na Itália, em 48, o PC de Togliati perdeu as eleições por muito pouco. Na França, os comunistas ficaram a um passo do governo, liderando a esquerda (o partido Socialista era pequeno e fraco, antes de Mitterrand). Se a França e a Italia tivessem virado, a Europa seria vermelha.

E não foi porque os Estados Unidos, a Inglaterra e até a Alemanha derrotada, mais logo ressuscitada, jogaram dinheiro, muito dinheiro, para ganhar eleições e financiar governos. Mas não só e não principalmente.

O grande muro que derrotou os partidos comunistas na Europa depois da guerra foi a política social: Previdência, saúde pública, educação gratuita para todos, seguro-desemprego, auxílios e subvenções sociais de vários tipos, aposentadoria integral, pensões sem desconto.

Os governos, os lucros capitalistas, para não perderem os dedos, entregaram os anéis de uma política social avançada (que até então só se conhecia na Suécia e na Noruega), por meio de partidos social-democratas e socialistas, mas em governos capitalistas.

E foi assim que o comunismo, que havia comovido o mundo ganhando as batalhas de Leningrado e Stalingrado, mas também liderando os “maquis” da França, os “partiggiani” da Itália, as heróicas resistências da Espanha, Portugal, Grécia, perdeu a guerra do poder político.

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TRAIÇÃO

A grande crise que a Europa vive hoje é um grande crime, uma enorme traição, um brutal rompimento de pacto. Depois que se viu tranqüilo com a derrubada do muro de Berlim e o fim das ditaduras comunistas do Leste, o sistema capitalista internacional, liderado pelos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França, resolveu rasgar o pacto social do “Estado de Bem-Estar” que garantiu seu poder desde a guerra.

Os governos, sobretudo na Inglaterra, Alemanha, França, Itália e Espanha, acharam que, não havendo mais o perigo do comunismo (nenhum Partido Comunista da Europa Ocidental tem mais de 10% de votos), chegou a hora de tomar o que deram para ganhar. A receita é uma só: o “consenso de Washington”, a “globalização”, as agencias de risco,a cartilha desleal e canalha que o Fundo Internacional, o Banco Mundial e outras arapucas financeiras norte-americanas impõem hoje ao mundo inteiro.

A Alemanha gasta 31% do Produto Interno Bruto (PIB) com “serviços sociais”: (Holanda 33,6%; Dinamarca 33,2%, França 30,9%, Belgica 27,3%, Inglaterra 27,3%, Italia 25,8%, Espanha 24%, Suecia 23%, Portugal 18,3%, Grécia 16,3%. A Suécia gasta 63% do Orçamento).

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