Derrota do governo no Senado indica que os políticos começam a despertar

Oposição festeja a vitória na Comissão do Senado

Carlos Newton

Enquanto o presidente Michel Temer finge que está resolvendo alguma coisa em Moscou e Oslo, a política brasileira dá sinais de viver outra realidade. A rejeição da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais no Senado é um importante indicativo, porque mostra que ainda há parlamentares conscientes em Brasília. O Planalto estava apostando todas as fichas nessa votação, para dar uma demonstração de força, com Temer podendo se jactar que a situação está tão sob controle que o Congresso aprova os projetos do governo até mesmo na ausência dele. Sonhar não é proibido, mas o resultado foi desastroso.

Os estrategistas do governo achavam que venceriam de 11 a 8, com folga de três votos. Mas os senadores Hélio José (PMDB-DF), Otto Alencar (PSD-BA) e Eduardo Amorim (PSDB- SE) desobedeceram às lideranças de seus partidos e viraram o placar para 10 a 9.

UMA TESE INSANA – O fato concreto é que nem todo parlamentar é idiota ou curvado ao poder. Desde quando assumiu interinamente, em maio de 2016,  o governo tenta consagrar a tese de que a atual crise econômica é causada por equívocos existentes nas legislações da Previdência Social e da CLT, que estariam entravando o desenvolvimento.

A tese é insana e perversa, porque está ocorrendo justamente o contrário – o déficit da Previdência e o desemprego estão sendo provocados pela crise econômica. E o mais grave problema do país é a subida progressiva da dívida pública, mas este assunto não é discutido e a mídia se cala, para afetar os interesses do governo, dos banqueiros e do empresariado.

É o assunto mais importante do país e precisa ser discutido aberta e profundamente. Mas quem se interessa?

CULPA DA RECESSÃO – Se o país tivesse mantido o crescimento, nem estariam sendo discutidas essas reformas. Os deputados e senadores sabem que se trata de medidas perversas, que só vão atingir os pobres e a classe média. Os ricos e as elites já são pejotizados (viraram falsas pessoas jurídicas) e não estão nem aí.

Ao se transformarem em supostas empresas, ganham o direito de sonegar 17,5% de Imposto de Renda mensal e de não pagar nada à Previdência, enquanto as empresas verdadeiras, que realmente produzem riquezas e abrem empregos, têm de contribuir com 20% sobre o total da folha de pagamento.

A terceirização também dá margem de sonegação da Previdência. Ao invés de ser combatida, acaba de ser ampliada, abrangendo as atividades-fim.

DÍVIDA DESCONTROLADA – O problema verdadeiro do país é a subida progressiva da dívida pública, mas este assunto não é discutido e a grande mídia se cala. Para se ter uma ideia da gravidade da situação, basta dizer que em apenas três meses (fevereiro, março e abril), a dívida pública subiu mais de 6%, ante uma inflação anual prevista para menos de 4%.

O governo (leia-se: Henrique Meirelles) diz que a situação está sob controle, mas isso só acontecerá daqui a 20 anos, segundo os planos do próprio ministro da Fazenda. No entanto, como dizia o genial economista John Maynard Keynes, a longo prazo todos estaremos mortos.

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PS
A mídia se cala sobre a dívida e aplaude a tese governista de que a culpa da crise econômica é a falta de reforma da Previdência e da CLT. A opinião pública também se omite, porque no momento as pessoas estão mais interessadas em sobreviver. E la nave va, fellinianamente alienada. (C.N.)

8 thoughts on “Derrota do governo no Senado indica que os políticos começam a despertar

  1. Parabéns!
    Por apontar a real questão da Dívida Pública.
    Os fatores(juros subsídiados) é que levaram ao elevado endividamento público federal é que deve ser responsabilizado e não os compromissos sociais do Estado Brasileiro com a Nação.

  2. A meu ver, a derrota do Governo no Senado, da Reforma Trabalhista, mostra que o Congresso está fazendo o certo, dialogando e modificando a Proposta do Governo para que o Custo da Reforma Trabalhista recaia sobre quem tem mais capacidade de pagar.
    Então,isso é um bom sinal.
    Peço vênia para discordar de que: Nosso maior problema Econômico é a Dívida Pública ( a febre), e não o Deficit Público, causado pelo Governo sempre Gastar bem mais do que Arrecada, ( a Inflamação). Ora, primeiro temos que atacar as causas da Inflamação, depois a própria Febre se extinguirá sozinha.
    E infelizmente, reduzir e acabar com o Deficit Público Nominal, requer Reformas.
    A Política Econômica boa, é aquela que induz a geração crescente de Riqueza e a aumentar constantemente o Padrão de Vida do POVO. Isso só consegue com Medidas que incentivem a Capitalização do CAPITAL aqui dentro. Certas Medidas e discussões Econômicas só exportam CAPITAL para fora, o que nos prejudica enormemente.
    Vejam o que acontece em França; criaram Impostos enormes sobre a Riqueza, ( só geraram êxodo gigantesco de CAPITAL e Empresários para o Exterior), para combater o Desemprego foram reduzindo o Horário Máximo de Trabalho ( 35 Hs Semanais, sem redução de Salário) achando que tinham “descoberto a roda “, os Vizinhos, para não falar da China, fizeram o contrário, e o desemprego disparou na França ( Oficial +- 12 % do Geral e +- 35% entre os Jovens, que emigram cada vez mais), etc, agora estão fazendo o certo, via REFORMAS lá também.

      • Sr. F. Moreno, Sr. CN, bom dia.

        Também sou contra descontar 1 dia de trabalho por ano compulsoriamente, mas a reforma trabalhista vai tirar muito mais que isso do trabalhador.

        Quanto a reforma da previdência é pior ainda.

  3. Sr Carlos Newton, bom dia.
    Realmente estamos muito preocupados com nossa sobrevivência.
    Tenho um amigo, que ao fazer um tour pelos estaleiros europeus em 1987, ao voltar e inquirido sobre o que mais impressionou na viagem, ele declarou:
    Foi em uma conversa após o jantar com uma família espanhola, ver um menino de 6(seis) anos, participar da conversa sobre política, em um mesmo nível dos adultos.
    Somos uma nação onde o analfabetismo político, campeia em todas as classes sociais; só após a melhoria deste quadro, e ele vai melhorar pois não se consegue mais parar a força da mídia independente, teremos uma sociedade atenta, atuante e consciente dos objetivos mais importante para toda a sociedade brasileira.

  4. O “governo” ataca o povo diretamente, como se a culpa pelos mais de 14 milhões de desempregados fosse do trabalhador e não da incompetência e corrupção do “governo”. Reformas tributária e fiscal, muito mais essenciais, nem pensar. A reforma trabalhista visa apenas em tornar o empregado em escravo/refem dos patrões e a reforma da previdência serve apenas para fortalecer a previdência privada, enriquecendo ainda mais os bancos/banqueiros.

  5. “Oposição comemora derrota do Governo.”
    Quem comemora? Petistas com o Renan Calheiros. Quem??? Isso mesmo: petistas juntos com Renan Calheiros… dá vontade de vomitar…
    Ao meu ver a reforma trabalhista se faz absolutamente necessária e creio que isso seja inconteste. O fim do imposto sindical obrigatório, por exemplo é unanimidade, ressalvados os dirigentes sindicais, obviamente. A da previdência ainda precisa ser amplamente debatida, até mesmo pq há muita gente boa que garante que seja superavitária e não deficitária, como reiteradamente veiculado pela grande mídia.
    Sintetizando: se é bom para o PT, é ruim pra vc.
    E sobre a “derrota” do governo, convém esperar, o jogo só acaba quando termina.

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