Desconfianças e paranoias em tempo de crise

Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. (Clarice Lispector)Eduardo Aquino
Em Tempo

Houve períodos em que prevaleciam ditados populares como “negócio no fio de bigode” ou “confio em todos até que me provem o contrário”. Bons e antigos tempos, saudosismo à parte. Se quisermos entender um pouco o que anda acontecendo com a falência da confiança mútua, do acreditar, teremos que observar quanto o momento, o meio ambiente, além dos aspectos individuais, colaboram para esse estresse a mais a que somos submetidos, pois vigiar pessoas, checar tudo ao nosso redor, ficar de sentinela o tempo todo é mais que desgastante, é doentio.

Quais as ameaças que enfrentamos realmente no dia a dia? Digo isso por causa de uma pesquisa que saiu recentemente indicando que 90% da população teme ser vítima da violência a cada dia, outras mais de 80% de perder a vida por causa dessa violência urbana e mais de dois terços sentem-se desamparados pelas autoridades. O simples andar de ônibus, parar num sinal à noite, sair da garagem a qualquer hora do dia, ou até estar em casa e sofrer assalto invade o nosso imaginário cotidianamente. Isso não é viver, é sobreviver, como se estivéssemos em plena guerra civil, na Síria ou no Iraque por exemplo.

COMUNIDADE COMUNHÃO

Entendamos alguns aspectos importantes desse fenômeno. Primeiro devemos resgatar duas palavras desse tiroteio mental: comunidade e comunhão. É certo que em pequenas comunidades, onde as pessoas se conhecem e têm uma comunhão de interesses, a sensação de segurança, apoio, solidariedade é infinitamente maior que em grandes centros urbanos, individualistas e competitivos, onde a indiferença com o sofrimento alheio é praticamente uma lei. Lemos, ouvimos, vemos, entre indiferentes e passivos, uma coletânea de tragédias, que, infelizmente, são selecionadas pelas mídias, já que “desgraça e tragédia dão ibope”. A dor dos outros é normal até que aconteça conosco.

Cidades menores, grupos de fé ou instituições que congregam ações sociais e o bem tendem a gerar uma consciência coletiva e fraternidade que nos acolhem e dão segurança. Mas o que me diz do seu vizinho do quarto andar? Às vezes nem o nome sabemos. Na base de cada um por si e Deus por todos, nos recolhemos a nossas prisões domiciliares ou solitárias de quartos com janela para telas de eletrônicos. Confiança é uma construção diária, baseada na lealdade, na intimidade, no diálogo às vezes difícil, no reconhecimento dos erros, na gostosa sensação de se estar acompanhado nos momentos de difícil travessia.

SEM CONFIANÇA

Perdida a confiança, resgatá-la é um processo doloroso nem sempre possível, tal qual colar a xícara de porcelana chinesa que quebrou ao cair, deixa cicatrizes e marcas. Mas algo pode ser pior que a perda de confiança, mesmo porque, muitas vezes, não há nem motivo para desconfiar, nem fato para tal. A mente humana sob estresse excessivo ou insônias crônicas, mas, principalmente, intoxicada de bebidas alcoólicas e drogas, em especial a maconha, pode desenvolver paranoias, ou sensação de estar sendo perseguido por pessoas, colegas de trabalho e familiares.

Ou, ainda, a paranoia de estar sendo traído no namoro ou casamento. E, para completar, a paranoia de estar sendo passado para trás, roubado ou sabotado. O fenômeno paranoico é patológico, exige tratamento e, constantemente, termina em tragédia. Afinal, é um delírio, uma deformação da realidade, uma fantasia que é vivenciada como real, pois a pessoa cria uma rede de pensamentos distorcidos em que ele é sempre a vítima e começa a associar fatos para chegar à conclusão de que está sendo traída ou perseguida.

DESLIGAR O BOTÃO DO MEDO

O que sabemos é que, em tempos de guerra, escassez, privação e temor da não sobrevivência, criamos um mundo mental de pensamentos acelerados, negativistas. Em época de crise, enfatizamos aspectos pessimistas. Se tivermos oito boas notícias e duas ruins, nos agarramos ao pior e vivemos reclamando de tudo.

Desligar o botão do medo e da insegurança, enfrentar a realidade, e não o imaginário ruinoso, é uma das saídas. A fé, independentemente da forma que se busca, é outro porto seguro. Ser mais solidários, sorrir frente aos desafios, ter palavras de reforço positivo, buscar ambientes sadios e que estejam em busca do melhor é igualmente saudável. E, se a paranoia se instala, procure a ajuda de especialistas, pois o “inferno é uma mente sombria e povoada de pensamentos pessimistas e preocupações irreais”.

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