Desde o regime militar, não existe no Brasil planejamento de governo nem prioridades

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Carlos Lessa descobriu que o PT não tinha plano de governo

Carlos Newton

Ao se analisar friamente a crise que o Brasil atravessa, constata-se que um dos principais problemas é a falta de planejamento do governo. Essa prática, que tinha sido adotada rotineiramente no regime militar, simplesmente foi desprezada após o restabelecimento das eleições diretas. Na verdade, desde a ditadura nenhum governo se preocupou em planejar o crescimento socioeconômico, sem instituir metas e estabelecer prioridades.

O último plano de governo foi elaborado quando o economista Reis Veloso era ministro do Planejamento, no governo Geisel, que terminou em 1979. Depois disso, não se planejou mais nada.

CRISE APÓS CRISE – A partir da gestão do general João Figueiredo, que foi o presidente da transição, todos os chefes de governo passaram a ser meros remendadores de criseS, sem qualquer preocupação com o futuro, a não ser a própria reeleição, instituída em 1997 pelo sinuoso Fernando Henrique Cardoso, cujo governo operava as privatizações “no limite da irresponsabilidade”, como confessou o economista Ricardo Sérgio de Oliveira, diretor da Banco do Brasil, ao ministro das Co­municações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, em ligação telefônica grampeada.

Os ministros do Planejamento de Figueiredo foram o economista Mario Henrique Simonsen, que ficou apenas cinco meses, e o general Golbery do Coutto e Silva. Esses realmente sabiam como planejar, mas não havia clima para os militares criarem um plano de governo a ser seguido pelos civis Tancredo Neves e José Sarney.

INFLAÇÃO RECORDE – Como Tancredo estava muito doente e nem conseguiu tomar posse, quem tocou o governo foi o vice Sarney, que herdou os ministros de escolhidos pelo presidente eleito e fez um governo medíocre, que incluiu uma declaração de moratória da dívida externa e a maior inflação da História do Brasil, que chegou a 80% ao mês, capitaneada pelo ministro Mailson da Nobrega, que até hoje se julga um gênio e vive dando pitaco sobre economia na grande mídia.

Sarney entregou o bastão ao jovem Fernando Collor, vaidoso e fanfarrão, que teve de encarar uma crise violentíssima, sem ter experiência nem base aliada no Congresso. Acabou sofrendo impeachment e foi substituído por Itamar Franco, que fez um governo surpreendente e criou o Plano Real, reequilibrando as finanças nacionais, sem planejar nada. Foi nosso melhor presidente depois de Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas.

A ERA DE FHC – Seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, foi facilmente eleito e logo pediu que esquecessem o que ele havia escrito como sociólogo. Sem planejamento, seu governo foi um desastre, parece ter como prioridade o crescimento da dívida interna, muito pior do que a externa, devido à necessidade de juros altos para atrair os “rentistas” financiadores. Na Era FHC, os juros chegaram a 45% ao ano, com Gustavo Franco e depois, com Armínio Fraga. 

Lula da Silva assumiu em 2003 e chamou Carlos Lessa e Darc Costa para dirigirem o BNDES. Lessa pediu-lhe o plano de governo, mas isso não eczistia, diria o Padre Quevedo. Indagou as prioridades e Lula disse que gostaria de reativar a indústria naval.

Lessa e Darc não somente recriaram a indústria naval, como também traçaram um plano de governo e usaram o BNDES para incentivar micros, pequenas, médias e grandes empresas, criar empregos na indústria, priorizar setores estratégicos e incrementar as exportações.

VOO DE GALINHA – Foi com Lessa e Darc no BNDES que surgiu o fenômeno Lula, que fechou 2010 com PIB crescendo 7,5%. Em 2005, ao deixar o BNDES, Lessa avisou que a política econômica comandada por Palocci e Mantega seria “um voo de galinha” – ou seja, a economia iria subir e logo depois despencar. Não deu outra.

Depois veio a tragédia de Dilma Rousseff. No desespero, a gerentona  do PT se limitou a conceder isenções fiscais, achando que os empresários usariam os bilhões para aumentar a produção e criar empregos, mas eles preferiram gastar o dinheiro em Miami e na Disneylândia, digamos assim.  

A seguir, Michel Temer também assumiu sem nenhum planejamento e seu superministro Henrique Meirelles se limitou a criar um plano para ser cumprido em 20 anos, vejam que grande piada econômica, algo nunca visto em país algum.

RASPUTIN IMBERBE – Agora temos Jair Bolsonaro no poder, comandado sub-repticiamente por Paulo Guedes, uma espécie de Rasputin sem barbas, que não exibe plano algum e também trabalha como remendão de crises.

O maior desafio do país é a dívida pública, que consome os recursos a serem investidos em desenvolvimento. É um problema que só pode ser resolvido se houver superávit primário. Mas o próprio Guedes já anunciou que não haverá superávit no governo Bolsonaro, e isso somente poderia ocorrer depois de 2022, quem quiser que acredite.

O mais desanimador é que o atual governo tem número recorde de militares nos cargos de alto escalão. Infelizmente, porém, nenhum deles planeja nada.

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P.S – Somente agora, já no segundo ano de governo, é que o almirante Bento Albuquerque resolveu fazer um plano para evitar aumento abrupto dos derivados do petróleo. Mas a ideia nem é dele. Ele só resolveu trabalhar porque houve um pedido de Bolsonaro, que está cercado de incompetentes. E la nave va, cada vez mais fellinianamente. (C.N.)

29 thoughts on “Desde o regime militar, não existe no Brasil planejamento de governo nem prioridades

  1. Trocando em miúdos, no Brasil, a Colônia fracassou, o Império fracassou, a república fracassou, e no bojo desta as ditaduras civis e militares tb fracassaram, os civis tb fracassaram, o sistema político fracassou, o golpismo ditatorial fracassou, o partidarismo eleitoral fracassou, e os seus tentáculos, velhaco$, tb fracassaram, mas, em verdade eu vos digo, a RPL-PNBC-DD-ME não fracassará porque na elaboração Dela existe a Centelha Divina, que tb pode ser chamada de desprendimento, que faz toda a diferença.

  2. Mais uma vez ponto para Lula, que se cercou de uma equipe competente, que alem de planejar botou o governo para gerar empregos, reduzir a dívida e acumular reservas internacionais, que ate hoje blindam o Brasil das crises internacionais.

  3. “Fernando Henrique Cardoso, cujo governo operava as privatizações “no limite da irresponsabilidade””, materializado na antiga Telemar e a Vale, que despejou seus rejeitos em Mariana e Brumadinho, com mortes e custo ambiental incalculável. Além da pancada certeira no Banco do Brasil, praticamente dado aos seus concorrentes.

  4. Segundo CN, vivemos no pior dos mundos.
    Segundo Alex, como o Professor Pangloss vivíamos no melhor dos mundos com o advento $talinacio.
    Pelo Calendário Gregoriano a civilização ocidental fica dividida em duas eras. AL e DL.
    Antes de Lula e Depois de Lula.
    Aqui nesta Tribuna o Papa Gregório XIII se lasca felinianamente.

  5. Bolsonaro achou que, para governar, poderia transformar o Brasil em um grande quartel. Só fez é juntar um grande grupo de militares reformados, sem experiência para o que foram designados e sedentos de complementacões para seus proventos. Além disto, parece não ouvir quem quer que seja, ou apenas quem comunga de suas bizarrices.

  6. Tudo em um país socialista fica caro devido aos abusivos impostos e outros obstes que inibem o progresso, que são usados para manter a corrupta e gigantesca máquina burocrática.

    • O Mario Jr. insiste na tese de que o Brasil é um país socialista. Será que a grande maioria dos livros e economistas estão errados?

      O Brasil é um país que pratica o capitalismo. Com excesso de burocracia.
      Não é liberalista tanto quanto alguns países, porém não deixa de ser capitalista.
      Estão aí as desigualdades, os lucros de empresas, etc., para desmistificar tais teses esdrúxulas de que o país pratica o comunismo ou socialismo.

      Também cita que o Brasil foi um país fascista. Historicamente está errado. Embora, hoje em dia, o termo fascista se aplique a muitas coisas, o Brasil ainda está longe dessa ideologia. Talvez no período do Estado Novo nós nos aproximamos dessa forma de governo.

  7. Os grandes Economistas Profs. CARLOS LESSA e DARC COSTA, são NACIONAIS-DESENVOLVIMENTISTAS e tem uma visão correta do Desenvolvimento Nacional.
    Ambos propõem o Brasil se INDUSTRIALIZAR e deixar de ser um simples fornecedor de Matérias Primas e Commodities. Para uma Economia Agro Business Exportadora, quanto mais baixo for o Salário, melhor. Para uma Economia INDUSTRIALIZADA geradora de potente Mercado INTERNO, quanto mais alto o Salário, melhor. ( O Sr. HENRY FORD mostrou isso ao Mundo em 1912 ao pagar US$ 5/Dia para seus Trabalhadores para que eles tivessem condições de comparar Automóvel FORD, e funcionou as mil maravilhas.

    A nosso ver, não é tanto falta de Planejamento de Governo e de Prioridades que nos falta, mas RECURSOS. O Estado Brasileiro inchou consumindo +- 42% do PIB e com isso minguou o estratégico Mercado Interno.

    Também achamos que nosso principal problema não é a Dívida Pública mas o Deficit Fiscal do Governo CAUSADOR da Dívida Pública. E também não se pode criar Superavit Primário muito rápido senão não crescemos nem 1,2%aa reduzindo um pouquinho o DESEMPREGO.

    O Governo não pode Criar RIQUEZA mas pode criar DINHEIRO, o que se deveria fazer era “secretamente” criar um tanto de DINHEIRO para turbinar um pouco nossa Economia. Não muito, mas um tanto e secretamente.

    A grande oportunidade do Brasil está em: Não desprezando o Agro-Business se INDUSTRIALIZAR ao máximo, e não desprezando nossos Mercados Tradicionais forçar nossas TROCAS com América do Sul, Central e México, quase toda a África, Médio Oriente e certas partes da Ásia.

    Mas para isso é necessário, além do PLANO, ter RECURSOS, mas se o Estado “come muitos RECURSOS, não adianta ter PLANO.
    Abração.

  8. Durante a ditadura houve planejamento da economia, mas talvez não com uma avaliação aprofundada o suficiente. Houve muitos méritos, mas muitos enganos.

    O PSI foi um erro porque fechou nossas indústrias às novas tecnologias. O ideal seriam parcerias.
    A criação ou permissão para o surgimento de grandes monopólios, sufocando ou absorvendo pequenas indústrias, também foi outro erro.
    A indexação de valores, através da correção monetária, foi algo que mostrou-se nociva ao longo do tempo.
    A criação ou manutenção de certos privilégios para a obtenção de aposentadorias trouxe até hoje efeitos danosos.

    O aumento da dívida externa para propiciar o crescimento econômico foi outro fator que mostrou-se danoso.

    Os governos posteriores fizeram alguns remendos, tiveram alguns acertos e muitos erros e sempre pensaram em termos de curto prazo.

      • Prezada Srta. SOLANGE,

        Os Juros da Dívida Pública são pagos aos Poupadores.
        O problema é que num PIB de R$ 8.000 Bi/Ano, são necessários R$ 2.000Bi/Ano de Juros e GIRO.
        É Capital gigantesco que sai da Produção e fica estéril no Giro da Dívida Pública.

        Auditoria da Dívida Pública o BC faz continuamente. Só se for para argumentar que Juros não pagos não podem ser acrescido ao Montante da Dívida, mas isso é CALOTE. E daí a SELIC vai a 50%aa rapidinho e não sei se mesmo assim terá Comprador suficiente.

        O melhor que se faz com uma Dívida é PAGÁ-LA. O Brasil fazer uma Poupança e PAGAR COM DESCONTO.

  9. O governo sempre será o problema. Se quiser ajudar é só sair da frente e deixar a iniciativa privada trabalhar e concorrer entre si. O governo impedindo ou dificultando a criação de monopólios e oligarquias já é uma grande ajuda.

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