Desde que o mundo é mundo, a mesma farsa

Carlos Chagas

Não é por acaso que na Europa  as populações protestam através de  passeatas, greves e confrontos com a polícia. Em Portugal, França, Inglaterra, Grécia, Irlanda e outros países sucedem-se manifestações cada vez menos pacíficas  contra os governos respectivos, elevando a temperatura em suas capitais e principais cidades. O cidadão comum europeu, com os estudantes à frente, protesta contra a adoção das milenares receitas para enfrentar crises econômicas:  redução de salários, demissões de funcionários públicos, enxugamento das empresas privadas,  também com dispensa de trabalhadores, aumento de impostos e supressão de direitos sociais.

Tem sido assim desde que o mundo é mundo: a conta dos erros,  excessos e incompetência das elites vai para os menos favorecidos, incluindo-se  a classe média  no rol. Mesmo variadas, as causas da crise debitam-se em especial à especulação financeira,  à ganância e à irresponsabilidade  dos grupos econômicos,  em geral artífices, formadores e integrantes  dos governos.

Desta vez generaliza-se  a reação dos oprimidos. Nada que possa redundar em revolução  ou impasses institucionais profundos, mas, com toda certeza, movimentos capazes de alterar o equilíbrio político-partidário vigente na maioria dos países referidos.  Basta esperar as próximas e sucessivas eleições para constatar que o conservadorismo estará saindo pelo ralo. Em termos democráticos, é a melhor solução, caso haja tempo para a extinção por via pacífica  da farsa das elites.

Essas considerações se fazem a respeito  das recentes declarações de Guido Mantega, conservado no ministério da Fazenda, pela necessidade de o Brasil apertar o cinto. A barriga continua sendo a  nossa, ou seja, os funcionários públicos não terão reajuste salarial, ano que vem, os cortes atingirão os investimentos públicos e o custeio da máquina oficial, além da ameaça de aumento de impostos. A mesma receita,  por enquanto  menos aguda do que no Velho Mundo, mas seguindo o modelo de sempre.

Nem lá nem cá o poder público preocupa-se em  tirar recursos de onde eles são fartos. Nada de taxar especulações, muito menos de restringir privilégios e benefícios das elites.  É bom tomar cuidado.  Um dia as manifestações de protesto eclodirão por aqui, e não haverá bolsa-família que dê jeito…

É TERRORISMO MESMO

O que aconteceria caso os narcotraficantes estivessem vendendo livros de Marx e Lênin em vez de cocaína, pregando a ditadura do proletariado em lugar de dominarem comunidades cada vez maiores no Rio de Janeiro, onde pensa o leitor que estariam as Forças Armadas? Claro que nas ruas, com todo o seu poderio, combatendo e esmagando a subversão.

Qual a diferença, se a antiga capital vive dias de guerrilha urbana explícita, com todo o horror e a bestialidade que mídia apresenta? Nenhuma, porque metralhar postos policiais em nada difere de explodir quartéis, como queimar ônibus e carros particulares é a mesma coisa do que incendiar viaturas militares.

Com todo o respeito, as Forças Armadas já deveriam estar ocupando bairros e subúrbios do Rio, intimidando com  sua presença a ação  do terrorismo. Invadir as bocas de fumo no alto das favelas difere em quê, das operações antes desencadeadas contra “aparelhos” no alto de edifícios?

À maneira dos paquidermes, o poder público arrasta-se no sentido de reconhecer a necessidade imperiosa de mobilizar Exército, Marinha, Fuzileiros e Aeronáutica. Já era para o presidente Lula ter dado a ordem, com base na Constituição, mesmo sendo o bandido de bermudas e sandálias havaianas fisicamente distinto dos subversivos do passado, de calças jeans, camisas pólo e sapatos sem cadarço.

A pedido das autoridades fluminenses a Marinha saiu na frente, oferecendo viaturas de  combate para a Polícia Militar invadir uns tantos morros. Falta pouco, mas é um parto perigoso, significando perda de tempo por parte do  poder público  e ocupação de espaços,  pela bandidagem. O terrorismo tem muitas faces, mas Osama Bin Laden e Elias Maluco formam uma só pessoa.

A TAREFA  MAIS DIFÍCIL

Montada as equipes econômica e  palaciana,  por Dilma Rousseff, aceitando indicações do Lula, mas nem tanto, a pergunta é como a presidente eleita se livrará da tutela dos partidos da base oficial. Chegou a hora de  começar a escolher os representantes do PT, do PMDB, do PSB e outros aliados. Caso prevaleçam as indicações partidárias exclusivas, começará aos tropeções  o novo governo.  Menos mal se ela exigir dos partidos a apresentação de gente com capacidade óbvia para dirigir os diversos setores da administração pública.

Já se alertou aqui para a importância de a  presidente dar um murro  na  mesa.  Se deu, estava de luvas. Ou atingiu apenas o vento.

A corrida por lugares na equipe não se limita a ministérios, envolvendo diretorias de órgãos da administração direta e de empresas  estatais. O perigo é de um agrônomo acabar nomeado para a Fundação Nacional de Saúde ou  de um médico tornar-se coordenador político (ops, cala-te boca…)

ANTES DA HORA NÃO É HORA

O comentário era do presidente Castello Branco: “antes da hora, não é hora, mas depois da hora, também não”.

Tem gente cobrando de Dilma Rousseff definições que ela ainda não pode tomar.  Como escolher o novo ministro das Relações Exteriores sem antes definir se manterá a política ditada por  Celso Amorim, de que só diplomatas de carreira devem ocupar embaixadas e postos correspondentes do Brasil,  lá fora? O presidente Lula começou nomeando três embaixadores fora da carreira: Itamar Franco para a Itália, Paes de Andrade, para Portugal, e Tilden Santiago, para Cuba.  Em menos de dois anos o ainda chanceler conseguiu tirar o tapete dos três, convencendo o chefe de só indicar funcionários do Itamaraty.

Historicamente, nossas representações lá fora tem servido para acomodar políticos, amigos e até incomodas presenças para os donos do poder.  Delfim Netto foi mandado por Ernesto Geisel para Paris, já que aqui continuaria criando problemas. Dilma Rousseff não teria de quem se livrar, a começar pelos companheiros   derrotados no último outubro?   O novo (ou a nova) chanceler, antes da escolha, precisará definir-se a respeito da norma do antecessor, ou melhor, esperar que a presidente eleita se defina.

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