Desemprego entre os mais pobres aumentou muito no governo Lula. E Moreira Franco quer demitir o presidente do IPEA (que divulgou os números), alegando que o Instituto é “pouco crítico” ao governo. Era só que faltava.

 Carlos Newton

 A briga por postos de segundo escalão continua corroendo as bases do governo, e agora o PT investe contra o ministro de Assuntos Estratégicos, Moreira Franco, que é do PMDB e muito ligado ao vice-presidente Michel Temer.

O objetivo dos petistas é evitar a demissão do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Marcio Pochmann. Para retaliar Moreira Franco e enfraquecer seu ministério (que na verdade é uma secretaria inexpressiva e que tem pequeno número de funcionários), o PT quer impedir que o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, hoje subordinado à Secretaria de Relações Institucionais, seja transferido para o âmbito dos Assuntos Estratégicos.

E vale tudo para tentar manter o presidente do IPEA. A bancada do PT na Câmara já decidiu mobilizar os parlamentares da base aliada, fazer abaixo-assinado e levar a demanda para o vice-presidente Michel Temer e os ministros da Casa Civil, Antonio Palocci, e de Relações Institucionais, Luiz Sérgio.

Marcio Pochmann é economista pela Universidade de Campinas, ligado ao PT e chefia o instituto desde 2007. Antes, foi secretário de Trabalho da Prefeitura de São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT). Seu desempenho no IPEA, porém, não pode ser considerado faccioso. Aliás, o instituto acaba de divulgar uma estatística bem desfavorável ao governo Lula, mostrando que o total de trabalhadores desempregados caiu 31,4% no Brasil entre 2005 e 2010, mas aumentou expressivamente entre os mais pobres.

Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, com base em dados do IBGE, nas seis principais regiões metropolitanas do país (Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife), o desemprego entre os 10% mais pobres cresceu 44,2% nos últimos cinco anos, embora o então presidente Lula e seus ministros costumassem exaltar um suposto aumento do número de empregos para as camadas menos favorecidas.  

Em 2005, por exemplo, terceiro ano da gestão Lula, 23,1% da população mais pobre estavam desempregados. No ano passado, cinco anos depois, esse número saltou para 33,3%, aponta o estudo. Já entre a parcela da população de maior poder aquisitivo, o desemprego diminuiu 57,1% nesses cinco anos. Caiu de 2,1% para 0,9%.  O pior é que o desemprego entre os mais pobres é 37 vezes superior ao dos mais ricos em 2010. Em 2005, a taxa era apenas 11 vezes maior.

Moreira Franco quer mostrar força e independência em uma pasta que ele assumiu a contragosto. E não aceita que o principal órgão sob seu comando não tenha um presidente afinado com os seus interesses. O mais incrível é a alegação para afastar Pochmann. O ministro considera o órgão “pouco crítico” e vê em Pochmann uma pessoa que limita o trabalho econômico a levantar dados positivos para embasar o sucesso de programas do governo. Quer dizer, Moreira Franco não sabe nada sobre o trabalho do IPEA, único órgão sob seu comando.

O ministro já avisou ao vice-presidente Michel Temer sobre sua decisão e, se conseguir vencer a pressão do PT, vai demitir Pochmann na próxima quarta-feira, quando o economista voltar de uma reunião sobre Diáspora Africana, em Pretória, na África do Sul.

Os deputados do PT não aceitam a decisão de Moreira Franco. Por isso, resolveram pressionar o governo a não transferir para a Secretaria de Assuntos Estratégicos o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Essa intenção de subordinar o Conselho à Secretaria de Assuntos Estratégicos surgiu na montagem do governo da presidente Dilma, como uma tentativa de agradar o PMDB, o vice Michel Temer e o próprio Moreira Franco, que pretendia ser ministro da Agricultura.

A briga está só começando. Vamos acompanhar para saber como a presidente Dilma Rousseff vai administrar esse problema. Que representa mais um teste nesse início de governo.

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