Desmatamento e mudança climática agravam crise hídrica e energética, dizem especialistas

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Acionamento das termoelétricas vai encarecer a energia

Leonardo Vieceli e Nicola Pamplona

O fenômeno natural La Niña ajuda a entender, mas não explica toda a crise hídrica que ameaça o setor elétrico no país, indicam especialistas. Segundo eles, a escassez de chuvas também pode ser associada a questões como a mudança climática provocada pelo aquecimento global e até o desmatamento na Amazônia.

Durante o verão, não choveu o suficiente para encher reservatórios de importantes usinas hidrelétricas no Sudeste e no Centro-Oeste do país. A situação exige o acionamento de térmicas, que custam mais caro e elevam o preço da energia para os brasileiros.

GERAÇÃO DE ENERGIA – O La Niña é visto como um dos motivos da crise porque afeta a distribuição de chuvas. No país, esse fenômeno costuma provocar estiagem no Centro-Sul, justamente onde estão os principais reservatórios para geração de energia.

“O fenômeno é causado pelo resfriamento das águas superficiais do Pacífico Equatorial, na região da costa do Peru. Quando as águas estão mais frias do que o normal, geram uma alteração na circulação de ventos e umidade. Na região Centro-Sul do Brasil, a tendência é de estiagem”, sinaliza Renata Libonati, professora do Departamento de Meteorologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Renata também vê, na crise hídrica, reflexos do desmatamento da Amazônia. É que a região, lembra a professora, exerce papel importante em fluxos de umidade que levam chuvas para Centro-Oeste e Sudeste. Esses processos ocorrem por meio dos chamados rios voadores da Amazônia.

SUGANDO A UMIDADE –  “A floresta funciona como uma bomba que suga a umidade do oceano Atlântico. Essa umidade entra na Amazônia, causando chuva. A floresta acaba gerando mais umidade, que é carregada por ventos até a Cordilheira dos Andes. A umidade bate na cordilheira, faz uma espécie de curva e volta para o Centro-Sul. Estudos demonstram que o grande desmatamento altera essa fonte de umidade”, diz.

De janeiro a maio, os avisos de desmatamento na Amazônia Legal alcançaram área de 2.547,7 km², alta de 25% em relação a igual período do ano passado. Os dados aparecem no sistema de monitoramento Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Levantamento do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia) também indica piora no quadro. Conforme o instituto, uma área de floresta quase do tamanho do município do Rio de Janeiro foi desmatada apenas em maio.

MAIOR DESMATAMENTO – O Imazon detectou 1.125 km² de desmatamento no período, maior saldo da série histórica para o mês nos últimos dez anos.

Paulo Artaxo, estudioso da Amazônia há 37 anos e doutor em física atmosférica pela USP (Universidade de São Paulo), avalia que as perdas registradas na floresta podem ter impacto na seca deste ano, assim como o La Niña. Outro possível fator para a escassez de chuvas é o aquecimento global, lembra o pesquisador.

“Todos os modelos climáticos preveem redução nas precipitações com o aumento da temperatura no Brasil central. O aumento da temperatura altera a circulação atmosférica. Isso, por sua vez, altera as trajetórias de massas de ar que poderiam trazer vapor de água”, diz o pesquisador.

GRANDES SECAS – “Com a elevação da temperatura, há aumento da incidência de eventos extremos, como grandes cheias e grandes secas”, acrescenta.

O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de operações e modelagem do Cemaden (Centro de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), também elenca mais de um fator para explicar as dificuldades hídricas. Segundo ele, o Brasil registra chuvas abaixo da média desde 2014. Neste ano, diz, o quadro foi agravado pelo impacto do La Niña.

Seluchi concorda com a ideia de que o aquecimento global e o desmatamento de diferentes biomas podem agravar a situação. “A chuva precisa de umidade para ocorrer. Se você modifica o solo, substitui florestas, desmata nascentes de rios, tudo isso causa mudança de umidade. Não há como dizer qual o percentual de cada fator nesse processo [crise hídrica]. Há uma combinação de coisas”, analisa o meteorologista do Cemaden, órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

One thought on “Desmatamento e mudança climática agravam crise hídrica e energética, dizem especialistas

  1. Cada novo indivíduo que nasce, constitui-se um multiplicador de problemas em potencial: nem precisa ele agir, basta existir.
    A antropocidade é a soma das degradações exponeciais de cada um de nós.
    -Um bebê que acabou de nascer, desde seu estágio de nascituro, ele já vinha antecipando o seu leque de danos ambientais: a mãe fazia pré-natal e dava gasto em medicamentos e assessórios médicos descartáveis. Tudo isso, inevitavelmente, teve de sair da natureza.
    Ao nascer, a interação do novo ser com o meio ambiente será ainda mais predatória: ele vai passar a comer, vestir, tomar remédios e se converter em um produtor de lixos. Por causa dele cresce o consumo e a consequente resposta do setor produtivo: mais poluição e degradação do ecossistema. Uma vaca que fornece leite para o “neoterráqueo”, a bovídea, a exemplo do lactente, quando ambos soltam um peido ou um arroto, lá se vão dois inimigos da camada de ozônio: sulfeto de hidrogênio(H2S) e gás metano(CH4). Este último contribui também pro efeito estufa – e assim nutridora e nutrido vão tecendo as suas cadeias devastadoras.
    -Não espere que as pandemias façam o aterrador bio-despovoamento; você poderia começar, aí na sua cama mesmo, um planejamento familiar responsável, equilibrado e sem maiores traumas ou coerções!

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