Detonando a Semana de 22, para festejar o centenrio da Arte Moderna no Brasil

Semana de Arte Moderna - Toda Matria

Catlogo da Semana, por Di Cavalcanti

Jos Renato Nalini
Estado

Em fevereiro prximo, o Brasil celebrar o Centenrio da Semana de Arte Moderna de 1922. Regozijo para a Academia Paulista de Letras, instituio fundada em 1909 pelo mdico Joaquim Jos de Carvalho e que desde ento, nunca interrompeu suas atividades. Pois, exceo de Oswald de Andrade, os intelectuais que promoveram a Semana eram seus integrantes.

O principal deles, Mrio de Andrade. Mas tambm Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Monteiro Lobato, Ren Thiolier, Srgio Milliet, Plnio Salgado e o prprio Presidente do Estado, Washington Lus Pereira de Souza.

NOS TRS SALES – A gnese da Semana foi um dos sales que, em So Paulo, supriam a carncia de eventos culturais. Trs eram clebres: a Vila Kyrial, do Senador Freitas Valle, a residncia de D. Olvia Guedes Penteado e a casa de Paulo Prado, o verdadeiro Mecenas da Semana de 22.

Foi num dos almoos promovidos por Paulo Prado que sua esposa, a francesa Marie Lebrun, conhecida por Mariette, sugeriu que os jovens todos na casa dos vinte anos promovessem um evento como o Festival de Dauville, em sua terra natal. Desfile de modas, mas tambm apresentaes culturais, exposio de artes, um verdadeiro happening.

A ideia foi entusiasticamente aceita pela dupla de Andrades, que se completavam em suas ndoles bem antagnicas. Mrio era concatenado, articulado, sistemtico, estudioso e profundo. Oswald era impulsivo, expansivo, piadista, causer, aventureiro.

TEATRO MUNICIPAL – Logo idealizaram utilizar o Teatro Municipal, inaugurado onze anos antes, para esse espetculo demolidor. Sim, a inteno dos jovens, incentivados pelo inquieto Paulo Prado, era demonstrar que o passadismo j produzira os frutos que podia e que, tal e qual uma bananeira, deveria ser erradicado.

De certa forma, o inconformismo j comeara bem antes. O nacionalismo estava nas obras de Euclides da Cunha, que foi a Canudos como reprter de O Estado de So Paulo, acreditando que um grupo de fanticos pretendia reinstaurar a monarquia. Percebeu que eram ingnuos seguidores de uma espcie de profeta, Antonio Conselheiro, e que a cruel Repblica os eliminara sem piedade.

Menotti Del Picchia criara o seu Juca Mulato, um heri muito diferente do bom selvagem rousseauniano que estava na obra Iracema de Jos de Alencar, imortalizado por Carlos Gomes na pera O Guarani. Mas, sobretudo, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato, que escancarou a realidade do caboclo ou caipira brasileiro. Um ser endmico, vivendo mal na sua choa ou nos brejais. Personagem que foi mencionado por Rui Barbosa ao disputar a Presidncia da Repblica, na campanha civilista em 1919.

PARANOIA DE MALFATTI – Em 1917, Anita Malfatti expusera suas obras e Monteiro Lobato a criticara acerbamente, chamando a exposio de Paranoia. Isso serviu para chamar a ateno de todos para a obra da artista, que poderia ter passado desapercebida no fosse a polmica ento iniciada.

So Paulo fervilhava com quase um milho e meio de italianos que trouxeram outra cultura, mais afinada com o futurismo de Marinetti e que em 1917 deflagraram uma grande greve.

Enquanto o Rio se vangloriava da condio de Capital Federal, como o fora no Imprio, So Paulo queria mostrar, no Centenrio da Independncia, ser tambm capaz de um grito de emancipao artstico-cultural.

A CONSAGRAO – A Semana teve aplausos e apupos. Mas mudou o panorama brasileiro. Getlio Vargas chega a inclu-la como um dos fatores que deflagraram a Revoluo de 1930. A cada ano, ela se tornou mais importante. Releituras, revisitas, foi ganhando dimenso que no teve no trduo de 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922. Seus artfices foram consagrados.

Mas foi justamente um confrade, tambm acadmico da Academia Paulista de Letras, que quis deton-la. Joo Fernando Almeida Prado, mais conhecido como Yan, escreveu um livro: A Grande Semana de 1922, para dizer que Marioswald como chamava a dupla andradiana, se autopromovera s custas do acontecimento. Tentou diminuir a importncia da Semana, que seria fruto do oportunismo de dois jovens desprovidos de talento.

Em defesa da Semana e de Mrio e de Oswald de Andrade, o prprio Menotti esclarece que a Semana foi, sim, um acontecimento de relevncia extrema. Transformou a So Paulo provinciana em capital do pioneirismo intelectual. Projetou seus partcipes. Merece todas as glrias.

EXCELENTE CONVVIO – Felizmente, esse clima de beligerncia entre irmos pois no outro o sentido de confreiras e confrades, utilizado no trato dos membros da Academia Paulista de Letras, no existe em 2022.

uma Casa de excelente convvio, onde o pluralismo coexiste sem traumas, um espao democrtico agora tambm eternizado na coleo Perfil Acadmico, resultante de um convnio entre a APL e a IMESP, da qual j saram oito exemplares.

So biografias sintticas dos patronos, fundadores e membros da Academia, para inspirar os jovens principalmente os jovens a se interessarem por literatura, escrita e leitura. Que venham os prximos nmeros.

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