Dezoito brevíssimas observações sobre o efeito JBS

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Charge do Cazo (Arquivo Google)

Percival Puggina

O texto que segue contém observações avulsas sobre os acontecimentos desencadeados pelo encontro entre Michel Temer e Joesley Batista. Creio que sintetizam boa parte das inquietações nacionais.

1. Aquilo foi uma armação? Claro que foi. Afirmá-lo não torna Joesley mais culpado do que já é. E por mais que queiramos desanuviar a cena para o bem do país isso não exime Michel Temer de suas responsabilidades pessoais em relação ao fato.

2. O encontro jamais deveria ter acontecido. Lembram da viagem de Ricardo Lewandowsky, então presidente do STF, à cidade do Porto, em julho de 2015, para se encontrar, longe dos olhos da imprensa, com a então presidente Dilma Rousseff? Pois é. Existem reuniões essencialmente reprováveis.

3. A fita foi editada? Haverá uma perícia, tardiamente solicitada pelo ministro Fachin. No entanto, nessa hipótese, quem primeiro deveria ter denunciado isso seria o próprio Temer, para dizer que o diálogo não correspondia ao que foi conversado, que suas frases de aprovação não se referiam aos crimes confessados por seu interlocutor, mas a outros ditos proferidos no encontro.

4. Em momento algum, após a divulgação do áudio, o presidente mencionou que algo pronunciado por ele estivesse ausente da fita levada a público. E mais: quando seu visitante sumiu nas sombras da noite, nenhuma atitude tomou sobre o que dele tinha ouvido.

5. Não vislumbro, portanto, qualquer motivo para abrandar as responsabilidades da mais alta autoridade da República diante do que ouvi naquela gravação, e li na sua degravação.

6. O ministro Fachin atuou de modo apressado, pondo a prudência em risco? Sim, e pode estar na falta de uma perícia da fita, a saída para Michel Temer, na hipótese de que o pleno do STF, julgando o recurso impetrado pela defesa do presidente, suspenda a investigação contra ele. Mas isso não altera o fato em si.

7. O acordo de delação beneficiou os irmãos Batista de um modo escandaloso, que repugna a consciência nacional. A estas alturas, Marcelo Odebrecht deve estar se perguntando: “Onde foi que eu errei?”. Não há demasia em imaginar que, no encerramento do acordo da laureada delação, a autoridade pública que o coordenou tenha dado um beijo nas bochechas dos Batista brothers e ido para casa abrir uma bouteille de champagne.

8. No entanto, conforme alertou o Dr. Luiz Marcelo Berger com base na Teoria dos Jogos, os dois salafrários podem vir a ser presos por outros crimes praticados fora do acordo celebrado com a justiça.

9. Toda essa situação beneficia o PT? Sim, tudo que é ruim para o Brasil é bom para o PT, e vice-versa. Por isso, o PT quer rasgar a Constituição e defende a ideia de diretas imediatas. Depois de bater os recordes mundiais de incompetência e corrupção, o partido imagina voltar ao poder para mais do mesmo. Suas lideranças ainda não fizeram ao país todo o mal que pretendem, nem a si mesmos todo o bem que aspiram.

10. O governo Temer emergiu do interior da gestão que dirigia o país desde 2003, compartilhada entre o que havia de pior no PT, no PMDB e no PP. O impeachment de Dilma Rousseff não foi uma campanha oposicionista para “eleger” Michel Temer presidente. Foi uma consequência dos atos por ela praticados e teve como consequência constitucional a posse do vice-presidente eleito e reeleito em chapa com ela.

11. O troféu da ingenuidade vai para quem esperou que um grupo de homens virtuosos saísse do interior daquele governo unido em torno do vice-presidente. Não havia gente assim por lá. Salvar a nação do naufrágio – e isso vem sendo feito – era uma parte da missão. A outra era salvar o próprio pêlo.

12. As medidas para sair da crise, reduzir o descrédito do país (ou, em melhor hipótese, melhorar a confiança nele) envolvem providências que, no curto prazo, causam rejeição popular. Com um Congresso marcado pela corrupção, assombrado pelo temor da reação dos eleitores no pleito de 2018, o apoio a tais medidas envolve concessões que reduzem o efeito das reformas. Elas ficarão ainda mais difíceis sob uma presidência fortemente atingida em sua honra pessoal.

13. Não há conveniência política nem suporte constitucional para uma antecipação da eleição presidencial. A Constituição de 1988, exatamente para evitar casuísmos desse tipo, tornou cláusula pétrea a periodicidade das eleições. Antecipar é romper a periodicidade.

16. Está constitucionalmente determinado que a sucessão do presidente, passada a primeira metade do mandato, se proceda por eleição indireta, através do Congresso Nacional. O artigo 224 da lei 13.165, da minirreforma eleitoral de 2015, define diferentemente, mas está em desacordo com a Constituição.

17. Os fatos ainda estão rolando, como pedras, morro abaixo. Impossível, portanto, fazer previsões com segurança. Inclino-me, porém, pela conveniência de afastar o presidente (por renúncia, por cassação da chapa no TSE ou, na pior das hipóteses, por impeachment), preservando a base de apoio para uma eleição indireta no plenário do legislativo nacional.

18. Pode ser que, um dia, em nova tormenta institucional sempre por vir, despertemos para a absoluta irracionalidade do nosso presidencialismo, pivô de crises que cada vez mais vigorosamente flagelam o país.

12 thoughts on “Dezoito brevíssimas observações sobre o efeito JBS

  1. Desculpe-me, CN, mas gostaria que alguém questionasse, de fato, as atitudes deste tal Janot! Ele está indo longe demais…Já estamos em plena “ditadura”, é isso? Um abraço!

  2. Caro leitor Nelson,
    Ultimamente não tinha mais interesse em ler o Reinaldo Azevedo, tendo em vista algumas posições com as quais não concordo.
    No entanto, meu Deus, o Rodrigo Janot pirou de vez.
    Que democracia é essa em que vivemos?
    O procurador-geral da república recebe um empresário investigado em 3 operações que lhe mostra gravações que efetuou no palácio do Jaburu de conversa havida com o presidente Michel Temer.
    De posse dessas gravações ambos se dirigem ao STF para o gabinete do relator da LAVA JATO ministro Edson Fachin que aceita essas gravações como válidas.
    E agora ele grampeia um jornalista falando com sua fonte e vaza para a imprensa esquerdopata brasileira.
    Aonde que nós fomos parar!
    Que momentos nebulosos, nefastos, sombrios…
    Não ouvi o que se contém nesta gravação feita do jornalista com a sua fonte, mas, penso, salvo melhor juízo, não haver crime, nem suspeita, provavelmente uma conversa de amigos e a fonte de um jornalista, e a fonte é inviolável, conforme preceitua a CONSTITUIÇÃO FEDERAL.
    Será que tínhamos esse comportamento odioso na época do regime militar que os esquerdopatas brasileiros esculhambam tanto?
    Isto, certamente é muito pior do que o regime militar de 1964 a 1985.
    Volto a frisar que, o sigilo da fonte é princípio constitucional.
    Tragam logo os tanques do Nicolás Maduro e os do irmão de Fidel Castro e os daquele ditador norte coreano, pois se o país assim permanecer com essa esculhambação institucional aí que o Brasil de fato acabou.
    Penso que nunca presenciei nos meus 57 anos de vida algo nem parecido, com esse autoritarismo e arbitrariedade perpetrada pelo procurador-geral da república.
    Onde nós vamos parar?
    Com fuzilamentos daqui a pouco?
    Com essa amada pátria tornando-se uma Venezuela, Cuba ou quem sabe Coréia do Norte?

  3. Irrepreensível o artigo do Sr Percival Puggina.
    Se o plano de 20(vinte) anos de poder tivesse vingado, ou seja, se o “poste” não tivesse ganho vida e sim dado continuidade ao plano, e aceito a administração do companheiro mor, nós, estaríamos vendo hoje um aprofundamento da bolivarianização, que para ser revertido, seria infinitamente mais doloroso do que está ocorrendo na Venezuela.
    Abraço.

  4. As postagens dos prezados Percival Puggina e João Amaury Belém foram perfeitas.
    “-Constituição? Mude-se a Constituição…”

  5. Reestreia fulminante do Percival Puggina na TI. Matéria de fôlego, confirmando que conspiração também pode ser como a mentira… ter perna curta..

    Ainda mais em tempo de internet..

    Porém, a meu ver, ficou faltando o apogeu: Temer se equilibrando sabe-se lá até onde der, e jogando no colo de Janot e Fachin, as explicações que o grande público espera.
    .
    No mais, confirma-se o que todos sabem…vivemos sim, uma forma de ditadura.
    Evidentemente, há controvérsias…

  6. esse procurador geral vive dando mancada primeiro não mandou fazer a bendita perícia,e agora grampeou o histriônico reinaldo Azevedo.

  7. É engraçado que só nos comentários estou vendo a defesa da liberdade de imprensa, no caso da quebra de sigilo da fonte de Reinaldo Azevedo. CADÊ A IMPRENSA E SEUS ÓRGÃOS PARA DEFENDER O JORNALISTA? Ou porque se trata de Reinaldo Azevedo a imprensa quer que se dane?

  8. GOLPISMO SANGRANDO – Além de selar consenso com Lula, já firmado a meu ver (aqui vale a assertiva ‘quem cala consente’), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso telefonou ao presidente Michel Temer e o teria aconselhado a “ficar firme” no cargo. Com franqueza tenho minhas dúvidas se Temer cai e não sei se isto seria benéfico, sabendo que o sistema está em ruína e busca sobrevida na esperteza de suas cúpulas ou numa reciclagem caso as pontes entabuladas se rompam.

    Não sejamos ingênuos, embora exaltem os ritos legais é notório que atuam léguas distantes das leis vigentes. Com efeito, num alongado processo de impeachment o presidente golpista deve angariar mais apoio parlamentar do que a presidente deposta Dilma Rousseff obteve, ainda que lhe falte condições objetivas para se equiparar na defesa tamanhas suas implicações, diretas ou indiretas, em atos ilícitos. É possível que abreviem o mandato usurpado de Temer nos próximos dias, via Tribunal Superior Eleitoral.

    O enfrentamento está posto e não será com outro impostor de plantão, eleito à toque de caixa por via indireta ou antecipação isolada do pleito de 2018 (escolha só presidencial), que reverteremos o placar a favor do país. Ao contrário, se cairmos nessas cumplicidades e tramas de Brasília, eles redobram o fôlego. As gestões ‘paz e amor’ de Lula cederam tanto que encerraram no deprimente espetáculo que vemos diariamente, os capitalistas e conservadores não fazem composições senão ampliando espaços e emplacando interésses’.

    Afinal, qual seria a cartada das Organizações Globo nessa forma espetaculosa como difundiu as delações da JBS? Alguns dos anunciantes da emissora dos Marinho são vinculados ao grupo empresarial formado por vinte ou trinta empresas, que na formação do governo Temer ‘emprestou’ Henrique Meirelles para assumir como super ministro da Fazenda. Ele presidia o Conselho de Administração da J&F Participações desde março de 2012, em meio às fracassadas as tentativas de Lula em faze-lo ministro do governo Dilma, como mostro abaixo no link.

    E agora que a ‘Ponte para o Futuro’ chancelada por ele faz água, levando o navio à deriva, tornou-se alto risco que deixem sangrar e por isto tentam estancar a sangria temendo perder o da situação. Assim, torna-se crucial um remendo na ponte ensejando ambiente favorável para que a travessia se concretize como foi desenhada. Com a queda do atua presidente, vem aí Nelson Jobim ou o próprio Meirelles. Anotem pra ver. https://oglobo.globo.com/brasil/fh-ve-temer-sem-apoio-busca-negociacao-com-pt-21372713#ixzz4hoijfF5R

    Em 25/03/2017 registrei como isto já estava em andamento, acessem pra ver: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1866151280267801

    Acessem também meu post de 30/01/2015, no qual registro como Dilma fez bem não ceder às pressões sobre Meirelles. http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1580255998857332&set=t.100006188403089&type=3&theater

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