Dia 22 de março, lançamento do livro, de Guimarães Padilha, “Lacerda na Era da Insanidade”. Histórias da redação da Tribuna, com artigos deste repórter

Caríssimo Helio Fernandes,

Você está bem? Que Deus sempre esteja ao seu lado.

Em primeira mão, informo ao amigo que o nosso livro “Lacerda na era da Insanidade” será afinal lançado no próximo mês de março, exatos 50 anos da eleição do querido Carlos Lacerda para primeiro governante do ex-Distrito Federal, transformado em 1960 em Estado da Guanabara.

Não foi possível o lançamento em 2009 por falta de condições. Jornalista é jornalista… Mas o importante é que o livro vai ganhar vida. E sem dúvida a sua ajuda foi de extrema importância para que tal ocorresse, o que será sempre lembrado.

O livro (280 páginas) insere três dos seus belos artigos publicados na Tribuna da Imprensa e num outro me permito comentar um pouco do que você representou para o país naqueles tempos hediondos vividos por todos nós, no artigo “O Homem que não atendia os Generais”, que anexo neste fax.

O lançamento deverá ocorrer no dia 22 de março (noite de segunda-feira) na ABI e a sua presença será uma glória. Logo lhe mando convite oficial.

Aproveito para enviar abraços a todos de casa e reiterar a você os meus eternos agradecimentos.

Do seu admirador e amigo, Guimarães Padilha”

Comentário de Helio Fernandes
Guimarães Padilha foi bravo e resistente chefe de redação da Tribuna durante os piores anos da ditadura. (Exatamente 10, de 1968 a 1978).

Em 1966 fui cassado três dias antes da eleição, preso na PUC, quando a pedido de Mário Martins, eu, já cassado fiz o discurso final da campanha. Proibido de escrever ou dirigir jornal, tudo ficou com o Padilha. Agora, no livro que sairá no dia 22, Padilha transcreve o artigo que pode ser lido agora. Não deixem de comparecer no dia do lançamento do livro.

* * *

O homem que não atendia os generais

A Tribuna da Imprensa foi o jornal que mais tempo permaneceu sob a censura da Ditadura militar. Enquanto outras redações eram liberadas para produzir seus jornais, o cerco ao jornal de Helio Fernandes parecia não ter fim. Uma das possíveis explicações para essa exceção dentro do regime de exceção talvez se encontre no livro de memórias do general Hugo Abreu, chefe da Casa Civil do presidente Ernesto Geisel, quando o autor afirma:

“Eu não conseguia falar com o jornalista Helio Fernandes. Eu telefonava e elei mandava dizer que não estava. Uma vez, telefonei e ele mandou um recado, perguntando se eu podia telefonar dentro de cinco anos”.

Da mesma forma, a melhor definição do temperamento e da trajetória profissional do Helio talvez se encontre na famosa frase de Rubem Braga: “O Helio Fernandes é o único cara que não tem medo da vida”.

Grande verdade. A biografia de Helio Fernandes é cheia de situações extremas, a que o levaram posições políticas assumidas com desassombro e as palavras candentes de suas críticas implacáveis.

Como jornalista, eis aí um predestinado. Aos 14 anos, já trabalhava na revista O Cruzeiro, onde entrou a pedido do tio, gráfico de profissão. Foi lá que se tornou jornalista, ali permanecendo por 16 anos, junto com o irmão que outra carreira brilhante também faria famosos – Millor Fernandes, o grande Vão Gogo da coluna Pif Paf.

Do O Cruzeiro, Helio se transferiu para o Diário Carioca, onde assumiu a chefia da seção de esportes e, mais tarde, o cargo de secretário de Redação. Dali saiu para a Manchete, cuja redação chefiou em um momento de afirmação da revista semanal dos Bloch, e onde sua busca apaixonada por excelência o levaria a embates que marcaram época. Até com o dono, o saudoso Adolpho Bloch, a quem, reza a lenda, Helio teria expulsado certa vez da redação…

Foi assessor de Imprensa de Juscelino Kubitschek durante a campanha vitoriosa de JK à Presidência da República, em 1955. Adiante, passou-se para a Oposição, logo que Juscelino anunciou aquele que seria o grande objetivo de seu Governo: a mudança da capital para Brasília.

Helio Fernandes é, hoje, o mais antigo jornalista em atividade diária. E, também, o único jornalista vivo que fez a cobertura da Assembléia Nacional Constituinte de 1946, que se seguiu ao fim da Ditadura Vargas. E foi justamente na Constituinte que conheceu, também na mesma cobertura, o repórter mais velho de quem se tornaria grande amigo por muitos anos: Carlos Lacerda.

Em outras façanhas no terreno profissional, criou a primeira coluna de bastidores políticos da imprensa brasileira. Chamava-se “Fatos e Rumores”. Nasceu no Diário de Notícias e no Mundo Ilustrado, de João Dantas, em 1957. Tal estilo de coluna foi copiado em inúmeros jornais do Brasil afora e, é claro, nos grandes do Rio e de São Paulo.

A senda que Helio abriu teve nobres seguidores, tais como a “Segunda Seção”, do Jornal do Brasil, criada por Alberto Dines e assinada por Pedro Muller, depois transformada em “Informe JB”, assinado posteriormente por Pedro Gomes, Wilson Figueiredo, Walter Fontoura, Cícero Sandroni (também colega da Tribuna da Imprensa, hoje, presidente da Academia Brasileira de Letras) e Ancelmo Góis; a coluna “Quatro Cantos”, criada por Oswaldo Peralva no Correio da Manhã e assinada por Cícero Sandroni; a coluna “Periscópio”, do Diário de Notícias, assinada por Heron Domingues; o “Painel”, da Folha de S. Paulo; o “Panorama Político”, de O Globo, e outras, inclusive colunas do gênero em revistas semanais, como as assinadas por Murilo Melo Filho, na revista Manchete, a coluna de Lauro Jardim, na Veja, a de Ricardo Boechat, na IstoÉ, e a de Aziz Ahmed, no Jornal do Commercio, etc.

Em sua coluna, Helio consagrou bordões que hoje todos os colunistas usam. Um deles, a expressão “leia-se”, entre parênteses, destinada a complementar detalhes de fatos ou pessoas citados na oração anterior.

Foi severamente perseguido pela Ditadura militar, especialmente depois do AI-5. Além da censura à Tribuna da Imprensa, sofreu várias prisões na Polícia Federal, no DÓI-CODI, em quartéis, além de ter sido confinado na Ilha de Fernando de Noronha e na Base Aérea de Pirassununga. Contudo, nunca se vergou à violência. Nem deixou de publicar o que lhe parecesse de interesse coletivo, em tom, às vezes, da mais alta voltagem. “Doa a quem doer”, conforme outra marca de sua coluna, hoje publicada on-line, depois que a Tribuna da Imprensa deixou de circular.

Por trás do jornalista criativo e do temível combatente, nem sempre é possível divisar o sereno intelectual, o apaixonado cultor (e colecionador) das artes. Nem a criatura envolvente, modesta, simples, de trato afável para com todos os coadjuvantes das redações que comandou, até os mais humildes. Muito menos o homem de acendrado apego à família. Mas todos eles habitam o Helio Fernandes da vida real que o campo de batalha da vida pública sempre escondeu.

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