Dilma afirma que a reforma ministerial é só com ela. Será?

Pedro do Coutto

Na escala que fez no Qatar, antes de seguir viagem para o encontro de chefes de Estado na Austrália, a presidente Dilma Rousseff falou à imprensa e na entrevista aos repórteres Cátia Seabra, Leandro Colón e Marina Dias, Folha de São Paulo, edição de quinta-feira, procurou reduzir o impacto político causado pela forma com que a ministra Marta Suplicy deixou a pasta da Cultura, mas aproveitou o tema para afirmar ser a única responsável pela reforma ministerial. Acrescentou: não vou fazer a reforma ministerial imediatamente. Vou fazer por partes.

A presidente da República certamente traçou uma estratégia e achou mais conveniente reduzir o tom da resposta para diminuir o impacto do episódio. Do episódio só, não. Dos dois episódios, já que o primeiro teve como protagonista o ministro Gilberto Carvalho. No Qatar, não se referiu ao Secretário Geral da Presidência, concentrando suas declarações em torno da ex ministra.

“A ministra Marta – disse a presidente – não fez nada de diferente ou de errado. Não teve atitude incorreta. Seria uma injustiça criticá-la. Ela me disse o teor da carta antes de eu viajar. Logo depois da minha eleição disse que sairia e eu aceitei. Ela me disse – repetiu – que enviaria uma carta. Marta só expressou o que pensa. Não fez de diferente de outros ministros. As pessoas têm o direito de dar sua opinião” – acrescentou.

A presidente ressaltou que Marta Suplicy lhe dissera que enviaria uma carta. Mas não tocou no outro lado da questão: que a divulgaria pelos jornais. Mas este é outro assunto. Se desejar, Marta Suplicy poderá dar uma terceira versão.

MINISTÉRIO

O que, entretanto, Dilma fez questão de deixar claro é que a responsabilidade pela reforma ministerial cabe exclusivamente a ela e destacou não ter cabimento a especulação de que o ex-presidente Lula estaria agindo para influir na escolha da nova equipe. E desautorizou a qualquer um a falar sobre o tema. Adicionou ainda não ter dado prazo, ao contrário do que foi veiculado, para os ministros entregarem os cargos. Esta afirmação colide com a missão atribuída ao chefe da Casa Civil, Aloisio Mercadante. Pontos confusos, portanto, entre as paredes do Palácio do Planalto.

E contradições entre o governo e o PT atravessam as rodovias urbanas de Brasília e obtêm lugar no próprio Congresso Nacional. É o caso da reforma política cujo anteprojeto desperta resistências dentro do PT, conforme assinala Isabel Braga, O Globo também de quinta-feira. A questão das contribuições de pessoas jurídicas para campanhas eleitorais é uma delas. As correntes partidárias dividem-se entre o sim e o não, havendo quem coloque um outro ângulo: empresas somente poderiam contribuir fazendo doações às legendas, não diretamente a candidatos. Estes só poderiam receber doações de pessoas físicas.

Mas, além disso, defendem amplo debate prévio com a CNBB e a OAB, as quais, além de outras entidades, apresentaram propostas para a reforma política. Não são poucos e simples, pelo contrário, os obstáculos que a presidente Dilma terá pela frente a partir de janeiro.

SILÊNCIO NA OAB-RJ

Por falar em OAB, surpreendia e incomodava o silêncio da seção RJ diante da multa aplicada à servidora do Detran Luciana Tamburini. A entidade poderia, pelo menos, ter oferecido assistência judicial e acompanhamento do processo que tramitou durante três anos e que talvez se estenda ainda por mais tempo. E somente agora decidiu se manifestar contra o juiz.

4 thoughts on “Dilma afirma que a reforma ministerial é só com ela. Será?

  1. O retorno de Marta ao Senado pode ser muito importante para o PT, porque ao lado dela, na bancada por São Paulo, teremos dois senadores pelo PSDB paulista, Aloysio Nunes, que está com a faca na boca por ter sido o candidato derrotado a vice na chapa de Aécio Neves , e o senador eleito e ex-governador de São Paulo, José Serra, conhecido falador pilantrópico, que está sumido por conta de escândalos envolvendo seu governo com cartel de preços para beneficiar empresas fornecedoras de equipamentos eletromecânicos, volta ao senado com a hipocrisia de sempre.
    Marta é sagaz , ela pode neutralizar a ação virulenta desses dois incompetentes que secaram São Paulo.

  2. A OAB, deveria logo no início do caso da servidora do Detran Luciana Tamburini,
    tomar uma posição em defesa da servidora. Li no jornal O Dia do ida 25/10/2014
    que OAB através do presidente Reynaldo Velloso da Comissão de Proteção e Defesa dos Animais, que uma das principais bandeira, será o combate à morte de bichos para
    utilização em rituais religioso. É falta de conhecimento ou perseguição religiosa.
    Não tenho religião, mas tenho conhecimento de quase todas, considero-me insuspeito em
    comentar contra ou a favor da tal “bandeira”.
    Qual a diferença entre matar e sacrificar? No Candomblé, o animal abatido, é servido como
    alimento para todos os fieis, só é retirado da ave os chamados axé, que são parte da ave
    não aproveitas, como: cabeça, ponta das asas, rabo, pés e assim é feito com outros animais. Reafirmo, toda a carne do animal é aproveitada para o consumo dos fiéis, as sobras são divididas entre os fieis.Quem gosta de um franguinho assado, ou um churrasco, não pode ser contra a morte de animais, isso é hipocrisia, salvo se for vegetariano.
    A OAB, deveria ter bandeiras em coisas mais importantes que diz respeito ao pais e sua
    população, que não são poucas.

  3. A descritiva do jornalista Pedro do Coutto, impecável.

    Igualmente, a sua observação quanto a omissão da OAB-RJ no caso da agente de trânsito punida por um divino, só por exercer o seu trabalho, dando azar duplamente: com a “carteirada” – foi em cana, por “desacato” e, de vítima passando a ré, uma multa de R$ 5mil reais no lombo, mais o seu recurso, recusado por unanimidade…

    E a OAB-RJ… silenciosa, cúmplice e corporativa, no mau sentido…

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