Dilma dá continuidade à invenção do novo Brasil

Leonardo Boff

É notório que a direita brasileira, especialmente aquela de forças elitistas que sempre ocuparam o poder de Estado e o trataram como propriedade privada, apoiadas pela mídia privada e familiar, está se aproveitando da crise – que é mundial, e não, apenas, nacional (e temos a vantagem de manter um mínimo de crescimento e o emprego dos trabalhadores, coisa que não acontece na Europa nem nos Estados Unidos) – para fazer sangrar a presidente Dilma Rousseff e desmoralizar o Partido dos Trabalhadores, e assim criar uma atmosfera que lhe permita voltar ao lugar que por via democrática perdeu.

Celso Furtado, em “A Construção Interrompida” (1993), escreveu com acerto: “O tempo histórico se acelera, e a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se temos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação” (Paz e Terra, Rio da Janeiro, 1993, pág. 35).

Aqui reside a verdadeira questão: queremos prolongar a dependência àquelas forças nacionais e mundiais que sempre nos mantiverem alinhados e sócios menores de seu projeto, ou queremos completar a invenção do Brasil como nação soberana que tem muito que contribuir para a solução da atual crise ecológico-social do mundo?

Se, por um lado, não podemos nos privar de algumas críticas ao governo do PT, por outro, seria faltar à verdade se não reconhecêssemos os avanços significativos sob os governos desse partido. A inclusão social realizada e as políticas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.

ÓDIO CONTRA O PT

Surgiu um estranho ódio contra o PT em muitos âmbitos da sociedade. Suspeito que esse ódio seja porque as políticas públicas permitiram aos pobres usar o avião e visitar seus parentes no Nordeste; também conseguiram adquirir seu carro e comprar em shopping centers. O lugar deles não seria no avião, mas na periferia, pois esse é seu lugar. Mas eles foram integrados à sociedade e a seus benefícios.

Devemos aproveitar as oportunidades que os países centrais, em profunda crise, nos propiciam: reafirmar nossa independência, garantindo nosso futuro autônomo, mas relacionado com a totalidade do mundo, ou desperdiçá-la, vivendo atrelados ao destino que é sempre decidido por eles, que nos querem condenar a ser apenas os fornecedores dos produtos “in natura” que lhes faltam, voltando assim a nos colonizar.

Não podemos aceitar essa estranha divisão internacional do trabalho. Temos que retomar o sonho de alguns de nossos melhores analistas, do quilate de Darcy Ribeiro e Celso Furtado, entre outros, que propuseram uma reinvenção ou refundação do Brasil sobre bases nossas, gestadas pelo nosso ensaio civilizatório tão enaltecido mundialmente.

Esse é o desafio lançado aos candidatos à mais alta instância de poder no país. Não vejo figura melhor para seguir nessa reconstrução, a partir de baixo, com uma democracia participativa, com seus conselhos e movimentos populares opinando e ajudando a formular caminhos que nos levem para a frente e para o alto, do que a atual presidente, Dilma Rousseff.

A situação é urgente, pois, como advertia pesaroso Celso Furtado: “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” (op. cit. 35). Nós não queremos aceitar como fatal essa severa advertência. Não devemos reconhecer as derrotas sem antes participar das batalhas, como nos ensinava dom Quixote, em sua gaia sabedoria.

Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.

48 thoughts on “Dilma dá continuidade à invenção do novo Brasil

  1. Sr. Boff

    O ‘estranho ódio’ que o seu partido desperta não será uma consequência da roubalheira que pratica desde que assumiu o poder? é um escândalo atras de outro. O caso da Petrobras parece tão pequeno aos seus olhos, uma empresa que é dos brasileiros foi privatizada pelos cumpanheiros, como tantas outras estatais e fundos de pensão, o Estado brasileiro foi expropriado para um projeto de poder e intelectuais como você fazendo um ridículo papel de justificar essa quadrilha, fico envergonhado de ver seu contorcionismo moral e ético, isso tem um nome que sabe muito bem o que significa f-a-r-i-s-a-i-s-m-o? lá no interior se dava o nome de cara de pau…Por acaso acompanha os depoimentos do Paulinho da Petrobras? qual a narrativa a esse episodio que está abrindo os olhos do povo brasileiro?

    • O ódio ao PT foi criado artificialmente pela mídia familiar do Brasil, muito parecido com a alienação parental, que inclusive é crime.
      Para quem não sabe, alienação parental ocorre quando um dos ex-cônjuges de um casal separado, justamente aquele que detêm a guarda do filho, começa a “fazer a sua cabeça” para que odeie o outro ex-cônjuge.
      Por exemplo, a mãe que fica com a guarda do filho enche a sua cabeça dizendo “seu pai não presta, seu pai não gosta de você, seu pai nos odeia etc”.
      Ou então quando o pai que fica com a guarda do filho enche a sua cabeça dizendo “sua mãe não presta, sua mãe não gosta de você, sua mãe nos odeia etc”.
      Este fenômeno de ódio ao PT, que chamo de “alienação midiática” é muito parecido com a AP e consiste em realizar uma lavagem cerebral na cabeça do cidadão menos esclarecido e infantilizado, que como como uma criança, fica bombardeado de informações enganosas e passou a odiar este partido político. Infelizmente isso (ainda) não é crime no Brasil, mas já é na Inglaterra, pois se apega à falácia da liberdade de imprensa quando é apenas liberdade de manipulação pela propaganda enganosa travestida de jornalismo.

    • Lendo estes comentários doentios e raivosos não há como não lembrar do editor húngaro-americano Joseph Pulitzer:

      “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”

      PS. : Foi colocada como resposta aqui para que aparecesse logo no começo dos comentários, pois sei que direitista não gosta de ler e não iria até o final da página para ver.

  2. Gente,será que este cidadão Boff existe??? Não é para ser levado a serio, é um idiota ao cubo. Acho que ele deveria morar em cuba, lá é o seu lugar,não perderei mais meu tempo lendo as baboseiras que ele escreve.

  3. Com todo respeito ao Sr. Boff, merecedor de carinho e reflexão por todo o povo brasileiro, uma de suas grandes preocupações como sociólogo.

    Entendi perfeitamente o seu tom. Mas me perdoe. Se é verdade que existe essa classe de brasileiros que se arrepia ao ver a ascensão social de classes menos favorecidas, creio que em muito maior número existe um contingente de nacionais que não aguenta mais ver tanta roubalheira, por isso quer mudar (nem que seja para trocar de ladrão!).

    E essa propalada ascensão social é, pelo menos em parte, falsa. Bolsas famílias são esmolas. Esmolas viciam. Não resolvem. Remediam. (Cotas raciais são envergonhantes, como solução; ao menos, que fossem sociais, não raciais!) é necessário reconhecer que ao longo do atual século os produtos se tornaram, também, mais acessíveis, por causa da produção em escala – e como resultado do plano econômico, que se há de reconhecer, foi implantado pelo PSDB, depois de várias tentativas frustradas.

    Em verdade, nenhum economista defendeu isso que vou falar agora, mas é necessário revelar: o Real não teria dado cero se não tivesse havido o Plano Collor, como preparatório – doa a quem doer. Mas a Globo, que tinha colocado FC no poder, tratou de tirá-lo, quando ele a desagradou.
    Este é o Brasil.

    • Não, Nelson. Este texto não é sinonimo de gargalhadas e nem Boff é humorista, ao contrário, ele é muito sério. Rir é muito bom, mas rir de tudo e a todo momento é sinal de indigência mental e desequilíbrio emocional.

  4. Vergonhoso!
    Texto encomendado, repetindo os mesmo chavões segregadores de sempre. Da primeira frase (deve ter se confundido porque foi o PT que tratou e trata o Estado como propriedade privada) até a penultima frase, não falou uma só verdade.
    Somente concordo com a última: “Que os bons espíritos guiem os rumos de nosso país.”

  5. esse inteólogo ainda está no século/era medieval, querendo casar igreja/estado/partido; aliás, nem a santa madre igreja (sic!) o quer mais; realmente, trata-se de um ator e nem hilariante é….

  6. Nem li o comentário, que deve ser mesmo absolutamente FACCIOSO, IDIOTA mesmo – ou seja, peti$$$$$ta .

    “Se esse Cara fosse o …” (cf. um comentário acima), ora, NUNCA SERIA! Ademais, no submundo do crime (e bote submundo nisso) em Nova Iorque O CARA é aquele que é mesmo DESTAQUE entre TODOS os bandidos.

    Quanto ao ator (ATOR, mesmo), deixemo-lo de lado; na outra vida ele se enquadra. Mais do que ninguém, ele SABE que HÁ OUTRA VIDA, ainda que ,da boca pra fora, queira negar.

  7. Os depoimentos do Paulo Costa ja deram origem a mais de 140 procedimentos de investigacao PF / MPF sobre a atuacao dessa mafia em outras areas que nao a Petrobras. Um Oceano de lama !

  8. Será que este Leonardo Boff nunca viu os escândalo de Mensalão, Petrobrás? Será que não fez um balanço de PT 12 anos do Poder? Alguém deve ter encomendado este artigo, só pode! Deveria ter vergonha! Agora só falta o Frei Beto vomitar asneiras!

    • Esta frase não é de Romário e nem é assim.
      A frase correta é de Boécio e deveria ter sido pronunciada assim : “O Pelé calado é um filósofo” e não um poeta. Erraram os dois, o Sr. e o Romário, tanto na forma quanto no conteúdo.

  9. Essa, da mulhé-candidata, eu soube agora mesmo e tenho pressa em divulgar:

    Em discurso, ontem, em algum ponto destepaiz, declarou que “se fosse reeleita, seu primeiro ato em 2015 seria a criação de mais um ministério, o quadragésimo, o Ministério Contra a Corrupção, que seria entregue a Paulo Salim Maluf, o mais indicado para tal cargo”.

    Muito sintomático: quarenta (40) ministros!

  10. Boff é um elemento, habitante, do mundo da psicopatia. E pior, criminosa, conforme demonstra na maioria daquilo que escreve. Já até declarou com todas as letras que o sanguinário ditador de Cuba, Fidel, é o seu comandante.

    E , por falar em ódio, todo marxista-leninista, tem como um dos seus fundamentos principais, para a tomada do poder, a difusão do ódio entre classes, entre pessoas.
    Assim foi o seu PT desde sua criação com o combate calunioso e mentiroso contra FHC, quando presidente e depois também, com Lula no governo, cuja única obra era o discurso diário contra o ex-presidente.

    Seu partido, o corruPTo PT foi contra as diretas, o Plano Real, que tirou milhões da fome ( quem não se lembra do frango a 1 real no início do plano?), foi contra a Lei de responsabilidade Fiscal.

    No governo, Lula entregou , sob porrada do índio da Bolívia, 2 refinarias do nosso povo. Ao mesmo tempo ainda perdoou dívidas daquele país que nos enche de cocaína e que expulsou uns pobre-coitados de brasileiros que plantavam no seu lado da fronteira.
    Etc, etc, etc.

    O lugar desse boff é num manicômio.

    E atenção: Aécio está 15 pontos na frente, segundo o Sensus.

  11. Fato que não podemos esquecer

    Como se vê, o canalha se omite das calúnias e mentiras de Dilma contra Marina há poucos dias nas propagandas de seu partido na TV.

    Definitivamente não dá para deixar de lado a psicopatia de Boff.
    É descarada.
    Como portador dessa característica genética doentia, ele acredita nas próprias mentiras.

  12. Como Católico praticante e com formação Teológica, aconselho ao Sr. Boff ,que quando essa canalha corrupta que ele ajudou a colocar no poder e a defende for derrubada pelas mãos do povo de bem do Brasil , caminhe juntos com eles para pedirem perdão ao povo brasileiro pelos crimes de lesa-pátria praticados por esse meliantes e tantos outros crimes físicos, morais e existenciais montados e perpetrados por essa imensa quadrilha contra a Nação e seu Povo . E por favor, não use o nome de DEUS em vão para defender o sociocomunismo autoritário, corrupto e cruel como Cristão, Nosso Senhor Jesus Cristo nunca foi ou pensou em ser sóciocomunista, isso vocês usam para implantar nessa América Latina pobre e analfabeta e Cristã para enganar os incautos !!!! VIVA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, CRISTO VIVE, CRISTO REINA, CRISTO IMPERA !!!

  13. Boff, Boff, pare de repetir a enganação do Mantega e da Dilma, os Estados Unidos estão crescendo e recuperando empregos, os países emergentes estão todos crescendo bem mais do que o Brasil, aqui na América Latina quase todos estão ganhando de nós também. Até quando vocês vão usar esta desculpa de uma crise que já passou?

  14. “Tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional” – a afirmativa do Celso Furtado continua atual, é exatamente isso, mas porque temos um projeto de poder no lugar de um projeto do país.

  15. Como teria sido benéfico para a humanidade se o Cardeal Ratzinger tivesse enviado o Bofe para as masmorras vaticanas. É uma pena tanta cultura a serviço da marginalidade petista.

  16. Lendo estes comentários doentios e raivosos não há como não lembrar do editor húngaro-americano Joseph Pulitzer:

    “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.”

  17. Gritar contra a desonestidade não é ódio. É indignação.
    Ódio é quando uma afirmação é mentirosa e caluniosa como sempre faz o PT e seus beneficiários contra aqueles que se indignam com suas descaradas criminalidades.

  18. Como exposto em meu comentário anterior, não concordo com quase nada que o Leonardo Boff disse, e, no que escreveu particularmente em defesa do PT – que foi quase tudo -, não concordo com absolutamente nada. Mas peço que o respeitem. Essa visão, a nosso ver turva, é visão de muitos, alguns até movidos pela fome, por interesses, digamos, estomacais. Outros por motivos menos nobres. E há, ainda, os petistas ferrenhos, fanáticos, que nada de errado enxergam no covil em que se transformou (?) – ou sempre foi – o PT.

    Certamente, nenhum desses é o caso de Leonardo Boff. Boff é um ser humano admirável, puríssimo. Tão puro que a Igreja Católica o expulsou, por não suportar suas verdades. Ser expulso de lá, como ele foi, convenhamos, é uma honraria. Merece respeito pelo resto da vida.

    Por outro lado, bem sabemos o que é o PSDB. Infelizmente, é a opção que sobrou. O que nos resta é trocar a troupe. Mas desrespeitar o respeitabilíssimo ex-frei Leonardo Boff é coisa que me arrepia. Me arrepia ver (com olhos de ver) a sociedade em que estamos mergulhados. Quanto ódio por uma pessoa que tem uma visão diferente da nossa. Isso é pecado, é crime? Crime quem praticou foram os petistas, mas há de se compreender, com grandiosidade, que a formação católica do ex-frei é capaz de absolvê-los, em nome de um fim mais elevado. Quem sabe não é isso?

    Respeitem Boff. Não estamos na Idade da Pedra. Não voltemos à Época da Escuridão. Lembrem que os fundamentos filosóficos de Leonardo Boff, anotados em seus diversos escritos, apesar de carregados da marca petista – excluídos desse aspecto -, são fontes de reflexão profunda para todos. Encerram lições valiosas.

    E falo de cadeira, porque além de avesso ao PT desde criancinha, sou agnóstico. Mas tudo sem ódio. O Ódio faz mal a quem odeia.

  19. Caro CN … estou colocando do site do Vaticano … é bom ler para se entender o que anda acontecendo até no Sínodo sobre Família … e a influência das idéias de Boff sobre a Igreja Católica como um todo nos dias de hoje (http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19850311_notif-boff_po.html)
    … … …
    CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

    NOTIFICAÇÃO SOBRE O LIVRO
    «IGREJA: CARISMA E PODER.
    ENSAIOS DE ECLESIOLOGIA MILITANTE»
    DE FREI LEONARDO BOFF, O.F.M.

    INTRODUÇÃO

    No dia 12 de fevereiro de 1982, Frei Leonardo Boff, OFM, tomou a iniciativa de enviar à Congregação para a Doutrina da Fé a resposta que deu à Comissão arquidiocesana para a Doutrina da Fé do Rio de Janeiro, que criticara o seu livro « Igreja: Carisma e Poder » (Editora Vozes – Petrópolis, RJ, Brasil, 1981). Declarava que aquela crítica continha graves erros de leitura e de interpretação.

    A Congregação, após ter estudado o livro nos seus aspectos doutrinais e pastorais, expôs ao Autor, numa carta de 15 de maio de 1984, algumas reservas, convidando-o a aceitá-las e oferecendo-lhe, ao mesmo tempo, a possibilidade de um diálogo de esclarecimento. Tendo porém em vista a repercussão que o livro estava tendo entre os fiéis, a Congregação informou L. Boff de que, em qualquer hipótese, a carta seria publicada, levando eventualmente em consideração a posição que ele viesse a tomar por occasião do diálogo.

    No dia 7 de setembro de 1984, L. Boff foi recebido pelo Cardeal Prefeito da Congregação, acompanhado pelo Mons. Jorge Mejía, na qualidade de Secretário. Foram objeto do colóquio alguns problemas eclesiológicos surgidos da leitura do livro « Igreja: Carisma e Poder » e assinalados na carta de 15 de maio de 1984. A conversa, que se desenvolveu num clima fraterno, proporcionou ao Autor ocasião de expor seus esclarecimentos pessoais, que ele quis também entregar por escrito. Tudo isto foi explicado num comunicado final publicado e redigido de comum acordo com L. Boff. Concluído o diálogo, foram recebidos pelo Cardeal Prefeito, em outra sala, os Eminentíssimos Cardeais Aloísio Lorscheider e Paulo Evaristo Arns, que se encontravam em Roma para esta oportunidade.

    A Congregação examinou, seguindo a praxe que lhe é própria, os esclarecimentos orais e escritos fornecidos por L. Boff e, embora tomando nota das boas intenções e das repetidas declarações de fidelidade à Igreja e ao Magistério por ele expressas, sentiu-se contudo no dever de salientar que as reservas levantadas acerca do conteúdo do livro e assinaladas na carta, não poderiam, na sua substância, considerar-se superadas. Julga pois necessário, assim como estava previsto, agora publicar, nas suas partes essenciais, o conteúdo doutrinal da mencionada carta.

    PREMISSA DOUTRINAL

    A eclesiologia do livro « Igreja: Carisma e Poder » propõe-se ir ao encontro dos problemas da América Latina e, em particular do Brasil, com uma coletânea de estudos e perspectivas (cf. p. 13). Tal intenção exige, de um lado, uma atenção séria e aprofundada às situações concretas, às quais o livro se refere e, por outro lado, — para realmente corresponder ao seu objetivo — a preocupação de inserir-se na grande tarefa da Igreja universal, no sentido de interpretar, desenvolver e aplicar, sob a inspiração do Espírito Santo, a herança comum do único Evangelho, entregue, uma vez para sempre, pelo Senhor à nossa fidelidade. Deste modo a única fé do Evangelho cria e edifica, ao longo dos séculos, a Igreja católica, que permanece una na diversidade dos tempos e na diferença das situações próprias às múltiplas Igrejas particulares. A Igreja universal realiza-se e vive nas Igrejas particulares e estas são Igreja exatamente enquanto continuam a ser, num determinado tempo e lugar, expressão e atualização da Igreja universal. Deste modo, com o crescimento e o progresso das Igrejas particulares cresce e progride a Igreja universal; ao passo que, debilitando-se a unidade, diminuiria e decairia também a Igreja particular. Por isso o verdadeiro discurso teológico não pode jamais contentar-se em apenas interpretar e animar a realidade de uma Igreja particular, mas deve, ao contrário, procurar aprofundar os conteúdos do depósito sagrado da palavra de Deus, depósito confiado à Igreja e autenticamente interpretado pelo Magistério. A praxis e as experiências que sempre têm origem numa determinada e limitada situação histórica, ajudam o teólogo e o obrigam a tornar o Evangelho acessível ao seu tempo. A praxis, contudo, não substitui, nem produz a verdade, mas está a serviço da verdade, que nos foi entregue pelo Senhor. O teólogo é, pois, chamado a decifrar a linguagem das diversas situações — os sinais dos tempos — e a abrir esta linguagem à inteligência da fé (cf. Enc. Redemptor hominis, n. 19). Examinadas à luz dos critérios de um autêntico método teológico — aqui apenas brevemente assinalados — certas opções do livro de L. Boff manifestam-se insustentáveis. Sem pretender analisá-las todas, colocam-se em evidência apenas as opções eclesiológicas que parecem decisivas, ou seja: a estrutura da Igreja, a concepção do dogma, o exercício do poder sagrado e o profetismo.

    A ESTRUTURA DA IGREJA

    L. Boff coloca-se, segundo as suas próprias palavras, dentro de uma orientação, na qual se afirma « que a igreja como instituição não estava nas cogitações do Jesus histórico, mas que ela surgiu como evolução posterior à ressurreição, particularmente com o processo progressivo de desescatologização » (p. 123). Consequentemente, a hierarquia é para ele « um resultado » da « férrea necessidade de se institucionalizar », « uma mundanização », no « estilo romano e feudal » (p. 71). Daí deriva a necessidade de uma « mutação permanente da Igreja » (p. 109); hoje deve emergir uma « Igreja nova » (p. 107, passim), que será « uma nova encarnação das instituições eclesiais na sociedade, cujo poder será pura função de serviço » (p. 108).

    Na lógica destas afirmações explica-se também a sua interpretação acerca das relações entre catolicismo e protestantismo: « Parece-nos que o cristianismo romano (catolicismo) se distingue por afirmar corajosamente a identidade sacramental e o cristianismo protestante por uma afirmação destemida da não-identidade » (p. 132; cf. pp, 126 ss., 140).

    Dentro desta visão, ambas as confissões constituiriam mediações incompletas, pertencentes a um processo dialético de afirmação e de negação. Nesta dialética « se mostra o que seja o cristianismo. Que é o cristianismo? Não sabemos. Somente sabemos aquilo que se mostrar no processo histórico » (p. 131).

    Para justificar esta concepção relativizante da Igreja — que se encontra na base das críticas radicais dirigidas contra a estrutura hierárquica da Igreja católica — L. Boff apela para a Constituição Lumen gentium (n. 8) do Concílio Vaticano II. Da famosa expressão do Concílio « Haec Ecclesia (se. única Christi Ecclesia) … subsistit in Ecclesia catholica », ele extrai uma tese exatamente contrária à significação autêntica do texto conciliar, quando afirma: de fato, « esta (isto é, a única Igreja de Cristo) pode subsistir também em outras Igrejas cristãs » (p. 125). O Concílio tinha, porém, escolhido a palavra « subsistit » exatamente para esclarecer que há uma única « subsistência » da verdadeira Igreja, enquanto fora de sua estrutura visível existem somente « elementa Ecclesiae », que — por serem elementos da mesma Igreja — tendem e conduzem em direção à Igreja católica (LG 8). O Decreto sobre o ecumenismo exprime a mesma doutrina (UR 3-4), que foi novamente reafirmada pela Declaração Mysterium Ecclesiae, n. 1 (AAS LXV [1973], pp. 396-398).

    A subversão do significado do texto conciliar sobre a subsistência da Igreja está na base do relativismo eclesilógico de L. Boff, supra delineado, no qual se desenvolve e se explicita um profundo desentendimento daquilo que a fé católica professa a respeito da Igreja de Deus no mundo.

    DOGMA E REVELAÇÃO

    A mesma lógica relativizante encontra-se na concepção da doutrina e do dogma expressa por L. Boff. O Autor critica, de modo muito severo, « a compreensão doutrinária da revelação » (p. 73). É verdade que L. Boff distingue entre dogmatismo e dogma (cf. p. 139), admitindo o segundo e rejeitando o primeiro. Todavia, segundo ele, o dogma, na sua formulação, é válido somente « para um determinado tempo e circunstâncias » (pp. 127-128). « Num segundo momento do mesmo processo dialético o texto deve poder ser ultrapassado para dar lugar a outro texto do hoje da fé » (p. 128). O relativismo que resulta de semelhantes afirmações torna-se explícito quando L. Boff fala de posições doutrinárias contraditórias entre si, contidas no Novo Testamento (cf. p. 128). Consequentemente « a atitude verdadeiramente católica » seria de « estar fundamentalmente aberto a todas as direções » (p. 128). Na perspectiva de L. Boff a autêntica concepção católica do dogma cai sob o veredito do « dogmatismo »: « Enquanto perdurar este tipo de compreensão dogmática e doutrinária da revelação e da salvação de Jesus Cristo dever-se-á contar irretorquivelmente com a repressão da liberdade de pensamento divergente dentro da Igreja » (pp. 74-75).

    A este propósito convém ressaltar que o contrário do relativismo não é o verbalismo ou o imobilismo. O conteúdo último da revelação é o próprio Deus, Pai, Filho e Espírito Santo, que nos convida à comunhão com Ele; todas as palavras referem-se à Palavra, ou — como diz São João da Cruz: « … a su Hijo … todo nos habló junto y de una vez en esta sola Palabra y no tiene más que hablar » (Subida del Monte Carmelo, II, 22, 3). Mas nas palavras, sempre analógicas e limitadas, da Escritura e da fé autêntica da Igreja, baseada na Escritura, exprime-se, de modo digno de fé, a verdade acerca de Deus e acerca do homem. A constante necessidade de interpretar a linguagem do passado, longe de sacrificar esta verdade, torna-a, antes, acessível e desenvolve a riqueza dos textos autênticos. Avançando, guiada pelo Senhor, que é o caminho e a verdade (Jo 14, 16), a Igreja, que ensina e que crê, está convencida de que a verdade expressa pelas palavras de fé não só não oprime o homem, mas o liberta (Jo 8, 32) e é o único instrumento de verdadeira comunhão entre os homens de diversas classes e opiniões, enquanto uma concepção dialética e relativizante o expõe a um decisionismo arbitrário.

    No passado, esta Congregação teve ocasião de mostrar que o sentido das fórmulas dogmáticas permanece sempre verdadeiro e coerente, determinado e irreformável, embora possa ser ulteriormente esclarecido e melhor compreendido (cf. Mysterium Ecclesiae, n. 5: AAS LXV [1973], pp. 403-404).

    Para continuar na sua função de sal da terra, que nunca perde o seu sabor, o « depositum fidei » deve ser fielmente conservado na sua pureza, sem deslizar no sentido de um processo dialético da história e em direção ao primado da praxis.

    O EXERCÍCIO DO PODER SAGRADO

    Uma «grave patologia » de que, segundo L. Boff, a Igreja romana deveria livrar-se, é provocada pelo exercício hegemónico do poder sagrado que, além de torná-la uma sociedade assimétrica, teria também sido deformado em si mesmo.

    Dando por certo que o eixo organizador de uma sociedade coincide com o modo específico de produção que lhe é próprio, e aplicando este princípio à Igreja, L. Boff afirma que houve um processo histórico de expropriação dos meios de produção religiosa por parte do clero em prejuízo do povo cristão que, em consequência, teria sido privado de sua capacidade de decidir, de ensinar etc. (cf. pp. 75, 215 ss., 238-239). Além disso, após ter sofrido esta expropriação, o poder sagrado teria também sido gravemente deformado, vindo a cair deste modo nos mesmos defeitos do poder profano em termos de dominação, centralização, triunfalismo (cf. pp. 98, 85, 91 ss.). Para remediar estes inconvenientes, propõe-se um novo modelo de Igreja, no qual o poder seria concebido sem privilégios teológicos, como puro serviço articulado de acordo com as necessidades da comunidade (cf. pp. 207, 108).

    Não se pode empobrecer a realidade dos sacramentos e da palavra de Deus enquadrando-a no esquema da « produção e consumo », reduzindo deste modo a comunhão da fé a um mero fenómeno sociológico. Os sacramentos não são «material simbólico », a sua administração não é produção, a sua recepção não é consumo. Os sacramento são dom de Deus. Ninguém os « produz ». Todos recebemos por eles a graça de Deus, os sinais do eterno amor. Tudo isto está além de toda produção, além de todo fazer e fabricar humano. A única medida que corresponde à grandeza do dom é a máxima fidelidade à vontade do Senhor, de acordo com a qual todos seremos julgados — sacerdotes e leigos — sendo todos « servos inúteis » (Lc 17, 10). Existe sempre, decerto, o perigo de abusos; põe-se sempre o problema de como garantir o acesso de todos os fiéis à plena participação na vida da Igreja e na sua fonte, isto é, na vida da Senhor. Mas interpretar a realidade dos sacramentos, da hierarquia, da palavra e de toda a vida da Igreja em termos de produção e de consumo, de monopólio, expropriação, conflito com o bloco hegemónico, ruptura e ocasião para um modo assimétrico de produção, equivale a subverter a realidade religiosa. Ao contrário de ajudar na solução dos verdadeiros problemas, este procedimento leva, antes, à destruição do sentido autêntico dos sacramentos e da palavra da fé.

    O PROFETISMO NA IGREJA

    O livro « Igreja: Carisma e Poder » denuncia a hierarquia e as instituições da Igreja (cf. pp. 65-66, 88, 239-240). Como explicação e justificação para semelhante atitude reivindica o papel dos carismas e, em particular, do profetismo (cf. pp. 237-240, 246, 247). A hierarquia teria a simples função de « coordenar », de « propiciar a unidade, a harmonia entre os vários serviços », de « manter a circularidade e impedir as divisões e sobreposições », descartando pois desta função « a subordinação imediata de todos aos hierarcas » (cf. p. 248).

    Não há dúvida de que todo o povo de Deus participa do múnus profético de Cristo (cf. LG 12); Cristo cumpre o seu múnus profético não só por meio da hierarquia, mas também por meio dos leigos (cf. ib. 35). Mas é igualmente claro que a denúncia profética na Igreja, para ser legítima, deve permanecer sempre a serviço, para a edificação da própria Igreja. Esta não só deve aceitar a hierarquia e as instituições, mas deve também colaborar positivamente para a consolidação da sua comunhão interna; além disso, pertence à hierarquia o critério supremo para julgar não só o exercício bem orientado da denúncia profética, como também a sua autenticidade (cf. LG 12).

    CONCLUSÃO

    Ao tornar público o que acima ficou exposto, a Congregação sente-se na obrigação de declarar, outrossim, que as opções aqui analisadas de Frei Leonardo Boff são de tal natureza que põem em perigo a sã doutrina da fé, que esta mesma Congregação tem o dever de promover e tutelar.

    O Sumo Pontífice João Paulo II, no decorrer de uma Audiência concedida ao Cardeal Prefeito que subscreve este documento, aprovou a presente Notificação, deliberada em reunião ordinária da Congregação para a Doutrina da Fé, e ordenou que a mesma fosse publicada.

    Roma, Sede da Congregação para a Doutrina da Fé, 11 de Março de 1985.

    Joseph Card. Ratzinger
    Prefeito

    + Alberto Bovone
    Arcebispo tit. de Cesarea de Numidia
    Secretário”

  20. O papel desempenhado por Cristo e Buda não diz respeito à matéria e sim ao espírito: “Meu reino não é deste mundo (materia)” “Nem só de pão vive o Homem”, ” A César o que é de César”(política do poder).
    Para se conseguir os céus de que Buda (nirvana) ou Cristo falavam, eles propunham o cultivo de uma índole pacífica e de boa convivência com o próximo. Um espírito benevolente. Etc, etc,etc.
    Mas, como a ambição humana , depois do advento da mente é incontrolável, com sua obsessão pelo ilusório paraíso material, ela leva o homem a criar sistemas para buscá-lo. Sistemas conhecidos como religião ou ideologia.
    Ou seja, nada a ver com o que Cristo ou Buda propunham, que é a libertação do espírito do mundo material.

    A igreja católica ou cristã deveria se ocupar do cultivo de um espírito benevolente entre as pessoas.

    “Meu reino não é desse mundo (matéria)”

    Política e economia é função do estado.

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