Dilma define seus mandamentos, nem todos do PT

Pedro do Coutto

No seu primeiro pronunciamento como presidente eleita, domingo à noite, Dilma Rousseff revelou direta e objetivamente os seus mandamentos essenciais, sob a forma de amplo compromisso com o regime democrático, com a nação e com os princípios que vão nortear o governo que se instala a primeiro de janeiro de 2011. Como sustento sempre, não basta ver o fato, mas também nos fatos, como dizia meu amigo Antonio Houaiss, observar tanto o significado quanto o significante.

O Globo foi o único jornal, ontem, segunda-feira, a publicar o texto integral. Importante ler-se com atenção, assinalando os pontos efetivamente substantivos. Ela traçou as diretrizes de seu mandato, nem todas elas, pelo que se percebeu, coincidentes com posições do próprio PT. Termina a era Lula, começa a fase Dilma. Fecham-se as cortinas do passado, abre-se o palco do futuro. É tempo de alvorada no país depois do vendaval das urnas que consagraram Luis Inácio e assinalam o início de uma nova caminhada.

Mas afirmei que nem todos os mandamentos coincidem com as intenções do PT, pelo menos de setores dele. Vejam só os leitores o que ela disse sobre democracia e liberdade de imprensa.

“Assumo o compromisso de valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais básicos. Dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, somos naturalmente amantes da liberdade. As críticas do jornalismo livre ajudam o país e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.”

Essas afirmações, totalmente claras, como se constata, colidem frontalmente, com posições antidemocráticas defendidas por setores petistas de vários estados que cinicamente defendem a criação de um mecanismo oficial para o chamado controle da mídia. Inconstitucional, pois a Carta de 88, em pleno vigor, veta de forma taxativa qualquer tipo de censura ou controle, aliás falso controle, posso acentuar totalmente impossível. Uma invasão pouco disfarçada da propriedade privada e dos direitos humanos, já que os jornais são bens particulares e a liberdade de comunicação pertence a toda população, portanto à sociedade brasileira.

Mas Dilma assinalou outros ângulos divergentes. Depois da computação dos votos, chegou para a entrevista coletiva ao lado do ex-ministro Antonio Palocci no seu automóvel. Sinalizou, portanto, o seu provável, penso eu, chefe da Casa Civil, o que em síntese significa indiretamente a não reincorporação de José Dirceu ao sistema de poder. Para não acusar o golpe, José Dirceu deu entrevista a O Globo, ressaltando que nada pretende tampouco espera do novo governo.

– Não posso,  por causa do processo contra mim no STF, e não quero – acrescentou.

Não terminaram aí os pensamentos de Roussef. Ao contrário. Através deles, manifestou-se contra a política atual de juros e contra as privatizações, neste caso da era FHC. Vejam só.

“Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança. Não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só as migalhas.”

O que são gastos efêmeros? São 200 bilhões de dólares por ano, resultado da incidência dos juros de 10,75% sobre uma dívida que atingiu exatamente 2,3 trilhões de reais. Se alguém duvidar do montante, leia o balanço da Secretaria do Tesouro, assinado por Hugo Arno Augustin e publicado no Diário Oficial de 30 de setembro. Quem duvidar das palavras de Dilma, leia O Globo edição de ontem.

É isso. Os mandamentos são mais importantes do que parecem à primeira leitura.

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