Dilma demite no DNOCS um retrocesso de 50 anos no tempo

Pedro do Coutto

A presidente Dilma Roussef – reportagem de Gerson Camaroti e Andre de Souza, O Globo de quarta-feira 25 – resolveu demitir o diretor do DNOCS, Elias Fernandes Neto, acusado pela própria Controladoria Geral da União, de ter firmado contratos irregulares no montante de 320 milhões de reais. É da corrente do deputado Henrique Eduardo Alves, líder do PMDB na Câmara.

Por coincidência, a quase totalidade dos recursos destinou-se a obras no Rio Grande do Norte, estado do líder do partido. O dinheiro foi remetido e pago. Os investimentos ainda estão por se realizar. A foto que ilustra a reportagem é de Givaldo Barbosa.

O título deste artigo recorre à linguagem poética, figurativa, já que retrocessos, não sendo pessoas, não podem ser demitidos. Mas é poesia dramática, pois o que aconteceu no Departamento Nacional de Obras Contra Secas representa um recuo de exatamente 53 anos, quando, para evitar casos assim, o presidente Juscelino Kubitschek criou a SUDENE e entregou seu comando a um homem como Celso Furtado.

JK queria acabar com a chamada indústria das secas. Alcançou pleno êxito enquanto aquele economista brilhante permaneceu à frente da Superintendência. No entanto, infelizmente, não conseguiu assegurar o seu projeto, pois hoje vê-se o papel desempenhado por Elias Fernandes Neto.

A indústria das secas ressurgiu.Ela se faz presente no Nordeste desde o Império. Dom Pedro II visitou a região durante uma estiagem e dizem os livros que se desfez de jóias da realeza para ajudar o combate à miséria causada pela falta de chuvas. Foram construídos, já na República, açudes monumentais como Orós e Banabuiu, ambos no Ceará, mas o problema continua.

Celso Furtado era um homem, além de competente, absolutamente honesto. Imagine-se as pressões que se desencadearam contra ele. Desabaram várias tempestades contra sua presença na região.Numa delas, em entrevista a mim, então repórter do Correio da Manhã, ele explicou detalhadamente seu plano de promover a industrialização do Nordeste, já que chovia pouco na área e, portanto, as atividades rurais não poderiam, por si só, assegurar o desenvolvimento econômico com reflexo na renda do trabalho.

Açudes, apenas não resolviam, se não houvesse canalização das águas para torná-las perenes. Mas os grandes fazendeiros, que possuíam açudes particulares, não desejavam e se opunham a tal solução. Democratizar a água, bem essencial, representava diminuir seu poder de comando no voto.

A luta foi difícil. O Correio da Manhã, por orientação de seu Redator Chefe, Luiz Alberto Bahia, sustentava firmemente a posição de Celso Furtado. Não era difícil um posicionamento honesto e lógico, características tanto de Bahia quanto de Furtado. Além disso, suas medidas iniciais refletiram internacionalmente.

Em 1960, ano seguinte ao do surgimento da SUDENE, John Kennedy elegeu-se presidente dos EUA. Convidou Celso para falar sobre a Superintendência na Casa Branca. Foi notícia nos principais jornais do mundo. Começava uma nova era, não revolucionária, mas essencialmente reformista. Não interessava ao conservadorismo. Menos ainda aos conservadores.

Entusiasmado com o plano da SUDENE, Kennedy, em 61, nomeou JK para presidente executivo da Aliança Para o Progresso, inspirada na Operação Panamericana, ideia de JK para eliminar o subdesenvolvimento no continente. Nomeado por John Kennedy, presidente da APP, JK, em 64, teve que depor perante o tenente coronel Ferdinando de Carvalho no quartel da Polícia do Exército, no Rio. Bem, isso pertence à história.

Triste, agora, que para reencontrar o caminho do futuro Dilma Roussef tenha que demitir os atores de um recuo de 53 anos no tempo. O objetivo certo é o futuro, mas políticos querem eternizar o passado.

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