Dilma derrota Serra na simpatia e no campo social

Pedro do Coutto

Na edio de 29 de agosto, a Folha de So Paulo publicou excelente comentrio do reprter Slvio Navarro a respeito de uma pesquisa singular do Datafolha, que foge aos padres dos levantamentos comuns em torno das intenes de voto. A mim parece que a empresa de FSP e Navarro procuraram traduzir as principais causas da disparada da ex-chefe da Casa Civil sobre o ex-governador de So Paulo. A pesquisa foi nacional. Dentre os motivos, faltou um, alis essencial: o peso arrasador do apoio do presidente Lula. De qualquer forma, a influncia desse apoio no seria to ampla, como est sendo, se a candidata no conseguisse interpretar em si qualidades que o eleitorado identifica como sendo uma espcie, no de inconsciente, mas, ao contrrio, de consciente coletivo.

Digo porqu: diante da pergunta quem defende mais os pobres? Dilma vence Serra por 45 a 20. Na seqncia, face pergunta quem defende mais os ricos? Serra dispara por 41 a 17. Quer dizer: o eleitorado brasileiro considera Dilma candidata dos pobres, Serra como o dos ricos. E como os pobres so muitssimo mais numerosos do que os ricos, mesmo considerando estes a partir da classe mdia alta, encontra-se nesse ponto uma explicao de razes sociais envolvendo o confronto e conduzindo as intenes de voto em direo s urnas de outubro.

As respostas dos entrevistados e entrevistadas foram sinceras. Tanto assim que, no momento em que entrou em julgamento o tema sade, Serra leva ntida vantagem: 47 a 33. No quesito simpatia, a exemplo de certos julgamentos seqenciais, Dilma bate Serra por 37 a 26. Nota-se que os indcios assinalados no foram altos. Isso significa que nenhum dos dois francamente simptico. Mas Dilma sai-se melhor do que Serra.

O resultado, penso eu, uma conseqncia, no propriamente da simpatia, mas da antipatia de Jos Serra. Como escrevi outro dia, ele parece sempre estar falando com os eleitores do alto de um patamar ou de uma escada, vrios degraus distncia. Ele no deseja ouvir. Tal hiptese o agride. Deseja apenas ser ouvido. Como se estivesse fazendo um favor em escutar, ou estivesse dando uma aula. Isola-se. No homem de dilogo. um solitrio da comunicao. Dilma Rousseff tampouco uma mulher de dilogo, porm expe-se melhor do que Serra na televiso. Est mais prxima d eleitor do que o seu adversrio.

Um outro tema proporcionou substancial vantagem a Dilma: a estabilidade econmica. Feita a pergunta, pelo DataFolha, sobre quem mais adequado para assegurar essa estabilidade (econmica), a ex-ministra dispara cm 49 a 28 pontos. Correlatamente surge a questo do combate ao desemprego. Quem mais preparado para tal tarefa? Dilma 46, Serra 23. Quanto ao combate violncia, Dilma leva vantagem, mas por 38 a 30, como se constata margem mais estreita. Digo sempre que no basta ver os nmeros. indispensvel ver nos nmeros, traduzindo-os da matemtica para a poltica, quando, claro, se tratar de questes eleitorais. exatamente este o panorama dessa magnfica pesquisa do DataFolha. Muito mais rica do que parece primeira vista.

Se algum se debruar bem sobre as imagens estatsticas que ela fornece vai encontrar aparentes contradies. Mas saparentes. Nos ndices est no fundo a realidade do dia a dia que preocupa a populao. Os graus de essencialidade e importncia refletidos nas manifestaes de afinidade e de mensagem interpretada. Pois a traduo est presente em todos os momentos da vida humana. Ns estamos sempre traduzindo situaes, gestos, palavras. Ns estamos sempre vendo a ns mesmos em nossas respostas.

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