Dilma e a classe média

Carlos Chagas

Conta a crônica mais ou menos recente que José Serra sorriu, ao saber que o presidente Lula havia indicado Dilma Rousseff como candidata. Já se vai mais de um ano do sorriso, que continuou alguns meses, quando as primeiras pesquisas eleitorais davam à então chefe da Casa Civil míseros três pontos, contra mais de quarenta para o governador de São Paulo.

De lá para cá as coisas mudaram. Por que mudaram? Afinal, Serra é o mesmo. Dilma também, apesar de, em campanha, multiplicar e distribuir os sorrisos que jamais concedeu desde que ingressou na administração federal.

Tem nome e endereço a causa dessa inversão monumental que mostra Dilma com 55% das preferências populares e Serra com menos de 25%. Chama-se Lula. Adianta muito pouco celebrar ou lamentar a realidade. É isso mesmo, para o bem ou para o mal. Ele conseguiu o milagre de atender as massas e as elites.  Com isso anestesiou a classe média, fenômeno obviamente sazonal, incapaz de prolongar-se por mais de oito anos.

Vale projetar o futuro, começando pelo primeiro dia de janeiro do ano que vem, quando o Lula transmitirá a faixa presidencial para a sucessora. Disporá a nova presidente da República condições de repetir o sucesso do antecessor? Terá dado seu último sorriso no dia da posse?

As massas vão esperar mais do que receberam, começando pela atualização do bolsa-família e a criação de mais empregos. As elites imaginarão continuar cercadas de favores e benesses.

Mas a classe média? Nela vai repousar a sorte do novo governo. Terá Dilma Rousseff sensibilidade e condições para perceber a necessidade de governar para o cidadão comum, aquele que paga impostos, teve seu salário congelado e carece de serviços públicos essenciais? É bom tomar cuidado.

Antes e depois da hora

Diz o refrão popular que antes da hora não é hora. Nem depois. Seria bom Dilma Rousseff parar de falar na “constituinte exclusiva” que defende para a realização da reforma política e começar a pensar em efetivá-la no primeiro ano de seu governo através dos mecanismos ortodoxos de sempre.  Traduzindo: através do Congresso. Isso significa dar ao seu vice-presidente, Michel Temer, uma função adicional, além de substituí-la em viagens eventuais ao estrangeiro. Ninguém estará  melhor preparado para levar deputados e senadores a um possível denominador comum capaz de conciliar o financiamento público das campanhas com o voto distrital misto, a redução do número de partidos, o voto em listas partidárias  e outras mudanças. Enveredar pelo caminho tortuoso de uma “constituinte exclusiva” será inaugurar a primeira lambança da nova administração.

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