Dilma e Serra, o voto e o povo

Pedro do Coutto

Na edição de domingo, dando sequência à matéria de sábado, a Folha de São Paulo, reportagem também de Fernando Rodrigues, publicou o detalhamento da pesquisa do Datafolha que constatou empate na escala de 37% entre Dilma Roussef e José Serra em intenções de voto, hoje, na corrida  pela vitória nas urnas de outubro. A estrada a percorrer ainda é longa, mas os números do levantamento revelam inegavelmente uma situação preocupante para a campanha do ex-governador de São Paulo, candidato da oposição ao governo Lula.

Como sustento sempre, os números em si não dizem tudo. É nécessairo interpretá-los e dar personalidade a eles. A pesquisa da empresa da FSP acentua tendências bastante nítidas. Uma delas, tudo bem, a esperada ascensão de Roussef impulsionada pela força eleitoral do presidente da República. Outra, esta bastante crítica para a coligação PSDB-DEM-PPS, o declínio de Serra, São dois movimentos distintos e fundamentais: enquanto Dilma decola, Serra aterrissa. Vejam só os leitores, por região, de acordo com o Datafolha, comparando-se as pesquisas de abril e maio.

No Sudeste, que reúne Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, num espaço de 45 dias, Dilma avançou de 26 para 33 pontos, Serra recuou de 45 para 40%. Esta região abrange 44% do eleitorado do país. No Sul, a queda de Serra foi de 10 pontos: desceu de 48 para 38 pontos. Dilma subiu de 26 para 35 degraus. No Nordeste, Serra ficou em 33 pontos, mas Dilma cresceu de 37 para 44%. No Norte e Centro Oeste, caiu de 44 para 36; Dilma aumentou de 31 para 40 pontos.

No meu livro “O VOTO E O POVO”, Civilização Brasileira, 1966, com base em pesquisas do Ibope e nos resultados das eleições de 65, analisei as manifestações do eleitorado por classes sócio econômicas. Verifiquei que os grupos de menor renda, hoje pesando 51% no total de votantes, são, por razões naturais, os que custam mais a decidir.

A pesquisa de agora do Datafolha aponta nesta categoria, de um levantamento para outro, abril e maio, um avanço de 8 pontos de Roussef e uma queda de 5 patamares por parte de Serra. Dilma passou de 29 para 37. José Serra regrediu de 42 para também 37 pontos. Por coincidência, estas frações são iguais ao resultado geral.

Os que ganham de 1 a 2 salários  mínimos, a maioria, vejam só o panorama dos salários brasileiros, são os que mais seguem o comando de Lula e são também os que menos sabem que Dilma é a candidata do presidente da República. Porém estão começando a tomar conhecimento, como a pesquisa publicada sábado revela. Assim, na medida em que vão ficar sabendo, a tendência , a meu ver, é Dilma Roussef ampliar a vantagem. Entre os que recebem por mês de 5 a 10 pisos ela lidera por 40 a 37. Entre os que ganham de 5 a 10 salários mínimos, ela perde de 34 a 37. E junto aos que têm salários superiores a 5 mil e 600 reais, Serra tem 40, Dilma 37%.

Traçando-se um panorama geral com base nas tendências demonstradas, se Serra não conseguir revertê-las, Dilma vencerá as eleições, desde que mantido o ritmo de hoje. O desafio para Serra é muito grande, recuperar o tempo perdido, título de famoso romance de Marcel Proust. Enquanto isso, Dilma tem que manter a velocidade média de sua progressão. Esta é a síntese do desfecho de outubro.

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