Dilma escorregou

Carlos Chagas

A presidente Dilma deve dispor de alguma motivação íntima que a levou a escorregar, na viagem a Cuba. É claro que não tinha nada que criticar, e não criticou, o governo cubano por conta do regime lá adotado, muito menos cobrar de Fidel e de Raul a abertura das prisões onde se encontram presos políticos. A prática internacional manda os visitantes calarem a respeito da economia interna dos países visitados. Só a facção dos conservadores mais empedernidos exigiu da presidente palavras agressivas quando de sua passagem por Havana.

O que Dilma não deveria ter falado ficou no reverso da medalha. Para explicar porque não condenaria o regime dos irmãos Castro, ela estendeu-se em considerações sobre os direitos humanos e citou os Estados Unidos como um país que desrespeita as prerrogativas naturais do ser humano. Exemplificou falando da Prisão Militar de Guantánamo. Não precisava agredir um para defender o outro.

A pergunta que se faz é porque a chefe do governo brasileiro expediu, fora de hora, essa opinião desnecessária, apesar de verdadeira, sobre o desrespeito aos direitos humanos nos Estados Unidos. Quando viajar para Washington, provavelmente este ano, é claro que não irá referir-se a Guantánamo. Assim como não terá motivos para criticar Cuba.

Por que então, em Cuba, verberou os Estados Unidos? Aqui surgem as versões. Terá Dilma recebido dos americanos veladas pressões para mostrar-se favorável à política por eles aplicada há mais de 50 anos? Pouco provável, porque eles não são burros. Terá reagido à parte reacionária de nossa imprensa, que às vésperas da viagem desta semana abriu espaço para exigir dela impertinentes tomadas de posição anti-Cuba? Seria dar demasiada importância a esses dinossauros em extinção.

Lembrou-se dos tempos de estudante panfletária e militante da luta armada? Também não dá para aceitar. Melhor ficar a experiência para novos périplos da presidente da República. Em qualquer país que venha a desembarcar, será preferível manter a boca fechada quanto a questões internas e externas. A solução será celebrar a amizade entre os povos e a fé nos destinos da Humanidade…

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NÚMEROS RIDÍCULOS

Recrudescem as pressões para a compra, pelo Brasil, de 36 caças Rafale, franceses, agora que a França parece prestes a vender 98 dessas aeronaves à Índia. Deve ser coisa de lobistas interessados em faturar gordas comissões, mas não deixa de ser ridículo para nós. Melhor seria comprarmos logo, em silêncio, os aviões que nossos recursos permitirem, tanto faz se nos Estados Unidos, na Suécia ou na França. Pelo menos não forneceríamos ao resto do mundo, em especial a nossos vizinhos, espetáculo tão deprimente de penúria explícita. Porque 36 caças de penúltima geração equivalem a migalhas quando comparados com números que nos deprimem.

A Venezuela, o Peru e o Chile possuem forças aéreas melhor aparelhadas do que a nossa. Para não falar que cada porta-aviões americanos – eles tem 19 – transportam cada um 100 aparelhos de última geração. Dirão alguns ingênuos que um país sem hospitais e postos de saúde em número suficiente para atender necessidades mínimas dispõe de outras prioridades além de modernizar suas forças armadas. Ledo engano. No dia em que precisarmos delas, não adiantará lamentar o tempo perdido…

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