Dilma ficando contra o Irã, significa mudança na política externa? Ou um trabalho para descobrirem se isso afeta a política interna, ou melhor, as relações entre ela e Lula? Estão mais ligados do que nunca ou do que sempre?

Helio Fernandes

Coisas estranhas, surpreendentes e até contraditórias, acontecem e até se repetem. A oposição de dissolve, o governo se fortalece com o adesismo. E parece tão poderosa, que se aproveita desse adesismo, circunstancial e ocasional, manipula e mobiliza a política externa, mesmo sabendo que a mudança inesperada pode criar complicações internas.

Não existe dúvida, mas isso, no momento, não significa muito: Dona Dilma chega aos três meses de governo com saldo positivo, embora na superfície, nada foi feito em profundidade. Podem dizer que “ela está plantando, a colheita será farta e abundante”. Será?

Até mesmo no visual é marcante a transformação de Dona Dilma. Sua aparência física, que obviamente reflete e garante melhoria no quesito realização, é visível. E sem abrir mão da identificação de “durona”, aparece como conciliadora, convergente e não divergente, como todos identificavam na análise de sua personalidade. Mas isso será suficiente para realizar pelo menos uma parte do que se espera e do que o país precisa.

Mas Dona Dilma deve ficar atenta ao adesismo frenético que domina a política brasileira. A oposição diminui cada vez mais, a entrega desvairada e a submissão e subserviência aos que estão no Poder não se restringe à base, quer dizer, PMDB e PT.

Agora se fundam partidos com o objetivo declarado de APOIAR o governo. E ameaçando e enfraquecendo partidos ditos oposicionistas, como PSDB e DEM. Esses dois partidos não compõem o que se constitui verdadeiramente de oposição, mas pelo menos reivindicavam nominalmente a condição.

Agora, um personagem insignificante como o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, funda um partido, não esconde que é para apoiar o governo Dilma (quem garante que Kassab, com um partido criado assim, acrescente alguma coisa?) e para enfraquecer o PSDB e o DEM.

Sem imaginação ou criatividade, Kassab chama esse partido de PSD, que foi o maior e mais importante do Brasil, do fim da ditadura do Estado Novo até o início da ditadura militar. Só que esse PSD foi fundado por Getulio Vargas, o que acrescentará, refundado por esse adesista inato e declarado?

Kassab começou como vice de Serra em sua passagem pela Prefeitura de São Paulo. Na trajetória de mistificação que preenche a carreira de Serra de início até agora, garantiu, “serei prefeito até o fim do mandato”. Ficou apenas 15 meses dos 48 que compunham o mandato. Renunciou, como sempre, Kassab assumiu.

Enganando o cidadão-contribuinte-eleitor, Serra se elegeu governador, também não terminou o mandato, saiu antes do fim para a segunda derrota presidencial. Agora, esse PSD sem nenhuma semelhança com o outro, tem como objetivo declarado, “fortalecer Aécio”, possível, suposto e pretenso candidato a presidente em 2014.

Vejam as contradições, a falta de convicção, o domínio da antiética, que preside tudo que Kassab propõe com esse “novo” partido. Diz que apoiará a presidente Dilma, tenta revigorar o ex-governador de Minas, o mais possível candidato oposicionista (?) em 2014. E ainda se joga contra José Serra, a quem deve tudo. E que pretende (pelo menos pretende) acrescentar ao currículo a terceira tentativa de chegar ao Planalto-Alvorada.

“Liderada” no Senado por Romero Jucá e na Câmara por Henrique Eduardo Alves, notórios e contaminados, Dona Dilma não dá uma palavra de reprovação às afirmações do também notório Kassab, “de que o PSD é para apoiá-la”. Como protestar no mesmo momento em que se refastelando, que palavra, nesse grupo de notórios, nomeia Geddel Vieira Lima vice-presidente da importante Caixa Econômica, envolvida em escândalos e mais escândalos. Sem falar que serviu de trampolim para o agora poderoso Chefe da Casa Civil, depois de ter sido demitido abertamente pela presidente Lula?

É muita coisa, são tantas as omissões e as divergências internas, que provocam repercussão até na política externa. E essa modificação determinada, comandada e liderada pela própria presidente, pode ser a de mais consequência. Se não agora, pelo menos dentro de algum tempo.

Muitos desses fatos, são, digamos, jogos da própria política, desde que praticados e examinados, sem a predominância da falta de ética, com o domínio total da corrupção. Como acontece hoje, inteiramente. Tudo é corrupção, até na formação de um partido novo, ficaria mais exato se disséssemos, um novo partido.

***

PS – Na questão da mudança de orientação em relação ao Irã, o que provoca perturbação, surpresa e até perplexidade, é que ninguém esperava uma decisão como essa, da parte de Dona Dilma.

PS2 – E por isso é impossível esquecer ou esconder o relacionamento administrativo, consequentemente político, e no fim, eleitoral, de Dilma-Lula. Pode ser um fato isolado e sem maior atrito. E vai depender do tempo. Também não é verdade, como foi publicado, que “Obama pediu a Dilma que votasse contra o Irã”. Presidentes não conversam nesse tom e sobre assuntos como esse.

PS3 – Presidentes conversam como Roosevelt e Vargas conversaram em 1941. Depois do ataque de Pearl Harbour, o presidente dos EUA telefonou para o do Brasil, pedindo um encontro em Natal. Já havia mandado um emissário especial dizer a Vargas que precisava de uma militar no Norte/Nordeste. Marcaram o encontro para 10 dias a seguir.

PS4 – Na véspera do encontro morreu o filho mais novo de Vargas. Este passou a noite no velório, às 8 da manhã o corpo de Getulinho foi levado para São Borja, Vargas viajava para Natal. Encontrou com Roosevelt e seus estrategistas.

PS5 – Examinaram Fernando de Noronha, muitas restrições, apesar de pontos favoráveis. Estudaram a Ilha de Trindade, vetada imediatamente. Motivo: ficava em pleno Atlântico, desguarnecida, poderia ser bombardeada a qualquer momento. Natal teve concordância total, fecharam o acordo, os EUA construíram ali a base importantíssima de que precisavam.

PS6 – Aí Roosevelt e Vargas tiveram a conversa que dois presidentes podem ter. Roosevelt: “Presidente, a contribuição do Brasil merece uma retribuição que meu país dará imediatamente. O que o Brasil mais precisa no momento?”.

PS7 – Vargas: “Precisamos com urgência de uma siderúrgica, mas agora não temos recursos”. Roosevelt; “Os EUA, orgulhosos, montarão uma siderúrgica. Mandarei meus engenheiros construírem uma siderúrgica onde o senhor determinar”.

PS8 – Surgia Volta Redonda. Assim que chegou a Washington, Roosevelt mandou os melhores técnicos para fazerem a siderúrgica, sem ônus para o Brasil.

PS9 – Tenho muita coisa para falar ou escrever, principalmente sobre a decisão extravagante e estapafúrdia, que palavras, do Supremo sobre a ficha limpa. Escândalo e vergonha, repercussão terrivelmente negativa para o tribunal.

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