Dilma há de ter surpreendido o próprio Lula

Pedro do Coutto

Ao afirmar no programa Bom Dia Brasil, da Rede Globo, não ter sido a autora da indicação de Erenice Guerra para substituí-la na chefia da Casa Civil, a candidata Dilma Roussef – reportagem de Mateus Magenta, Folha de São Paulo de 22 de setembro – há de ter causado surpresa ao próprio presidente Lula, além de haver criado um suspense estilo Hitchcock no sistema partidário que a apóia, especialmente na aliança PT-PMDB. Afinal de contas, é do conhecimento público que a indicação foi sua e que Erenice Guerra era pessoa de absoluta confiança pessoal.Foi sua assessora quando ministra de Minas e Energia, sua secretária executiva no Palácio do Planalto e finalmente sua sucessora no cargo de ministra chefe do gabinete civil. Por que negar tal fato?

A demissão de Erenice Guerra e de seus familiares dos cargos de confiança que ocupavam é outro assunto. Basicamente nada tem a ver com a autoria da indicação. O fato é que Erenice – claro – perdeu a confiança do presidente da República. Dilma Rousseff, provável sucessora de Luis Inácio da Silva, não tinha necessidade de negar ter levado ao presidente o nome de quem provocou um maremoto administrativo no governo.Errou ao indicar, errou duplamente em negar.

Lula não deve ter ficado nada satisfeito com o episódio, porém não tem linha de recuo, vai em frente com Dilma até à vitória nas urnas. Esta vitória, de acordo com as pesquisas do Ibope, Datafolha, Vox Populi e Sensus, parece líquida e certa. Faltam apenas dez dias para a confirmação pelas urnas. A euforia do PT e do PMDB já está nas ruas. Mas eu disse que a negativa, além de ter desagradado a Lula, criou perplexidade nos partidos que sustentam sua campanha.

Por quê? Simplesmente porque a dualidade revelada pode ser um sinal das dificuldades políticas que a aliança PT-PMDB deverá enfrentar a partir de janeiro. Se negou hoje uma evidência tão clara como a autoria da nomeação daquela que a substituiu, há chance de alterar amanhã o cumprimento de compromissos que sempre existem ao longo das campanhas eleitorais. Sintoma de que nuvens cinzentas são capazes de descer em torno do Planalto. Dilma, na realidade, não assumiu o equívoco da escolha. Torna possível a hipótese de esquecer o denominador comum das legendas que a conduziram à vitória nas eleições do dia 3.

SE HOUVER SEGUNDO TURNO,
SERÁ MAIS POR CAUSA DE MARINA

Se houver segundo turno para as eleições presidenciais de outubro, este será mais em função do avanço de Marina Silva que de José Serra. Não quero com isso dizer que a adversária de Dilma no desfecho final será a candidata do PV, mas sustento que na reta de chegada em que nos encontramos, ela capitalizará mais a descida da candidata de Lula que o ex-governador paulista. A pesquisa do Datafolha publicada na edição da FSP de 23 acentua essa tendência. Rousseff recuou 2 pontos. Serra avançou 1. Marina evoluiu 2 andares.

Para quem conhece pouco em matéria de interpretação de números, a senadora pelo Acre livrou somente um degrau em relação a José Serra. Mas a tradução não pode ser apenas esta. Na verdade, a diferença de 2 para 1 é de cem por cento. Outras rodadas de pesquisa com essa, poderão demonstrar  um recuo mais acentuado de Dilma com uma capitalização maior de Marina. Poderá haver segundo turno. Entretanto mesmo que a progressão de Marina seja mais forte que a de Serra, o ex-ministro da Saude deverá manter o segundo posto.

A diferença entre o segundo e a terceira é grande. Pode porém, se encurtar. Depende dos fatos e das campanhas nos dias derradeiros. Por isso, creio que minha mulher, Elena, tem razão ao dizer que o Datafolha deveria ter incluído Marina no cotejo de um possível segundo turno. A simulação restringiu-se a Dilma e Serra. Deveria estender-se a Dilma e Marina. Daria margem a um exercício intelectual mais interessante. E verdadeiro. Hipóteses, às vezes podem acontecer. Não custa nada projetar, em vez de uma, duas alternativas para um eventual domingo no final de outubro.

Mas eu falava de reta de chegada. Pois é. Nesta fase, última semana, praticamente, é que as eleições se decidem. Assim foi na redemocratização de 45, quando Vargas formalizou seu apoio a Dutra, que em seguida, rompeu com ele e preferiu substituir o PTB pela UDN em seu governo. Assim foi em 55 , quando Juscelino se elegeu presidente, derrotando Juarez Távora, Ademar de Barros e Plínio Salgado. Em 60, para o governo da Guanabara, Carlos Lacerda havia disparado. Mas Sergio Magalhães voava no arremate. Resultado: diferença de apenas 2,3% em favor de Lacerda. Em 65, foi o contrário. Flexa Ribeiro, candidato de Lacerda, estava na frente com 41 a 26 no IBOPE. A dez dias das urnas, empataram: 39 a 39. Na última semana, Negrão de Lima era aclamado nas ruas. Chegou às urnas com 51 a 38 pontos. Maioria absoluta. Em 82, no Rio de Janeiro, Brizola tomou a ponta na última semana, depois de debate realizado pela Rede Globo. A tentativa de fraude – escândalo Proconsult – não se concretizou.

Na campanha presidencial de 89, Fernando Collor saiu na frente. Mas Lula começou a subir velozmente nos dez dias finais. Igualou sua linha e iria ultrapassá-lo. Veio o golpe baixo protagonizado por Miriam Cordeiro. Chocou e paralisou Luis Inácio. Venceu firme o primeiro debate promovido pela Globo. Descontrolado, nervoso, perdeu o segundo. Não partiu para cima de Collor, como deveria ter feito, condenando o gesto imundo. Deu margem desta forma a que o então diretor de Jornalismo da Globo, Alberico Sousa Cruz, fizesse montagem do “melhores momentos” e influísse no runo do pleito. Estes exemplos são suficientes.

Agora ingressamos em mais uma fase derradeira. As posições de Marina estão mais claras, mais firmes, melhores. Serra vacila. A senadora pelo Acre não. Vai em frente. Vamos ver se a hipótese do segundo turno se confirma.

MEU AMIGO ANCELMO GOIS
E UM PEQUENO EQUÍVOCO

Em sua coluna de 22 de setembro, sempre brilhante, a mais lida no Brasil, o jornalista Ancelmo Gois, O Globo, cometeu um pequeno equívoco ao comparar os êxitos eleitorais do general Dutra, em 1945, e o provável da ex-ministra Dilma Roussef, consolidada em 2010 nos levantamentos de intenção de votos. Acontece. Não é por isso que vai perder pontos, é apenas um detalhe. Entretanto, historicamente importante. Na redemocratização de 45, Vargas, através de um manifesto apoiou a candidatura Dutra. “Trabalhadores – disse ele – o general Dutra merece os vossos votos. Estamos em sua campanha, apoiamos sua candidatura, apoiaremos o seu governo, sempre que o presidente cumprir as promessas do candidato”.

Vejam osleitores a condicionante varguista, própria do estilo de Getúlio, o de nunca se comprometer totalmente. Até aí tudo bem. Mas meu amigo Ancelmo acentua que Dutra, no governo, estava guardando lugar para o retorno de Vargas. Não é fato. Dutra rompeu com Vargas e o PTB. Trocou a aliança PSD-PTB pela aliança PSD-UDN. Nomeou Clemente Mariani para a Educação, Maurício Joppert para a Viação e Obras Públicas, hoje Ministério dos Transportes.

Fica aqui o registro e o abraço de sempre a Ancelmo.

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