Dilma pode até se calar, mas os fatos continuam a se impor

Pedro do Coutto

Durante almoço terça-feira com Dilma Rousseff no Palácio Alvorada, de acordo com reportagem e Simone Iglesias e Fernando Krakovics, O Globo de 15 de julho, o ex-presidente Lula aconselhou sua sucessora a não falar na Operação Lava Jato em seus pronunciamentos políticos, mas sim responder com realizações às acusações de corrupção. Luís Inácio da Silva pode estar certo em tese, só na teoria, a exemplo de pessoas que ocupam cargos importantes mas nada entendem de jornalismo.

O jornalismo vive e pulsa à base de fatos concretos que causam impacto e reproduzem as atmosferas do país, destacando-se com reflexo na opinião da sociedade. No caso, a sociedade, portanto a população brasileira. Pois se o governo não tiver fatos positivos a transmitir, como pode fazer para que o debate nacional possa se deslocar do foco da corrupção que, nos últimos anos, atingiu índices colossais.

As delações premiadas sucedem-se de forma ininterrupta e, claro, os delatores não estão mentindo. Afinal de contas, por quê iriam mentir? Para confirmar suas revelações, é suficiente confrontar o conteúdo das denúncias, concretizadas sob forma legal de confissões, com a evolução do patrimônio dos acusados e, principalmente, a maneira com que conquistaram o enriquecimento.

CORRUPÇÃO COMPROVADA

Se um ex-diretor da Petrobrás compromete-se a devolver 26 milhões de dólares que recebeu por sobrepreços em contratos, e outro, mesmo depois de ser alvo de acusação pela Polícia Federal e pela Procuradoria Geral da República transfere 31 milhões de euros de um banco suíço para uma agência em Mônaco, a corrupção encontra-se tacitamente comprovada.

Não há como negar tal evidência. Inclusive não se tornaram peças raras tais casos. Pelo contrário. Generalizaram-se. Como escapar dessa sequência? Não são boatos, não são meras versões. Todas as confissões, no fundo, transformam-se em acusações de firme conteúdo. Como o governo poderia respondê-las com o silêncio, visando a deslocar o problema para a esfera de um escapismo primário. Não é possível.

ENFRENTAR COM REALISMO

Para Dilma Rousseff, só existe um caminho para suportar a crise: enfrentá-la com realismo, afastando os falsos aliados, os companheiros que a traíram e também desfiguraram o PT da condição de uma legenda reformista para um partido capaz de promover, ao contrário, a concentração de riqueza para suas figuras de maior relevo. Não adianta querer fugir dos fatos, como dizia Tancredo Neves. Eles sempre se impõem nos cenários políticos e sensibilizam a opinião pública.

É o que está acontecendo como atual governo. O almoço no Alvorada, terça-feira, nada acrescentou à presidente da república. Pelo contrário. A reportagem de O Globo deixou, na realidade, o governo em situação ainda pior do que se encontrava. Como seria viável não falar na Operação Lava-jato se a Operação é o principal tema a sensibilizar até emocionar, ao limite da revolta psicológica, a opinião pública?

FALTA UM TRADUTOR

A operação Lava Jato revela, sobretudo, a repugnância coletiva pela onda de corrupção que, a cada dia, torna-se mais evidente. São roubos em cima de roubos, extorsões, fixação de sobrepreços nos contratos da Petrobrás, propinas em série e volume impressionante. Tentar escapar da realidade não convence a pessoa alguma. Fica então no ar a pergunta: o que, concretamente, Lula quis expressar quando sugeriu a Dilma Rousseff a não se referir à Lava-Jato? A frase necessita de um tradutor capaz de interpretá-la.

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