Dilma, que mandava e desmandava no governo, não sabia o que Erenice Guerra aprontava bem ao seu lado. Da mesma forma, Lula não sabia o que Dirceu fazia e desfazia em seu nome. Você acredita nisso?

Carlos Newton

O mau comportamento da ex-chefe da Casa Civil do Governo Lula, Erenice Guerra, braço-direito de Dilma Rousseff e sua substituta, mostrou como a liberdade de imprensa bem exercitada oxigena o país e pune os que fazem da função pública um instrumento de enriquecimento pessoal.

Não importa que a sindicância aberta pelo governo Lula para apurar o desvio de conduta de Erenice não chegue a lugar algum antes de 31 de outubro; que a Procuradoria-Geral da República, que a Polícia Federal e que a Controladoria-Geral da República também promovam investigações demoradas e, quem sabe, até inconsequentes. Graças à fiscalização da imprensa livre e não à astúcia e à probidade do governo Lula, Erenice Guerra, sua turma e filhos colaboradores já foram punidos pela sociedade.

Além de perderem as mordomias (mansão, amplos gabinetes, verbas de representação, status de ministro e de eminência parda do governo Lula e da candidata Dilma), Erenice e seu grupo agora não podem nem ir ao açougue, ao supermercado, ao cinema e a restaurantes, sem que haja um dedo indicador de rejeição e de desprezo. É a implacável e insuportável justiça extra-autos, que independe da polícia e do Poder Judiciário. É espontânea e eficaz.

Nesse quadro, não deixa de ser uma ofensa à Dilma, que no governo Lula tudo viu, tudo examinou e tudo aprovou, admitir-se que a esperta Erenice Guerra, seu braço-direito e “faz-de-tudo”, conseguiu à sua revelia passar-lhe a perna a ponto de até comprometer seu projeto de alcançar a Presidência da República.

Essa lamentável ocorrência nos traz à lembrança sábias palavras do jurista Hélio Bicudo, fundador do PT. Em 2006, entrevistado sobre a responsabilidade ou não do presidente Lula nos episódios do mensalão, em que o então procurador-geral da República denunciou Dirceu como chefe da quadrilha, assim se manifestou o ex-petista e ex-deputado federal:

HELIO BICUDO – “Pelo que eu conheci  o Lula nesse trajeto de 25 anos, o Lula nunca delegou o poder a ninguém, ele sempre exerceu o poder dentro do partido. Era tudo aquilo que se fez e que se fará no Brasil, do ponto de vista administrativo, do ponto de vista político, isto vem do próprio Lula. Eu não acredito que o José Dirceu tivesse a autonomia para atuar como ele atuou. O José Dirceu atuou como atuou, porque ele tinha, evidentemente, o conhecimento daquilo que ele estava fazendo por parte do Lula, não só conhecimento, como participação do Lula naquilo que ele estava fazendo. Eu diria mais, eu acho que essa punição do José Dirceu foi algo estimulado  para que o José Dirceu aparecesse como o grande delinquente e o Lula ficasse como vítima desse delinquente, o homem traído, e o homem que não se poderia responsabilizar por toda essa corrupção que hoje ainda ronda o Brasil”….Na verdade, a mim me parece que está claro esse conluio entre o Lula e o José Dirceu, para que o José Dirceu assumisse a responsabilidade, fosse ele punido e os outros não, que também participaram, para que o Lula parecesse como uma pessoa virginal, que ignora tudo e que é traído pelos amigos”.

PERGUNTA – Então, a estratégia deu certo?

HÉLIO BICUDO: “Eu acho que pegou e eleitoralmente é importante que se frise isso. Alguns anos atrás em conversa com o José Dirceu, que eu tive muito boas relações com o José Dirceu e ele me dizia que o Lula seria reeleito. Como? Pela Bolsa Família. Essa foi a grande estratégia para a reeleição do Lula, porque beneficiando bem ou mal, 12 milhões de famílias, você tem um patamar mínimo de 30 milhões de votos para a reeleição. Então, isto tudo foi arquitetado não para que o Lula administrasse o país, mas para que o Lula recebesse as benesses dessa administração e fosse reeleito mais 4 anos, para tentar levar o PT ainda nos próximos mandatos à presidência da república e ao poder”.
“Eu acho que dar comida ao povo é muito bom e é necessário, mas a comida deve ser dada através de uma modificação de estrutura do próprio país, no sentido de que as pessoas possam se desenvolver através de seu desenvolvimento, o trabalho necessário para garantir a sua alimentação, a dos seus, a educação e a saúde dos seus. É isso que tem que ser, porque do jeito  que foi colocado, o que é isso? Corrupção eleitoral”.

PERGUNTA – Uma vez na Presidência,  ele seria capaz de empurrar debaixo do tapete toda essa lambança que está sendo denunciada?

HÉLIO BICUDO: “Olha, ele já fez isso durante o tempo em que ele foi presidente efetivo do PT e presidente de honra. Ele sempre jogou essas questões que chegavam perto dele debaixo do tapete”.

PERGUNTA – Mas, ele sempre disse que não sabia de nada  e se alguma coisa aconteceu é porque foi traído!

HÉLIO BICUDO: Pois é, agora como presidente num regime presidencial pode ser traído? Ele é a cabeça da administração pública, como pode alguém fazer alguma coisa na ante-sala do Presidente da República e ele ignorar o que está se passando na ante-sala?

Agora, retornando a outubro de 2010, como pode alguém praticar intenso tráfico de influência, negociação barata, corrupção, na ante-sala da ministra Dilma Rousseff e ela, simplesmente, dizer que nada soube e que vai mandar investigar tudo? Dilma mandava em tudo, coordenava tudo, como diz o presidente Lula, e não viu o elefante na sala ao lado e nem sentiu o mau-cheiro exalado?

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