Dilma revive no Planalto a Síndrome de Falstaff

Orson Welles viu o personagem Falstaff no cinema

Luiz Gutemberg

A guinada econômica de Dilma – da heterodoxia dita “progressista” do 1º mandato, exaltada na campanha eleitoral,  à ortodoxia “liberal” do futuro ministro Joaquim Levy com que inaugurará o 2º mandato – assemelha-se a uma das cenas mais impressionantes do teatro de Shakespeare: o novo rei Henrique V (na Inglaterra do século XV) repudiou seu  melhor amigo da juventude, o velho Falstaff, que havia comparecido à festa da coroação imaginando também haver chegado ao poder.

Vive-se em Brasília o impacto da parábola (ou síndrome, como queiram)  shakespeariana: os radicais esquerdistas sentindo-se traídos ideologicamente e os oposicionistas de Aécio Neves esperneando, despeitados, reclamam que Dilma, depois de eleita, está adotando os padrões que eles defendiam na campanha eleitoral (prometendo Armínio Fraga, de quem Joaquim Levy  era pupilo) e que o marketing petista atacou impiedosamente.

Os petistas ideológicos (especialmente os economistas) equivalem ao Falstaff da peça de William Shakespeare (“Henrique IV, 2ª parte), disponível as livrarias em excelente tradução de Bárbara Heliodora. Amigos do peito, até que o rei chegou ao poder, e cuja ascensão celebraram.

MUITA SEMELHANÇA

Para identificar a semelhança das situações basta substituir a motivação do repúdio nos dois casos: na peça de teatro elisabetano, razões morais (pois Falstaff era um estroína e o rei Henrique V , ainda príncipe Hal, farreava com ele nas tabernas) enquanto que a guinada de Dilma é uma opção no terreno da “teoria econômica”, para muitos, ideológica.

Mas a semelhança é impressionante, se comparadas as falas de Falstaff (jactando-se da sua amizade com o príncipe que chegava ao trono, na peça elisabetana) e o manifesto liderado pelo trio Belluzo, Boff, Stedile, reclamando, como petistas, coerência à candidata que apoiaram na campanha da reeleição. No fundo, denunciando que a Dilma reeleita traia a Dilma em que votaram.

Na cena de Shakespeare, Falstaff saúda o novo rei (para ele Hal, apelido com o tratava quando eram parceiros, farreando nas tabernas londrinas:

Deus salve rei Hal, meu Hal real! Que Deus o salve meu querido menino. 

O novo rei Henique V replica:

Não o conheço, velho. Vá rezar (…) Não suponha que sou o que já fui.  Pois eu repudio o meu eu de outros tempos.  E assim farei aos que me acompanhavam.  Quando ouvir que estou sendo como fui, chegue perto e verá o que já foi, tutor e apoiador de minhas pandegas. Vou bani-lo como já fiz aos outros,  para dez milhas distantes de mim.

HENRIQUE IV

A obra (Henrique IV, 2ª parte) é um dos “dramas históricos” , ao lado das “tragédias” e “fantasias” com que habitualmente são agrupadas as peças de Shakespeare, mas a referência que interessa é o personagem Falstaff, só comparável a Hamlet entre as grandes criações de Shakespeare.  Assim, pelo menos, pensava a rainha Elisabete I, que pediu ao dramaturgo outra peça em que Falstaff aparecesse, sendo atendida, pois o personagem retorna como  protagonista na comédia “As alegres comadres de Windsor.”

No final do século XIX, Falstaff virou opera de Verdi, última obra do autor da Traviata, e em 1965 foi levado ao cinema por Orson Welles, que viveu o papel título, embora o ator Ralph Richardson tenha entrado para a história do teatro como o seu mais notável intérprete.

SÓ O TEMPO DIRÁ

A ciência política (para a qual Shakespeare equivale aos trágicos gregos para a psicanálise) identifica no episódio de Falsfaff os elementos do fenômeno político das mutações que se verificam nos processos de ascensão ao poder: personagens, métodos e argumentos usados para alcançá-lo são abandonados no seu exercício, seja por realismo ou virtude, seja por perfídia ou traição. Como se repete muito: quem serve para eleger, nem sempre serve para governar. Caso contrário, os marqueteiros não sumiriam depois das eleições…

Shakespeare não era um moralista, não produziu histórias exemplares, mas explorou a contingência humana com grande generosidade e sem esconder a fatal crueldade da experiência histórica.

Significa que a constatação da profunda semelhança faCtual do paradoxo representado pela guinada econômica de Dilma no seu 2º mandato (pelo menos, se consideradas as escolhas do ministro Joaquim Levy, e de outros titulares do novo ministério) não pode ser interpretada como uma falha moral mas como imposição  de sabedoria política, como demonstrou Shakespeare  no episódio que serve para apresentar a metamorfose do trefego príncipe Hal no  competente rei Henrique V, que reinou na Inglaterra em plena Guerra dos 100 anos (que na verdade durou 116 anos), encerrada 1453, 11 anos após a sua morte.

Dilma, portanto, desafiada por uma contingência, está utilizando uma ferramenta política clássica e que historicamente  tanto consagrou seus praticantes como comprometeu gravemente suas biografias. Isso, porém, só o tempo dirá. (artigo enviado por Mário Assis)

10 thoughts on “Dilma revive no Planalto a Síndrome de Falstaff

  1. No governo Dilma o problema são os “Falsafados” ( falsos e safados). No mesmo dia em que fez ‘retroagir’ a lei de responsabilidade fiscal para não ser punida pela gastança eleitoreira descarada, como a Copa por exemplo, liberaram R$ 30 bilhões em créditos para o BNDES, afinal as empresas amigas do Rei não podem passar apertos. Tudo se resume a um discursinho oportunista para ‘roubar em nome do povo”! Como disse Nietzche, não passam de comediantes da ‘ideologia’!

  2. Somente neste ano deram mais de R$ 30 bilhões de subsídios às montadoras. Tem gente que tem dívidas com a Anfavea, desde os tempos de sua entrada na vida sindical. O incrível é que as máfias continuam intocadas, basta ver que praticamente não existe navegação cabotagem no país! Um carro produzido em São Bernardo vai de caminhão até Manaus…. Um custo no mínimo 10 vezes maior.

  3. AJUSTE DE ROMBO E ENCONTRO COM A VERDADE

    Há certas “coincidências” que precisam ser bem observadas e uma delas é a divulgação desses R$ 3,5 bilhões em convênios para o estado de São Paulo, assinados pela presidente Dilma Rousseff com o governador Geraldo Alckmin que fotografou no Planalto segurando sorriso… http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-assina-convenios-de-324-bi-com-alckmin-diz-que-preciso-respeitar-as-urnas-14737376 Isto ocorreu algumas horas após o Congresso haver aprovado o chamado ajuste fiscal, proposto para sanear as contas públicas. Alckmin foi dos primeiros a reconhecer o resultado da eleição presidencial, enquanto outros continuam em palanque e alguns até montando golpismos.

    Não só a presidente e o governador paulista, mas os deputados e senadores todos sabem que o rombo das contas públicas não é de agora e seria inevitável fazer o que fizeram para saneá-lo, a responsabilidade ou falta dela é partilhada pelas cúpulas da República. Os dirigentes dos três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – têm culpa nisto, por ação ou omissão, porque há décadas vêm aumentando despesas sem preocupação maior com o fecho das contas. Dilma está deixando a condição de “poste do Lula” e parte para nova gestão pegando o país com aperto similar ao vivido pelos EUA, há pouco tempo, quando Barack Obama foi salvo pelo Congresso.

    “O momento aponta para a necessidade de uma presidência da Casa que não faça oposição ao governo, visando desestabilizá-lo e, nem no outro extremo, que utilize a Câmara como correia de transmissão do Poder Executivo”, defende o deputado André Figueiredo que deve disputar a Presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro contra o conservadorismo articulado em torno do peemedebista Eduardo Cunha. No texto abaixo o parlamentar cearense, que já foi líder da bancada pedetista e presidente do Pdt Nacional, dá ideia de quanto o Brasil pode ganhar com sua eventual candidatura e vitória. É por aí o caminho.

    POR CONGRESSO EM FOCO · Andre Figueiredo*

    Depois do exaltado clima das eleições presidenciais, o Congresso Nacional tem diante de si uma pauta extensa e complexa, antes do término da atual legislatura. Mesmo antes de seu encerramento, desde logo o balanço de suas atividades pode ser considerado bastante positivo. Para mencionar apenas duas matérias, a destinação dos royalties do petróleo do pré-sal para as áreas de educação e saúde e a aprovação do novo Plano Nacional de Educação são importantes legados da atual legislatura para a sociedade brasileira.No próximo mês de fevereiro, uma nova legislatura terá início, e não são pequenos os desafios que aguardam deputados e senadores reeleitos ou eleitos pela primeira vez. É forçoso reconhecer queo cenário econômico já não é tão favorável como nos últimos anos. O governo federal certamente necessitará dialogar com a Câmara dos Deputados e o Senado para adotar medidas indispensáveis à retomada do crescimento da economia, que vem a ser a única verdadeira garantia de melhoria das condições de vida dos brasileiros no longo prazo.

    Além das reivindicações dos mais diversos setores da sociedade, Câmara e Senado também deverão lidar com o desafio da reforma política, demanda reiterada a cada nova legislatura, mas que desta vez não parece comportar novas protelações. Se essa reforma é inevitável, isso não significa, porém, que deva ser feita de qualquer modo ou a qualquer preço. As regras vigentes resultam em diversas distorções — e o custo das campanhas eleitorais certamente não é a menor delas —, mas elas também propiciaram o maior período de estabilidade democrática da história brasileira. Não é o caso, portanto, de recomeçar do zero, e sim de aperfeiçoar a nossa democracia, o que é indispensável e inadiável.

    Especificamente quanto a Câmara dos Deputados, a que pertenço — e à qual tive a honra de ser reconduzido pelo povo do Estado do Ceará —, a renovação significativa de sua composição se soma a um cenário inédito de fragmentação partidária. Os atuais 22 partidos com representantes na Casa passarão a ser 28 a partir do ano que vem, cenário provocado pela redução das maiores bancadas e crescimento do número de representantes de partidos médios e pequenos. Some-se a isso o acirramento do antagonismo entre governo e oposição, por conta da eleição presidencial mais disputada de nossa jovem democracia.

    O cenário que se desenha exigirá do novo comando da Casa uma grande capacidade de negociação e articulação, de modo a dar conta dos múltiplos desafios na política e na economia. A relação com o Poder Executivo deverá ser pautada por um diálogo respeitoso e voltado para os interesses do País, e esse mesmo espírito se fará necessário nos entendimentos com a base aliada e a oposição, por maiores que sejam atualmente as tensões herdadas do processo eleitoral recém-concluído. Em um momento como esse, não é conveniente para o Parlamento que o processo de escolha de seu novo presidente seja refém de polarizações partidárias, nem se torne mecanismo de pressão ou barganha na formação do ministério do novo governo recém-eleito. É ruim para o governo, que pode se ver pressionado a ter critérios menos rígidos na escolha de seus quadros ministeriais e de outros órgãos de Estado. É péssimo para a oposição, que pode a qualquer momento ser atropelada em suas prerrogativas regimentais, quando o presidente estiver comprometido com acordos que extrapolem as funções do legislativo e avancem em uma seara de interesses da máquina administrativa do Poder Executivo.

    O momento aponta para a necessidade de uma presidência da Casa que não faça oposição ao governo, visando desestabilizá-lo e, nem no outro extremo, que utilize a Câmara como correia de transmissão do Poder Executivo, fazendo do Legislativo um mero cartório carimbador dos projetos do governo. Mas pior cenário, ainda, seria a Câmara dos Deputados estar à serviço do interesse hegemônico de partido ou grupo que busque aumentar de forma insaciável, nos próximos dois anos, seu espaço de poder dentro do governo federal. O próximo presidente da Câmara precisará estar acima de tudo isso, demonstrando que suas preferências e rivalidades políticas não são maiores de que seu amor ao Brasil.

    Em nosso passado recente, a Câmara dos Deputados tem dado contribuição decisiva para a construção de um país democrático, com economia estável e capaz de melhorar as condições de vida de seu povo. Tenham tido elas origem no Executivo ou no próprio Congresso Nacional, as medidas fundamentais para a consolidação dessas conquistas foram discutidas e aperfeiçoadas pelo trabalho de deputados e senadores. E nesse momento, em que o Brasil precisa de ajustes importantes, é fundamental que os rumos da futura legislatura estejam à altura dos desafios que temos diante de nós.

    *Andre Figueiredo é deputado federal pelo PDT-CE

    • Pior é que se dizem trabalhistas ! Esse trabalhismo saqueou os fundos de pensão. Há mais de 10 anos remunera o FGTS/PIS/PASEP com 65% da inflação, para fazer caixa e o BNDES/Caixa emprestar ao pobre Eike, de quem o Zé Dirceu foi ‘consultor”. Vetaram o fim do fator previdenciário e agora querem diminuir as pensões das viúvas sem filhos dependentes. Trabalhismo ou cinismo ? Estão atrasando os salários de vários trabalhadores terceirizados…..

  4. Quem não está pagando ninguém é a Dilma, a caloteira dos pampas deixou tudo falido. Amanhã ato contra a corrupção, inclusive pela responsabilização da Dilma por seu papel no Conselho da Petrobras e por não cumprir a meta fiscal . Deu tudo para os amigos, inclusive para ops petistas sócios da máfia russa no futebol. Basta ver o que foi a Copa !

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