Dilma Rousseff, agora uma personagem de Hitchcock

Pedro do Coutto

Na dramática entrevista a Maria Cristina Frias, Valdo Cruz e Natuza Nery, Folha de São Paulo, manchete principal da edição de terça-feira, a presidente Dilma Rousseff, referindo-se à hipótese de não terminar seu mandato, afirmou que não vai cair, frisando não haver base alguma para a queda. Não me atemorizam, acrescentou, focalizando aas forças contrárias, entre as quais incluiu indiretamente o ex-presidente Lula, na medida em que dele discordou, quando disse que ele e ela estavam no volume morto das águas represadas.

Em certo trecho da entrevista, destacou: “As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Eu não estou. Não tem nada para eu cair. Venha tentar.”

A quem se dirigiu recorrendo ao singular? Deixou um mistério no ar, uma vez que atribuiu um sentido vago à fonte que não identificou. Na verdade, seria melhor usar o plural, já que as fontes de insatisfação com seu governo são muitas e que reclamam simultaneamente. A respeito da proposta de impeachment que circula no universo político, ela excluiu o PMDB. “O PMDB é ótimo.”

RECESSÃO

Mas na sequência da entrevista, neste caso com a participação das repórteres Natália Cancian e Júlia Borba, sustentou que vai se empenhar a fundo para que a recessão econômica seja a menor possível neste ano. Logo, admitiu diretamente que a recessão existe, pois somente se pode diminuir os efeitos do que concretamente existe. Seria impossível reduzir os reflexos daquilo que não existe. Isso de um lado. De outro, ao anunciar tal esforço, concordou com as dificuldades que a envolvem. Há uma crise, grave, por sinal. Como poderá a presidente livrar-se da teia dos obstáculos que tem de enfrentar?

Depende de si mesma, pela capacidade de ir ao encontro das ruas, ao encontro das classes sociais, das ruas, das quais a presidente se afastou esquecendo-se da candidata. A razão de sua queda na opinião pública vem dessa distância, a qual foi conduzida por falsos aliados, entre eles os incompetentes que se espalham na esplanada de 38 ministérios. Vários redundantes e desnecessários.

Outro erro foi o de achar que a simples distribuição de cargos era suficiente para que mantivesse o prestígio conquistado nas urnas de 2014. Erro enorme de perspectiva. Em mais um degrau da descida o fato de não haver atacado, como a situação exigia, os ladrões que assaltaram a Petrobrás e, batendo um recorde histórico, elevaram a sequência de assaltos a uma escala de bilhões de dólares. Falsas doações para campanhas eleitorais, extorsões, construções fantasiosas, depósitos de propinas no exterior em grande quantidade.

OUTROS PROBLEMAS

Fraudes fiscais, fugas do Imposto de renda, contratos várias vezes superfaturados. Tudo isso aconteceu ao longo de seu primeiro mandato vindo a explodir no segundo. Cortes em direitos trabalhistas e sociais, distanciamento dos atos de corrupção. Como ela sustenta, e eu acredito, sem sua participação, mas que ocorreram sem sua percepção. Onde estava sua assessoria, seu serviço de inteligência que nada fizeram e sequer foram capazes de informa-la? As razões são essas, acumuladas na consciência popular.

As soluções ainda não começaram a ser esboçadas. Assim, para escapar da trama que a sufoca, Dilma Rousseff precisa agir rápida e concretamente. Deixar de se levar pelos falsos aliados. Voltar a presidir o país, livrando-se da imagem de ser, como no filme, um corpo que cai.

4 thoughts on “Dilma Rousseff, agora uma personagem de Hitchcock

  1. O nobre Pedro do Couto eleva ao máximo o benefício da dúvida. A imagem é a contrário à afirmada por José Dirceu, com a impressão de que o PT rouba e deixa roubar. Os exemplos passam por todas as administrações. Se madame, presidindo o Conselho supremo da Petrobrás não sabia o que lá acontecia, então tal fato denota uma incompetência de tal monta que a descredencia, obviamente, a continuar conduzindo a Nação nesse abismo a que fomos todos levados, sendo chamados a pagar a conta. resta saber como fazer isso, porque mais 3,5 anos nessa levada, vai ser muito difícil aguentar.

  2. Acho que o articulista deveria fazer uma mea culpa em relação a Dilma, o pete e os governos petistas. O desgoverno não iniciou agora, apenas chegou a hora da colheita. Simplesmente começar a criticá-la pode parecer oportunismo.

    • O articulista até poderia fazer um mea culpa em relação a Anta se considerarmos que ela é mentalmente incapaz, porque acontecerem tantas coisas erradas sob o nariz dela e ela não ter visto e nem sabido de nada é uma prova irrefutável de imbecilidade. Já, quanto ao PT e ao governo anterior a coisa já está tão enrolada com o Dr Moro que deveríamos aguardar o veredicto final. Afinal, no país onde lavagem de dinheiro virou programa de governo e mais recentemente a lavagem de votos se tornou institucional, tudo pode acontecer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *