Dilma Rousseff na China: João Goulart na névoa do tempo

Pedro do Coutto

No momento em que a presidente Dilma Rousseff vai à China chefiando comitiva oficial que inclui grandes empresários, para firmar acordos bilaterais importantes com o principal parceiro comercial do Brasil, deve-se lembrar e fazer justiça histórica ao presidente João Goulart. Foi ele o primeiro chefe de estado brasileiro a iniciar entendimentos com Pequim, final de 63, logo após a França de De Gaulle, reconhecer internacionalmente a China de Mao e Chou En Lai como a verdadeira China, e não a República de Formosa de Chan Kai Chek, hoje incorporada ao continente. No ano passado, vendemos para a China 15% de nossas exportações e ela tornou-se a fonte de 14% de nossas importações. Um movimento nos dois sentidos em torno de 50 bilhões de dólares.

Sinal dos tempos, eles mudam. A atuação de Jango merece uma revisão crítica através de um mergulho na névoa do passado. Por ter iniciado relações econômicas com Pequim, e também por haver reatado relações diplomáticas com Moscou, antiga URSS, hoje Rússia, aquele presidente foi acusado de adepto do comunismo pela direita exacerbada. O líder desse corrente, de fato, Carlos Lacerda, governador da Guanabara, mandou prender sem motivo algum os integrantes da primeira missão chinesa  que haviam alugado apartamento na Rua Senador Vergueiro.

Atualmente, por ano, empresas brasileiras, entre elas a Vale, vendem 50 bilhões de dólares e compram cerca de 20 a 25 bilhões, de acordo com o que publicou o Valor em caderno especial encartado na edição de segunda-feira 11. As fronteiras ideológicas desapareceram.

Eram um sofisma. Tanto que o Brasil havia rompido relações com a União Soviética, no governo Eurico Dutra, não vendia nem comprava, mas os Estados Unidos, no auge da guerra fria, compravam e vendiam produtos e serviços para a central internacional do comunismo. Quer dizer: o comunismo ameaçava o Brasil, mas não representava ameaça para os EUA e todo bloco Ocidental. Através da OTAN, Washington instalara mísseis na Turquia apontando para o Leste Europeu.

E  quando Kruchev colocou mísseis em Havana apontando para Miami, explodiu a crise. Houve então nova divisão do mundo, à base de áreas de influência. Um novo Tratado de Tordesilhas, referendado pelo Papa Alexandre  VI, família Bórgia, mais ou menos em 1490, dividindo espaços de futuras descobertas entre Portugal e Espanha. Kruchev retirou os mísseis de Cuba. John Kennedy retirou os mísseis da Turquia. Este foi o acordo real pouco citado pelos historiadores.

A política tem que ser desenvolvida sobre contextos verdadeiros e conceitos realistas. Fora daí é perder tempo analisá-la somente sob o prisma ideológico. Inglaterra e Estados Unidos eram adversários profundos da URSS. Mas, diante do nazismo, Winston Churchill e Franklin Roosevelt uniram-se a Stálin. A vida é assim. A política principalmente. Ela, como a definiu certa vez De Gaulle, é uma ação firme e forte dentro de idéias claras e simples. Algo extremamente complexo – mexe com a economia e portanto com dinheiro – porém suas formulações têm que ser lógicas.

Lógica, sem a menor dúvida, a viagem de Dilma Rousseff à China. Ela continua a obra de inserção e realismo, no caso brasileiro, iniciada por João Goulart e pelo seu ministro do Exterior, Santiago Dantas. Soprada a névoa do tempo, justiça ao presidente deposto em março de 1964. Foi pioneiro na abertura de uma nova estrada no mundo. Estrada para sempre.

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