Dilma tem que apelar para o grito

Carlos Chagas

No PT, não é raro baixarem  os espíritos do Dedé, do Didi e, literalmente, dos saudosos Mussum e Zacarias. Ao longo dos anos, o partido  proporcionou inúmeras trapalhadas, do mensalão aos aloprados, das ONGs fajutas aos cartões corporativos, para não falar nas constantes escaramuças entre seus próprios dirigentes. O presidente Lula tem conseguido ficar à margem, mesmo sem deixar  de ressentir-se do comportamento dos companheiros: costuma enquadrá-los no grito.

Deveria a candidata Dilma Rousseff seguir o exemplo do chefe. Ainda agora a imprensa anda cheia de informes e de especulações sobre crises em seu comando de campanha. Rui Falcão de um lado, Fernando Pimentel de outro, sem esquecer José Eduardo Dutra, João Santana  e um monte de penduricalhos sem maior nome. Deveria a ex-ministra passar ao largo dessas lambanças, se possível voltando aos tempos em que comandava as Minas e Energia e, depois, a Casa Civil, mais ou menos  como um sargento dá ordem unida e enquadra os subordinados. Para botar ordem em sua campanha, maliciosamente atacada pelos adversários, só mesmo no grito.

A situação tomou caminhos de crise pelo simples motivo de que Dilma cresceu nas pesquisas, ultrapassou Serra e demonstra razoáveis condições de chegar em primeiro lugar na corrida de outubro. Como conseqüência, digladiam-se certos  companheiros postados à sua volta, aspirando postos de influência em seu possível governo. Melhor seria, para ela, dar o “basta” enquanto é tempo, fechar o cenho e obrigar todos a marcharem de passo certo, sob o risco de deixarem o batalhão.

Imprescindíve não é, mas…

Não será um retrocesso, muito menos uma catástrofe, caso no próximo dia 12, em Salvador, José Serra seja oficialmente  sagrado candidato sem saber quem será seu candidato à vice-presidência. É preciso reconhecer, porém, que muito melhor figura fariam os tucanos se já pudessem apresentar a chapa completa.

Ficando cada vez mais longínqua a hipótese de Aécio Neves aceitar a indicação, por que não começar a selecionar os possíveis companheiros do ex-governador? Nomes não faltam, dos que aspiram e dos que pulam fora. Francisco Dornelles, do PP, José Agripino e Marco Maciel, do  DEM, Tasso Jereissati e Sérgio Guerra,  do PSDB, Kátia Abreu, da CNA e quantos mais?

Tempo haverá para protelações e maiores buscas, mas é bom buscar exemplos no passado. Jânio Quadros teve que engolir Leandro Maciel, que não suportava,  até que depois do episódio de uma renúncia de mentirinha, a UDN apresentou o melhor de seus quadros, Milton Campos, aceito com toda pompa e circunstância. Os dois percorreram o país  no mesmo  avião,  compensando o histrionismo de um com a força moral  do outro. Naqueles idos votava-se para presidente e para vice em separado, registrando-se manobra até hoje pouco clara de sabotagem do saudoso mineiro, derrotado por João Goulart, do lado de lá.

Serra precisa de um Milton Campos, não de um Leandro Maciel…

“O Lott já foi …”

Como o passado continua sendo nosso maior tesouro, mesmo quando não diz o que fazer, mas o que evitar, vai uma  historinha relacionada com a nota anterior.

Próximo de outubro de 1960, com o favoritismo de Jânio Quadros dominando todos os cálculos eleitorais, muitos políticos tentaram tirar proveito dos  ventos favoráveis, pressionando para que o candidato visitasse seus redutos. Era impossível percorrer todos os municípios do país,  apesar de a média de seis por dia, por todos os estados. Foi quando o candidato encontrou uma saída elegante  para eximir-se da missão impossível: “Cabrobó das Farinhas? Não preciso ir lá. O Lott já foi…”

Referia-se ao seu principal adversário, o mais honesto porém o mais enfadonho dos candidatos.

Nós a desatar de imediato

Qualquer dia desses o presidente Lula acaba explodindo. Os impasses entre o PT e seus aliados continuam inconclusos, nas eleições para os governos estaduais. No Rio Grande do Sul não há como obter a desistência de José Fogaça, do PMDB, em favor de Tarso Genro, do PT. Em Santa Catarina, Ideli Salvatti, do PT, não abre mão de disputar, levando o ex-governador Luiz Henrique, do PMDB, para os braços dos tucanos e democratas. No Paraná, o governador Orlando Pessutti, do PMDB, não abre mão para Osmar Dias, do PDT, o preferido do Lula. Em São Paulo, Orestes Quércia leva a metade do PMDB para Geraldo Alckmin, do PSDB, ao tempo em que Michel Temer, do PMDB, vice de Dilma, custa a engolir Aloísio Mercadante, do PT.  Em Minas, Hélio Costa, do PMDB,  ameaça aproximar-se de Serra caso Fernando Pimentel, do PT, não desista de candidatar-se.

Na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Maranhão e no Pará, as trapalhadas se repetem. São todos nós a desatar, pode ser que pela paciência do presidente Lula, caso algum auxiliar não lembra a ele o exemplo de Alexandre, do Grande, que usou a espada para livrar-se do nó górdio…

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