Dilma tem que partir em busca do tempo perdido

Pedro do Coutto

Dando na verdade sequência a meu artigo sobre a pesquisa do Datafolha e agora também com base na reportagem de Adriana Mendes e Demétrio Weber, O Globo, edição de sábado, acentuo que, para a reeleição, Dilma Rousseff tem que deixar a defensiva e partir em busca do tempo perdido. Adriana Mendes e Demétrio ouviram diversos cientistas políticos e chegaram à conclusão de que, nas urnas de outubro, haverá segundo turno entre a atual chefe do Executivo e Aécio neves. Concordo, como escrevi na véspera.
E recorro ao título do grande romance de Marcel Proust, considerado um dos maiores da literatura universal, para sintetizar o desafio que Dilma terá de enfrentar no desencadeamento da campanha eleitoral. Mas antes, só de passagem, desejo assinalar que há cerca de alguns anos, uma pesquisa realizada em vários países apontou Ulisses, de James Joyce, e em Busca do Tempo Perdido, de Proust, as maiores obras literárias produzidas até hoje, Joyce em primeiro, Proust em segundo. Carlos Heitor Cony votou em Proust.
Voltando à política brasileira, claro, como disseram os cientistas políticos, que a exposição dos candidatos na televisão é decisiva. Mas não apenas ela. Pois, neste caso, a vitória de Dilma Rousseff já estaria assegurada. Ela possui mais tempo nos horários de propaganda eleitoral e, como presidente da República, muito mais oportunidades de aparecer. Além da caneta mágica do poder. Mas tal raciocínio seria simplista.
A vantagem que os jornalistas levam sobre os professores de Comunicação é o conhecimento prático e concreto da informação. Portanto, da ocupação do tempo disponível. Se Dilma houvesse ocupado esse tempo apresentando fatos concretos a seu favor, ou favoráveis (concretamente) à sua administração, os números do Datafolha publicados na edição de 9 de maio, seriam outros. Sem dúvida. Portanto o reflexo na escalada pela conquista das intenções de voto seria outro.
FORMA E CONTEÚDO
Não vale só a forma. O conteúdo é mais importante. O conteúdo envolvendo a presidente da República tem sido negativo. A presença de falsos amigos, de falsos aliados, à volta das esferas de decisão, especialmente na Petrobrás, tem sido uma catástrofe. A influência do doleiro Alberto Yousseff, um desastre. As demissões determinadas por Dilma comprovam. E ressaltam o tempo perdido com os atos praticados pelos que abusaram de sua confiança. O ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, teve sua prisão decretada pela Justiça Federal. Fundos de Previdência Complementar de estatais aplicaram recursos na compra de debêntures da Universidade Gama Filho.
Apesar de todos esses fatos, Dilma mantém a liderança e surge vitoriosa nas simulações do Datafolha para o segundo turno. Mas para confirmar a previsão (algo difícil em política) tem que deixar a defensiva e sair do corner em que se encontra conduzida a tal situação por um bando de desonestos que, à sua revelia, encontraram um panorama fácil de atuação perniciosa, atingindo negativamente o governo e sobretudo o país, a população e, consequentemente, os eleitores. O roubo deixa, em sua teia, rombos tremendos. É algo sinistro e repugnante.
Concluo como comecei: Dilma Rousseff tem que partir em busca do tempo perdido, pois quanto mais negócios suspeitos houver, maior quantidade de votos perderá. Acho, com base nas projeções do Datafolha, que será reeleita. Porém, não fossem os ladrões, venceria mais facilmente. O futuro, entretanto, depende do desempenho dela e de Aécio. Os cientistas políticos esquecem sempre a dinâmica dos acontecimentos em suas interpretações. Teoria é uma coisa. Prática é outra.

10 thoughts on “Dilma tem que partir em busca do tempo perdido

  1. Em qual opção acomodar os russos, digo, os mais de 70% da população, os indignados que sairam às ruas, rugiram firme e forte, e que continuam recalcitrantes na indignação como revelam as pesquisas, reiteradamente, e que desejam mudanças de verdade, sérias, estruturais e profundas, sob a liderança de outros nomes mais confiáveis que não esses que aí estão como pré-candidatos impostos por suas siglas partidárias comprometidos com o continuismo centenário dos mesmos de sempre ? Será que, desta feita, os partidos e os nomes que aí estão conseguirão cercar, domar e acomodar em suas guaiacas esse imenso contingente de indignados independentes, jamais visto antes neste país ? Será que os indignados (70% da população) são apenas artificiais e se prestarão ao papel de boi das velhas boiadas, situacionista ou oposicionista ? A conferir.

  2. É impressionante como, no fundo, bem no fundo, o tal articulista parece defender a reeleição da atual presidente.
    Não por acaso, ele torce pelo Fluminense.
    Dois erros a um só tempo.

  3. Qualquer candidato a presidente deve conquistar a maioria dos formadores da opinião pública, sejam eles quem forem. Como cultivar e manter fiel um formador de opinião pública? Tendo e atendendo seus interesses. Simples. Porém, existe um conjunto de eleitores que é quase imune ao formador de opinião, o bolsista de qualquer nível, pois seu voto é comprado com antecedência e o medo de mudança o torna conservador, de qualquer regime que seja.
    A bolsa família é o maior cabo eleitoral do país, produzindo perto de 35 milhões de votos agregados. Isto é reserva eleitoral garantida. Para Dilma, basta ganhar apoio de mais 20 milhões de eleitores, que deve ser aproximadamente o número de petistas deste país . O problema dela é perder os votos dos petistas insatisfeitos (com o volta Lula). Haverá segundo turno? Creio que sim, somente por causa do PT. A oposição vai ganhar no segundo turno? Não vejo como, a não ser que ocorra uma catástrofe.
    Afinal, quando um deputado ou senador irá propor EC para proibir que bolsistas de quaisquer níveis e funcionários públicos votem para cargos executivos? Assim como um juiz não deve julgar uma causa quando seus interesses particulares estão em jogo, os eleitores que vivem com subsídio do governo não deveriam participar de uma eleição para o poder executivo?

  4. Esse Rufino Trajano merece ser internado. Li duas vezes o que ele tentou dizer e não entendi. O Pedro do Couto não pode ser punido por ser tricolor. É uma doença contagiosa, eu sei, mas tem cura.
    Mas ainda bem que a nação rubro-negra tem hoje 43 milhões de torcedores.
    O Flu não passa dos dois milhões.

    • Caro TAMILTON. Até concordo que os RUBRO-NEGROS deste país possam superar os 40 milhões. Afinal: SPORT, VITÓRIA, ATLÉTICO-GO, ATLÉTICO PARANAENSE, CAMPINENSE, FLAMENGO DO PIAUI, ITUANO, MOTO CLUBE etc.. enfim, são tantos clubes rubro-negros neste pais não é?

  5. Grande Jornalista Pedro Couto, (sorte desta tribuna que outros),
    Está tudo muito claro. com apenas 1 pontinho de queda mostra que estabilizou a campanha da Dilma. Este pontinho desaparece com a margem de erro. O eleitorado já percebeu que há muita intriga da oposição, portanto ela voltará a subir nas pesquisas. Podes crer.

  6. Caro Luís Cláudio, os institutos de pesquisa não mentem. O Flamengo tem hoje 44 milhões de torcedores.
    Só o Fla tem esse suporte. O Flamengo, do Rio, RJ, pra que fique mais claro.

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