Dinheiro da corrupção é mais que o dobro gasto na Copa do Mundo

Marcelo da Fonseca
Correio Braziliense

De 2003, quando a Polícia Federal (PF) começou a fazer grandes operações de combate a corrupção, até hoje, o montante desviado dos cofres públicos, considerando apenas os que envolvem políticos, supera a marca de R$ 50 bilhões. A soma representa o dobro do que foi gasto com a realização da Copa do Mundo de 2014 — segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), as obras em estádios, aeroportos e de mobilidade urbana ficaram em R$ 25 bilhões — e não inclui os R$ 10 bilhões investigados pela Operação Lava-Jato, ainda em andamento.

Na contramão dos altos valores investigados, o montante que retornou aos cofres públicos nos últimos 10 anos por meio de ações do Ministério da Justiça é de, aproximadamente, R$ 40 milhões, segundo levantamento do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), órgão responsável pela repatriação de verbas públicas desviadas. Nos últimos seis anos, a Advocacia-Geral da União (AGU) conseguiu bloquear cerca de R$12 bilhões desviados em esquemas de corrupção, mas os recursos ainda não foram reavidos pelo Poder Público.

Segundo o DRCI, apesar do grande número de operações desenvolvidas pelos órgãos de controle e fiscalização, o processo de recuperação de verbas comprovadamente desviadas é lento. Muitas vezes, os impasses judiciais duram quase uma década, até que os condenados sejam obrigados pela Justiça a devolver os recursos aos cofres públicos. O órgão explicou, por meio de nota, que os crimes de lavagem de dinheiro são complexos e nem sempre a identificação e a comprovação da origem ilícita dos ativos desviados são fáceis.

DEVOLUÇÃO É PEQUENA

Desde 2004, quando o DRCI foi criado — os dados de valores recuperados, no ano passado, ainda não foram consolidados —, 2013 foi o ano que registrou a maior recuperação de verbas para os cofres públicos. Foram devolvidos R$ 17,6 milhões. “A estratégia nacional de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, composta por mais de 60 órgãos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e do Ministério Público, têm trabalhado nos últimos 10 anos, em diversas propostas de aperfeiçoamento institucional do Estado brasileiro, tais como a criação do DRCI, que possibilitou o aumento do fluxo da cooperação jurídica internacional e o crescimento dos valores bloqueados”, informou, por meio de nota, o Ministério da Justiça.

Até agora, sem a conclusão da Operação Lava-Jato — deflagrada pela PF em março do ano passado e que apura esquema de pagamento de propina e superfaturamento em negócios da Petrobras com empreiteiras, doleiros e políticos —, a Operação Farol da Colina foi a maior investigação da PF sobre corrupção e lavagem de dinheiro. Lançada em agosto de 2004, foi conduzida pelo mesmo juiz que apura o esquema da Petrobras, Sérgio Moro, e foi considerada um divisor de águas nos casos de lavagem de dinheiro. Ele decretou a prisão de 123 pessoas, entre doleiros, empresários e políticos que movimentaram cerca de US$ 24 bilhões em contas no exterior.

SEM JULGAMENTO

Na lista das principais operações da PF, estão casos que ainda aguardam definições dos tribunais, como a Operação João-de-Barro, deflagrada em junho de 2008, para investigar esquema de fraude nas licitações e na venda de emendas parlamentares a prefeituras. A operação Sanguessuga, em que a PF desmembrou uma quadrilha que usava verbas do Ministério da Saúde por meio de empresas de fachada, também segue em aberto, com vários políticos que permanecem na ativa aguardando decisões da Justiça.

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