Dinheiro não é problema

Carlos Chagas

As candidaturas presidenciais tem mil e uma faces, da simpatia dos candidatos aos seus percentuais nas pesquisas, do apoio partidário ao passado de cada um. É bom não esquecer, porém, que uma das principais características do processo eleitoral  costuma revelar caretas durante as campanhas: o dinheiro.

Na realidade brasileira, dificilmente alguém ganha eleição sem muitos recursos. É preciso custear  viagens, promover reuniões “espontâneas”, fazer propaganda, distribuir mimos, mesmo os proibidos por lei, quando não molhar a mão de cabos eleitorais e até promover  mudança de tendências junto a grupos, associações e instituições.

Quando o candidato surge com um mínimo de chance, dinheiro não falta, canalizado de diversas fontes, tanto públicas quanto privadas. Honestas e nem tanto, quando se trata da contribuição de empresas e de conglomerados econômicos.

No quadro atual, sente-se que não faltará dinheiro para a campanha de Dilma Rousseff. Deslocando-se por enquanto por conta de suas funções ministeriais, a candidata dispõe de todo o aparato governamental, e depois de desincompatibilizar-se dificilmente faltará dinheiro para aluguel de jatinhos, se  não forem oferecidos gratuitamente, bem como toda sorte de facilidades para suas comitivas e para o trabalho junto aos meios de comunicação. Carência de recursos não constituirá problema para ela.

José Serra, da mesma forma. Ao  deixar o governo de São Paulo, no qual se apóia, será imediatamente cercado pelas contribuições do empresariado. Não pensará em despesas como fator capaz de prejudicá-lo.

A grande surpresa na corrida sucessória vai para Marina Silva. Logo que cogitado seu nome, uma das primeiras preocupações de seus partidários  foi quanto aos custos da campanha. Quem iria bancá-los, sendo o PV um partido pobre?

Pois com o passar das semanas essa dúvida parece haver desaparecido. As entidades ambientalistas nacionais e  estrangeiras já  se encontram a postos. Reais e dólares não faltarão para a candidata que defende o meio ambiente. ONGs aos montes já se mobilizam, antes mesmo da formação do  comitê de campanha da senadora. Do que ela necessitar, receberá. Mesmo em sua modesta vida privada, será cercada por toda sorte de recursos. Vender a proposta ambientalista, mostrar-se, percorrer o país e ganhar espaços na mídia – tudo parece garantido. E sem que nem de longe surjam suspeitas de irregularidades.

No rol dos candidatos, quem fará as vezes do primo-pobre será Ciro Gomes. Em 2002 já encontrou dificuldades, mesmo quando aparecia na frente das pesquisas. Obrigou-se a viajar com a mulher e mais um ou dois assessores, em avião emprestado, dando sempre preferência a hospedar-se em hotéis modestos e trabalhando com mínimas estruturas de comunicação, dentro do raciocínio imposto aos que o apoiavam: “não gastem mais do que podemos”.  Agora, pelo jeito, sua campanha seguirá a mesma diretriz.

Quanto a Heloísa Helena, é a exceção.   Será difícil receber colaborações financeiras, sua estratégia envolverá fazer campanha em aeroportos, quer dizer, utilizando aviões de carreira e valendo-se da hospedagem na casa de correligionários. Isso  caso não venha a   aderir desde já, até por esses motivos,  à candidatura de Marina Silva, dedicando-se à eleição para o Senado por Alagoas.  Empreitada que exigirá modestos recursos, dada a pequena extensão territorial  de seu estado natal.

Onde não há falta

Nem passa pela cabeça dos principais líderes do MST lançar um candidato próprio à sucessão do presidente Lula. João Pedro Stédile prefere permanecer à sombra, sabendo que só por milagre  sua candidatura empolgaria a maioria do eleitorado. Mas, se por hipótese inviável,  os sem-terra decidissem concorrer, recursos não faltariam. Levantamento da bancada ruralista revela que nos últimos cinco anos o MST recebeu 115 milhões de reais, através de entidades ligadas e ONGs simpáticas.

Ressurge um perigo

Volta a ganhar as  cogitações do Congresso a tese da coincidência de mandatos. A discussão é cíclica. Quando o eleitorado votava num dia só para presidente da República, governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeito e vereador, não raro se ouviam reclamações. Argumentava-se que o eleitor não estava preparado para suportar tamanha carga de decisões frente às ainda experimentais e raras  maquininhas de votar. Mesmo pronunciando-se em cédulas, as eleições não atrasavam.   E facilitavam a vida de cada um,  levando o cidadão ás urnas apenas de quatro em quatro anos.

Ainda assim, surgiu a supressão das  eleições municipais do conjunto, porque “quanto mais o eleitor votasse, mais aprenderia e melhor votaria”. Esse princípio foi confirmado na Constituição de 1988 e persiste até hoje, mas, não apenas por razões doutrinárias já se pensa em voltar ao sistema anterior; por que não fazer  coincidir todos os votos num único dia?

Só que tem azeitona nessa empada.Do que muita gente cogita,  na Câmara e no Senado, é de estabelecer a coincidência de mandatos em 2012, quando terminam os períodos dos atuais prefeitos e vereadores.  Interrompê-los seria uma violência, um ato anti-democrático. Então…

Então, para se promover logo essa mudança considerada necessária, por que não prorrogar por dois anos os mandatos federais e estaduais? Docemente constrangidos, deputados e senadores aceitariam.  Apenas eles? Por que não os governadores, os deputados estaduais e…   E até ele, ainda mais quando a candidatura Dilma Rousseff não anda bem de prognósticos nem de pesquisas. Mais dois anos para todos seria bom até mesmo para os governadores de São Paulo e de Minas Gerais.

Para quem alega o impedimento constitucional de mudança nas regras do jogo no período de um ano anterior a qualquer eleição, vai um alerta: não se trata de reformar as instituições antes de eleições, mas de adiar  eleições…

É bom tomar cuidado, porque a desfaçatez humana não tem limites.

Do Senhor do Bonfim ao Círio de Nazaré

Dona Dilma parece não  perder tempo. Desde  ontem na Bahia,  vai hoje à igreja do Senhor do Bonfim, amanhã  percorre o interior do estado e domingo, em Belém, participará da procissão do Círio de Nazaré. Encontrou-se, esta semana, com líderes e bancadas do PDT e do PT, recebendo também um grupo de mulheres parlamentares. Acompanhou de longe a reunião da cúpula do PMDB que sinalizou o rápido engajamento do partido em sua candidatura e nos intervalos examinou documentos do pré-sal. Como para o Norte e o Nordeste viajou no avião do presidente Lula, aproveitou para discutir com ele a situação em alguns estados onde o PT e os aliados não se acertam. Teve tempo para mais uma entrevista, desta vez a uma revista semanal e ainda fez sua caminhada matinal, em Brasília e Salvador, como fará na capital do Pará. Breve vai receber um conselho: “devagar, senhora, que mesmo sem ser de barro, o santo não é de ferro…”

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