Dirceu, em vez de somar, aumenta cisão no PT

Pedro do Coutto

Cada vez mais oportuna, nos tempos modernos, a leitura permanente de telas da Internet permitindo sua reprodução nas páginas dos jornais. Na edição de O Globo de 30/07, por exemplo, as repórteres Maria Lima e Isabela Martin publicaram afirmações que, na véspera, o ex ministro José Dirceu colocara em seu blog, neste momento de crise no PT sem dúvida cada vez mais visitado. Resolveu partir para o ataque e criticou frontalmente a corrente liderada pelo senador Aloisio Mercadante que, exprimindo a vontade de dez entre os doze senadores da legenda, manifestou-se pelo afastamento de José Sarney da presidência daquela Casa do Congresso, denominada Câmara Alta.

Nada disso, acentuou o ex chefe da Casa Civil, foi uma atitude politicamente infantil, o Partido dos Trabalhadores apoiará a permanência de Sarney. Tais declarações espantam, já que José Dirceu teve o mandato de deputado cassado e o documento a que se refere reflete a posição de senadores. Além disso, ao que se sabe, Dirceu não fala pelo comando partidário, tampouco pelo presidente Lula ou mesmo pelo governo. Ele está assim, interferindo numa área que não lhe diz respeito. A menos que tenha sido autorizado pelo presidente da República, o que não é nada provável, pois neste caso não teria sido demitido do cargo na crise do mensalão que explodiu em 2005. Várias contradições, portanto. Mas estas não são, por si, o principal foco do problema.

O principal foco do teorema situa-se no aprofundamento de uma cisão evidente no PT, principalmente na seção paulista. Na medida em que, mesmo sem mandato ou posto no diretório, o ex ministro assume uma postura impositiva, falando até em nome da agremiação, em vez de contribuir para minimizar o desentendimento, ele o agrava e aprofunda a divisão que se projetou, não propriamente em função de Sarney, cuja posição é insustentável, mas a partir do momento em que Lula assumiu a articulação voltada para tornar o deputado Ciro Gomes candidato de uma coligação PSB-PT ao governo de São Paulo nas eleições do ano que vem. A regional paulista teria que reagir a uma ultrapassagem nítida de seus quadros. Sobretudo Mercadante que terá de tentar a renovação de seu mandato também no próximo ano. Posição mais confortável, embora flagrantemente insatisfeito a do senador Eduardo Suplicy, reeleito em 2006 e cujo mandato só termina no final de 2014. Suplicy, inclusive, fazendo-se desentendido, ofereceu-se como candidato do PT ao governo de São Paulo. Mas parece que a proposta ou não foi ouvida, ou não foi aceita. Mas esta é outra questão.

O ponto essencial é que na medida em que uma dissidência se aprofunda, torna-se mais difícil, por reflexo, o caminho da ministra Dilma Roussef rumo ao Planalto, na alvorada da campanha pela sucessão presidencial. Uma divisão na base do maior colégio eleitoral do país projeta-se como algo capaz de tornar impossível o êxito de sua candidatura. Sob este ângulo, querendo ajudar a chefe da Casa Civil, que aliás o substituiu no posto, José Dirceu prejudica tanto a candidata quanto o partido. E, politicamente, o próprio Lula. Exércitos divididos não vencem batalhas, já se disse na história. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1960, com o general Teixeira Lott. As seções do PSD do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, foram às urnas com Jânio Quadros.

De outro lado, partidos que apoiavam o governo Juscelino, caso do antigo Partido Republicano de Arthur Bernardes, deslocaram-se no sentido da UDN. No lado do PT de João Goulart e Leonel Brizola, as regionais de São Paulo e Paraná rumaram para a nave de Quadros, através de uma operação que ficou célebre como Jan-Jan, ou seja: Jânio para presidente e Jango para vice. Naquele tempo o voto para presidente era independente do voto para você e não havia exigência de unidade partidária como existe hoje para viabilizar uma coligação. O episódio de 60 é um bom exemplo de cisão. José Dirceu o repete agora, em 2009, no PT.

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