Dirceu usa Gabrielli para confrontar liderança de Dilma Rousseff

Pedro do Coutto

A matéria de Graciliano Rocha, com foto espetacular de Lúcio Távora, primeira página da Folha de São Paulo de sábado 10, sobre um momento da posse de Sérgio Gabrielli como secretário de Planejamento da Bahia, ao centralizar a cena na figura de José Dirceu, destaca um lance político da maior importância. Acentua a divisão do PT em duas correntes. A que, como não poderia deixar de ser, obedece ao comando de Dilma Rousseff, e aquela que, articulada pelo ex-ministro da Casa Civil de Lula, empenha-se em contestar esse comando absoluto.

Basta ver a foto. Impressionista e impressionante. José Dirceu aparece como o dono da bola, procurando demonstrar que a nomeação de Sérgio Gabrielli pelo governador Jacques Wagner decorreu de seu prestígio pessoal. O chefe do Executivo baiano também não ficou bem no episódio junto à presidente da República.

Afinal de contas, Dilma demitiu Gabrielli sem maiores explicações pouco depois de a revista Veja ter publicado a visita do ex-presidente da Petrobrás ao mesmo José Dirceu no escritório político que este mantinha (ou mantém?) no Hotel Naoum, em Brasília. Ficou claro, para os que conhecem um mínimo de política, que Gabrielli foi ao encontro de Dirceu tentar um apoio que lhe estava faltando no Palácio do Planalto. Nada conseguiu, como os fatos comprovam.  A audiência somente apressou sua demissão do cargo.
Maria das Graças Foster deve dar graças à Veja por tê-la colocado no posto em curto espaço de tempo. Entre a foto da revista e sua posse transcorreu apenas um mês. José Dirceu manobra nas sombras, deve portanto possuir bom cacife para atuar. Mas não o suficiente para disputar um lance de poder. O poder – me disse um dia o presidente JK – não se divide.

O projeto José Dirceu desmoronou como um castelo de cartas. Petrobrás, adeus. Mas o horizonte foi novamente aberto para o deputado que teve o mandato cassado, por intermédio do governador Jacques Wagner. O ex-presidente Lula enviou carta a Sergio Gabrielli, cumprimentando-o pela nomeação. Mas todos nós sabemos como são as cartas de apoio. Não funcionam. Se Gabrielli tivesse mesmo prestígio com Lula, claro, não teria sido demitido por Dilma.

Vejam o caso Antonio Palocci. No dia da vitória, segundo turno, a presidente eleita fez questão de se dirigir para a primeira entrevista coletiva à imprensa nacional e estrangeira, ao lado de Palocci. Inclusive era o único que a acompanhava no automóvel que conduziu a ambos. Seis meses depois estava demitido. E agora, quando seu nome foi indicado, não sei por quem, para tesoureiro da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, na mesma edição de sábado a FSP revela que o Palácio do Planalto mandou avisar à regional paulista que não está de acordo com a escolha. Ora, quem pode o mais, pode o menos. Se o convite a Palocci desagradou, imaginem os leitores a nomeação de Sérgio Gabrielli.

A matéria sobre o veto a Antonio Palocci é da repórter Cátia Seabra. A política é uma atividade aberta (para citar o filme de Rosselini sobre Roma no final da guerra), como a arte, o futebol e o jornalismo. Todo mundo se julga em condições de participar e até de dirigir. Iludem, no início, afundam os próprios projetos pouco depois.

Testemunhei tantos casos de incompetência no Correio da Manhã que perdi a conta. No antigo jornal só, não. Em outros jornais também.É preciso ter cuidado com esse tipo de gente. Inclusive há os que se esforçam para aparentar poder e não possuem nenhum. O famoso coronel Newton Leitão foi um exemplo emblemático. Era considerado forte nos bastidores. Foi até assessor do jornalista Roberto Marinho. Mas quando Roberto Marinho verificou que ele não tinha prestígio algum, demitiu-o imediatamente.

Newton Leitão pertence a uma espécie em extinção. Mas há sobreviventes por aí.

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