Discutir a situação do Oriente Médio, sem levar em conta a influência radical do Islamismo, é uma grandiosa perda de tempo. Mas os “especialistas” insistem em fazê-lo.

Carlos Newton

Os programas na TV por assinatura com análises sobre as revoltas que explodem nos países árabes são interessantes, devido à importância do tema, porém muito monótonos. Para se manifestar, têm sido convocados os mais diversos tipos de especialistas, com destaque para professores de Relações Internacionais ou coisa que o valha.

Os produtores dos programas convidam também diplomatas e até empresários que fazem negócios com o Oriente Médio. Apesar dessas “especialidades”, ao final sempre resta uma sensação de que ninguém realmente sabe o que está se passando por lá.

Nessas trocas de idéias (os programas não chegam a ter debates, não há entrechoques de opiniões), surgem as mais interessantes teorias e abordagens. Outro dia, assisti a um especialista que destacava a grande diferença existente entre as monarquias árabes e as repúblicas árabes, para concluir que era mais fácil para os monarcas conterem a revolta popular.

Citou como exemplo a Arábia Saudita, onde o rei abriu os trabalhos distribuindo logo 36 bilhões de dólares às populações carentes, para acalmar os mais exaltados. Nada mal, convenhamos. Mas nem todos os monarcas da região têm condições de fazer essas generosidades, fato que liminarmente inviabiliza a criativa e saudável teoria.

Outros especialistas preferiam se estender sobre a influência do Irã ou sobre a rivalidade entre seitas islâmicas sunitas e xiitas, quando não se referem também aos cristãos maronitas do Líbano ou abordam as trajetórias dos grupos Hamas e Hezbollah etc., montando uma salada infernal.

Como sempre, discutia-se também a influência da internet e das redes sociais, cuja importância nessas revoltas é mais do que evidente, tanto assim que os governantes/ditadores ameaçados logo se apressaram a bloquear totalmente o acesso à internet nos respectivos países, conforme relataram as diferentes agências de notícias que cobrem esses levantes.

Nessas mesas-redondas, os especialistas costumam destacam que a organização dos manifestantes é facilitada através do Facebook, do Orkut e do Twitter, apontados como ferramentas fundamentais nas mobilizações que permitiram a derrubada do presidente egípicio Hosni Mubarack e a chamada “Revolução de Jasmim”, na Tunísia, que forçou a saída do ditador Zine El Abidine Ben Ali, que governava o país desde 1987.

Até aí, tudo bem. Como dizia o genial escritor alemão Erich Maria Remarque, ao retratar a Primeira Grande Guerra, “nada de novo no front ocidental”. Tudo isso é verdadeiro. Mas o que chama atenção nesses debates sobre os povos árabes é que raramente se discute em profundidade o mais importante aspecto da questão: o radicalismo religioso e o consequente ódio a Israel.

Fica parecendo que os especialistas tentam parecer politicamente corretos, sem entrar em assunto de religião, procurando limitar a crise dos povos árabes apenas às questões político-sociais. Na realidade, seria bem mais fácil chegar a uma conclusão se as coisas acontecessem assim, politicamente corretas. Mas não acontecem.

O radicalismo religioso é o fator principal dessa situação. Não se pode esconder ou desconhecer que o islamismo é a religião que mais se difunde no mundo (aqui no Brasil, tem gente que ainda pensa que são as seitas evangélicas as que mais crescem).

O islamismo é hoje uma das maiores religiões, estimando-se que já tenha mais de um bilhão de fiéis, enquanto o planeta tem pouco mais de 6,3 bilhões de habitantes, dos quais 75% em países subdesenvolvidos e com menos de 2 dólares por dia, 22% são analfabetos, metade nunca usou um telefone e apenas 25% têm acesso a internet, segundo as Nações Unidas.

O islamismo é um derivativo do judaismo e do cristianismo, mas com altas doses de inspiração radical. Ao contrário da tendência dos povos mais desenvolvidos, que estimulam cada vez mais o chamado secularismo, para aprofundar a separação entre religião e política, os líderes religiosos muçulmanos defendem exatamente o contrário, exigem que as atividades político-administrativas (assim como todas as demais atividades humanas) sejam todas submetidas à chamada Sharí’a, a Lei Islâmica.

Da Sharí’a para a Jihad (Guerra Santa), a distância é muito pequena, porque tudo é possível (e permitido) em nome de Deus/Alá, seja no Oriente como no Ocidente. Inclusive matar inocentes e praticar atentados contra a população civil. Por tudo isso, discutir a situação do Oriente Médio, sem levar em conta a poderosíssima influência do Islamismo, é uma grandiosa perda de tempo. Não leva a nada.

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