‘Divergência com Bolsonaro sobre cloroquina causou minha saída’, diz Teich à CPI

Nelson Teich chega à CPI para explicar pressão sofrida pelo adotar cloroquina como protocolo médico para Covid-19 Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo - 05/04/2021

Nelson Teich chega à CPI para explicar por que se demitiu do Ministério

Julia Lindner, Natália Portinari e André de Souza
O Globo

O ex-ministro da Saúde Nelson Teich prestou depoimento nesta quarta-feira na CPI da Covid sobre sua curta gestão no Ministério da Saúde, onde ficou por apenas 29 dias. Teich confirmou, como havia feito em entrevista ao GLOBO em dezembro de 2020, que sua saída se deu em razão da pressão pela utilização de medicamentos sem embasamento científico, com destaque para cloroquina.

A sessão teve início às 10h20 com uma homenagem ao ator e humorista Paulo Gustavo, que morreu ontem em razão de complicações da Covid-19. O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), pediu um minuto de silêncio.

SEM AUTONOMIA – Em sua fala inicial na CPI, Nelson Teich disse que optou por deixar o cargo por perceber que não teria autonomia e liberdade para atuar no combate à pandemia. Ele citou divergências sobre o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19 por considerar que não havia base científica para a recomendação do medicamento, que foi reiteradamente defendido pelo presidente Jair Bolsonaro.

— Essa falta de autonomia ficou mais evidente em razão das divergências com o governo quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19. Enquanto minha convicção pessoal, baseada em estudos, era de que naquele momento não existia eficácia para liberar, havia um entendimento diferente do presidente, que era amparado por outros profissionais, até pelo Conselho Federal de Medicina. Isso foi o que motivou minha saída. Sem liberdade de conduzir o ministério conforme minhas convicções, decidi deixar o cargo — disse Teich.

PRODUÇÃO DE CLOROQUINA – Durante a oitiva, Teich disse em resposta ao relator Renan Calheiros (MDB-AL) que não participou de decisões, nem foi consultado sobre a produção de cloroquina pelo Exército na sua gestão.

— Eu não participei disso, se aconteceu alguma coisa foi fora do meu conhecimento — declarou.

Renan, que iniciou os questionamentos, perguntou então se a adoção da cloroquina macula a imagem do Ministério da Saúde, Teich respondeu:

— É uma conduta que para mim era inadequada – disse, acrescentando que havia uma preocupação do “uso indevido” de medicamentos, não apenas da cloroquina.

EFEITOS COLATERAIS — “A cloroquina é um medicamento que tem efeitos colaterais. Essencialmente era a preocupação do uso indevido. Isso vale não para a cloroquina, mas para qualquer medicamento” — afirmou.

Teich disse, ainda, que a única questão que gerava discussão era a cloroquina. De acordo com ele, o seu pedido de demissão ocorreu justamente pelo pedido de ampliação do uso do medicamento contra a Covid-19. O ex-ministro avalia que, embora tenha sido um ponto específico, “isso refletia uma falta de autonomia” no Ministério da Saúde.

Teich também comentou a decisão do governo de ampliar o rol de atividades essenciais sem consultá-lo. Ele, que era ministro à epoca, estava no meio da entrevista quando foi informado pela imprensa, sendo surpreendido.

 

PEDIRAM DESCULPAS — “Aquilo foi uma situação ruim. Até conversei com eles depois em relação a isso. Eles até pediram desculpa. Aquela condução foi ruim, trouxe uma percepção ruim para todo mundo” — disse Teich.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) destacou declarações dadas mais cedo por Bolsonaro. O presidente disse que quem é contra cloroquina e não apresenta alternativas é canalha e atua por interesse econômico, e insinuou que a China poderia ter criado a Covid-19 como parte de uma “guerra química”

— Eu não concordo com nenhuma delas [declarações] — disse Teich.

REUNIÃO NO PLANALTO – Em seguida, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) mencionou a agenda do ex-ministro no dia 23 de abril de 2020, disponível na página do ministério na internet, em que consta uma reunião com Bolsonaro no Palácio do Planalto, para que o Conselho Federal de Medicina (CFM) pudesse apresentar um estudo sobre o uso da cloroquina no combate a Covid-19. Diante disso, Teich reconheceu que houve sim essa reunião.

— Desculpa. Houve sim. Pode colocar que sim. Muda o que eu falei — disse Teich.

Depois afirmou citando um documento que valida o uso do medicamento “de acordo com critério médico”:

— O presidente do CFM apresenta um documento em que valida o uso de cloroquina em pacientes com doença leve ou moderada, desde que de acordo com critério médico. Essencialmente foi isso — disse.

CLOROQUINA EM ALDEIAS – Teich afirmou que a sua posição era contra a distribuição de cloroquina em aldeias indígenas. Ele disse que, enquanto ministro, não teve conhecimento da iniciativa e, se tivesse, não teria permitido. O GLOBO revelou na semana passada que o governo orientou e distribuiu o chamado “kit Covid” a esses povos na Amazônia.

— Minha orientação era contrária — disse, completando: — Claro que sempre é possível acontecer alguma coisa, é uma máquina grande, mas não era do meu conhecimento e, se tivesse sabido, não deixaria fazer.

MOMENTO DIFÍCIL – Questionado se havia orientação de distribuição de cloroquina para estados e municípios, ele negou:

— Do que eu vivi naquele período, a gente [Ministério da Saúde] nem falava em cloroquina. O dia-a-dia era extremamente intenso, era um momento difícil, faltavam respiradores, faltava EPI, mortes aumentando, casos aumentando, e foi um assunto que não chegou a mim [a produção de cloroquina].

Sobre o uso da cloroquina contra a Covid-19, em geral, Teich afirmou que tinha uma posição muito clara e voltou a negar conhecimento de produção do medicamento pelo Exército.

INDICAÇÃO DE PAZUELLO – Teich disse que o general Eduardo Pazuello, que foi seu secretário executivo na pasta antes de se tornar ministro, foi indicado por Bolsonaro, e não por ele.

Mas também disse que, apesar da inexperiência na área da saúde, Pazuello atuaria sob sua supervisão e, caso não tivesse um bom desempenho, não permaneceria no cargo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Nada de novo no front ocidental, diria o escritor Erich Maria Remarque. O que se fala na CPI é tudo o que já se sabia. (C.N.)

10 thoughts on “‘Divergência com Bolsonaro sobre cloroquina causou minha saída’, diz Teich à CPI

  1. Porque ele fala isso só agora? Quando saiu alegou problemas pessoais. Certamente foi instruído e adestrado para falar isso só agora.

  2. Que pergunta!!!
    Não teve tempo de nem ser.
    Se tivesse ficado no cargo seria por aceitar as “intromissões” e aí ‘estaria lascado’.
    Provável não acontecer nadica de nada com o Pazuelo, mas a história e a sua consciência (dele) cobrará.
    PS: No Brasil brasileiro nada acontece com os poderosos e o mocinho vira rápidinho bandido.

  3. A pergunta que precisa ser respondida e que está ainda pendente de resposta é a seguinte:

    Por que a obsessão de Bolsonaro pela Cloroquina?!

    De certa forma, arriscou o seu cargo na defesa de um medicamento que a ciência sempre afirmou que não era indicada para compor o protocolo contra o Covid 19.
    Mesmo assim, Bolsonaro bateu pé, teimou, brigou, ofendeu, insistiu, e hoje nos encaminhamos para 415 mil mortos que poderiam ter tido alguma chance de viver, caso não houvesse da parte de um charlatão, o tal tratamento precoce!

    Pois em razão dessa polêmica, é que necessitamos saber os porquês de o presidente insistir tanto neste medicamento.
    Teria sido um “aviso de Deus”?
    Inspiração divina?
    Uma vez que sempre disse que Deus o escolhera para ser presidente, sabe-se lá se Bolsonaro entendeu que fosse o que receitasse, mesmo sem ser médico, a sua recomendação seria um sucesso??!!

    Que existe algo de surrealismo ou metafísico neste procedimento absurdo e indesculpável do presidente é inegável.

    Agora, ele não poderia porque jamais teria esse direito, de decidir a respeito da vida dos brasileiros, oferecendo um elixir da vida ou tônico milagroso, que teste algum aprovou a Cloroquina no tratamento contra esta pandemia.

    Corrobora o meu raciocínio, que o amo e senhor de Bolsonaro, até ser enxotado do poder norte-americano, Donald Trump, usou da mesma divulgação deste medicamento, com fotos segurando a embalagem e tecendo comentários que, se não fosse o remédio, os Estados Unidos teriam meio milhão de mortos!

    Por uma dessas peças do destino ou rasteiras da vida, os americanos estão muito próximos de 600 mil óbitos, e o Brasil é o segundo em número de vítimas fatais, 415 mil!!!

    Tivesse a Cloroquina as propriedades mencionadas para este vírus, o mundo não registraria 3.230.000 mortes, e subindo a cada dia que passa esta tragédia monumental.

    Outra nação que já se encontra em terceiro lugar neste aspecto de mortes é a Índia.
    A crise é tamanha, que no mês passado esta nação estava atrás do México em mais de 50 mil vítimas fatais.
    Não só passou os mexicanos, como nos últimos cinco dias morreram 30 mil indianos!!!

    O êxodo dos habitantes da capital, Nova Delhi, querendo fugir desta mortalidade é tanta, que não existe mais como usar trens, ônibus, avião …
    Ou sai com carroça ou montado em cavalos ou a pé!

    Lembro que a capital da Índia tem “apenas” 24 milhões de habitantes, que vivem de forma aglomerada, sem higiene, e convivem sem esgotos, água encanada, em boa parte desta cidade indiana.

    Os vários filmes e seriados indianos que assisto, mostram sem qualquer dissimulação a pobreza e a miséria daquela grandiosa nação.
    Parte por culpa do sistema de castas – que passamos a copiar no Brasil -, parte pelo desdém governamental pela quantidade de habitantes, em torno de 1.400.000.000 de seres humanos, algo impensável.

    Curiosamente, a Índia EMPATOU com a China em termos populacionais, onde ambos os países somam praticamente 43% da população mundial!!!

    Fosse o caso de a Cloroquina ser mesmo milagrosa, Bolsonaro deveria indicá-la para o governo indiano, antes que a inigualável e incomparável Índia em história e belezas, riquezas e misérias, multirreligiosa e cultural, deixe de existir.

    A Índia deveria ser tombada como monumento histórico mundial, logo, ser muito mais bem tratada pelas nações do que vem sendo atualmente.

    Se os meus colegas desejam ler um pouco sobre a história da Índia, iniciem com o livro Esta Noite a Liberdade, cujos autores são Dominique Lapierre e Larry Collins.
    Recomendo muito esta leitura (há várias ofertas pelo Círculo do Livro, que o editou, na Estante Virtual).

    Por 6,90 compra-se um livro precioso de 600 páginas, com fotos de Gandhi, a independência da Índia, a constituição daquele povo, e várias passagens de Gandhi com Lord Mountbatten, o último vice-rei da Índia!

    Em 79, Mountbatten foi assassinado pelo IRA, que colocou uma bomba na sua lancha, na baía de Donegal, República da Irlanda.

    Mas por que Bolsonaro insiste tanto no uso da cloroquina??!!
    Aguardo por respostas.

    • “Por uma dessas peças do destino ou rasteiras da vida, os americanos estão muito próximos de 600 mil óbitos, e o Brasil é o segundo em número de vítimas fatais, 415 mil!!!”

      Você poderia colocar algum link (imprensa jornalística) dessa informação.
      A única informação que eu tenho acesso, é que após a vitória do Biden, foi interrompido o tratamento precoce, e com o sucesso da vacinação (sempre do novo governo Biden), nunca mais ouvi falar de mortes por covid nos USA. Vi até na globo, o Paulo Rassum mostrando que foi vacinado lá nos USA.
      https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2021/03/brasil-ultrapassa-eua-na-media-movel-de-mortes-por-covid-19.shtml

      • Olha Marcelino – me fizeste lembrar de um filme da década de cinquenta, famoso, chamado Marcelino, Pão e Vinho -, eu não iria responder esta tua pergunta porque das duas uma:
        ou pelo fato de estares pessimamente mal informado ou usando de má fé ou, lá pelas tantas, ambas condições.

        Não sei quem tu és, mas quando um comentarista assina o seu nome, ele precisa dizer ou postar verdades, em se tratando de dados oficiais.

        Neste caso, eu não poderia adulterar a verdade porque facilmente constatável o meu erro ou má intenção.

        Mas, em respeito aos colegas e à TI, eis o link que me pediste, acusando ontem perto de 594 mil mortes, ali, ali, para chegar nos 600 mil, conforme eu escrevera, que não acreditaste.

        https://www.youtube.com/watch?v=NMre6IAAAiU&ab_channel=RoylabStats

        No mesmo site, a Índia ultrapassou 230 mil mortes, enquanto o Brasil, lamentavelmente, chegou a 414.767 vítimas fatais!

        Pelo menos me respondas às informações que te prestei.

        • “das duas uma:
          ou pelo fato de estares pessimamente mal informado ou usando de má fé ou, lá pelas tantas, ambas condições.”

          Obrigado por responder (e pela informação); mas, afirmo que nesse caso, sou apenas mal informado; pois meu navegador não permite acesso ao youtube; e não consegui (conforme afirmei no primeiro comentário) ver essa informação em nenhum dos jornais da grande mídia.

          PS: Reitero que acreditei em você, desde o primeiro momento, só afirmei que essa informação era escamoteada pela grande imprensa; inclusive, não foi noticiada nem nos ditos blogs bolsonaristas; eu já tinha percebido, que os ditos jornalistas de direita ou bolsonaristas, são muito menos eficientes (trabalham menos, e são menos competentes no que se propõem a fazer) que os de esquerda.

          • Muito bem, Marcelino.

            Mereces a minha consideração, a partir de agora.

            Muitos dados são omitidos a pedido ou por determinação do governo, sobre a pandemia.

            Por exemplo:
            na Índia, que falam em 10 mil mortos diários dentro em breve (!!!), as autoridades estão mandando o povo QUEIMAR os cadáveres mortos pela pandemia porque não existe mais local apropriado!!!!

            Tira uma ideia, caso esta notícia fosse divulgada em nível mundial?
            O pânico que não aconteceria?

            Os americanos diminuíram as mortes diárias.
            Mas ainda estão entre 800 a 1.000 vítimas fatais diariamente.

            Agora, neste momento, o site que te mandei acusa:
            Índia com mais de 234 mil mortos;
            Brasil com 417 mil;
            México com 218 mil;
            Reino Unido com 128 mil;
            Itália com 123 mil;
            Rússia 112 mil;
            França 106 mil.

            Mortos no mundo:
            3.270.000 !!!

            Abraço.

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