Dizer que a escravidão foi boa para os negros é uma loucura que você deve contrariar

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Charge do Jean Galvão (arquivo Google)

Fernando Gabeira
O Globo

Minha formação cultural se deu principalmente no século XX recheado de rocambolescas teorias revolucionárias. De um modo geral, eram apostas no futuro, uma inconsciente reconstrução do paraíso. Se há algo no século XXI para o qual custo a encontrar o tom adequado de lidar é esse período de pós-verdade, em que as evidências científicas ou não são atropeladas por narrativas grotescas.

O intelectual francês Bruno Latour considera que esse período foi de uma certa forma inaugurado por Colin Powell, quando apresentou falsas evidências de armas de destruição em massa, antes da invasão do Iraque. Mas a tendência era muito mais forte, e aqui nos trópicos deságua no terraplanismo, na mamadeira de piroca, na crença de que o filósofo alemão Theodor Adorno escrevia as músicas dos Beatles, que John Lennon tinha um pacto com o diabo, que o rock leva ao aborto, que por sua vez leva ao satanismo.

NÃO CONTRARIAR – Como lidar? Às vezes, lembro-me da infância e do conselho paterno muito presente nos adultos mineiros: não contrariar.

Lembro-me de uma ambulância que parou na porta do vizinho, um grupo se formou e, sem contato com os médicos e enfermeiros, alguém afirmou: “Foi leite com manga, certamente foi leite com manga que derrubou o vizinho”.

Essa ideia de não contrariar as afirmações malucas me acompanhou nos anos de juventude. No livro “O que é isso, companheiro?”, relato o caso de um louco que acordou gritando quando estávamos presos em Ricardo de Albuquerque.

ESTACIONANDO – Ele tentava em voz alta, desesperadamente, ajudar a encostar um caminhão imaginário e às vezes se alarmava: “Vai bater, vai bater”.

Não conseguíamos dormir com aquele barulho. O único caminho foi ajudá-lo também em voz alta a encontrar o caminhão. Avançamos num ritmo conjunto até que conseguimos estacionar aquele maldito caminhão nas nossas exíguas celas de um distrito policial.

Mas essa tática é ineficaz quando se dizem coisas absurdas em nome do governo, sobretudo as que influenciam o destino de milhares de pessoas, a própria realidade histórica do Brasil. Dizer, por exemplo, que a escravidão foi boa para os negros é um título de loucura que você não apenas pode como deve contrariar. Inclusive destituir legalmente essa nomeação.

PONTOS ESSENCIAIS – Muitos adeptos do governo consideram apenas a economia, o combate ao crime e a gestão da infraestrutura como pontos essenciais. O resto seriam apenas borbulhas inconsequentes. Mas um país não se reduz à economia, à infraestrutura e ao combate ao crime. Ele é tecido de múltiplas teias que se interpenetram.

Considerar como apenas perfumaria nossa história de escravidão, tentar que se revolvam nos túmulos nossos formadores (como Joaquim Nabuco), mas sobretudo milhares de negros açoitados e assassinados,  é introduzir um elemento de corrosão que apodrece todo o tecido nacional.

Se tivesse tempo, iria me divertir demonstrando que Theodor Adorno jamais escreveria um verso como esse: “Help, I need somebody”. Essa loucura é do gênero que não se precisa tanto contrariar.

LOUCURAS DE BOLSONARO – É preciso reservar um espaço para as sandices de Bolsonaro. Elas repercutem na imagem do Brasil. Quando um presidente acusa um astro de Hollywood de financiar queimadas, ele nos expõe à autocombustão no conceito internacional.

Economia e infraestrutura não se fazem sozinhas. Política de segurança é algo muito complexo para se focar apenas na repressão. Andei por Paraisópolis para realizar um programa de televisão. O governo estadual afirmou que cumpriu o protocolo, e isso não foi entendido pelas pessoas. Se cumprir o protocolo leva à morte de nove jovens, alguma coisa estava errada nesse protocolo.

Certamente algo terá de mudar, assim como a própria ideia desses bailes funks chamados pancadões precisa ser, de uma certa forma, adaptada à vida das pessoas. Senti em Paraisópolis que há pessoas doentes, falei com muitos idosos, vi muitas gestantes. Elas não frequentam baile funk, mas são atingidas por ele. Não tenho uma saída no bolso. Aliás, fui ouvir as pessoas em que sentido apontam para se equacionar o problema.

TERRAPLANISTAS – Andamos por um território sensível cada vez mais acossados pela realidade, e os terraplanistas investem contra o rock e o satanismo. No século passado, os grandes, os chamados loucos de Deus, deixavam todos os confortos materiais para seguir sua orientação religiosa.

O século virou, e hoje os loucos entram no governo e já nem se lembram mais de Deus, siderados que estão no combate ao satanismo. Da busca da verdade à pós-verdade o novo século me desconcerta.

15 thoughts on “Dizer que a escravidão foi boa para os negros é uma loucura que você deve contrariar

  1. Escravidão?! A Lei Áurea foi assinada em 1888. Qual o motivo de rememorá-la nessa fase tão triste da nossa história? É falta de assunto ou é intenção de ser pentelho de pulga?
    Fale de problemas atuais que são essencialmente sociais em vez de raciais. Fale na deficiente educação básica e a necessidade de um programa de investimento a longo prazo; fale na sem-vergonhice de o STF incluir lagostas e camarões no menu dos urubus; fale no desperdício de dinheiro usado para pagar um sem número de assessores fajutos dos nossos medíocres legisladores; fale nas crianças descalças e sem nem mesmo poder sonhar com um futuro melhor. Fale desses filhos de puta que desmerecem até a fossa que usam. Fale disso, contribua para convencer o povo de que ele deve agir nas urnas para mudar a putaria reinante. Dê um pouco de si em prol dos seus compatriotas e deixe de escrever shit.

  2. Excelente artigo.
    Os admitidos pelo governo são o reflexo do Bolsonaro.
    Antes de terminar o mandato, Bolsonaro com suas pérolas, pode bater o record da Dilma.

  3. -Me diga, meu caro, como o negro e o branco, ambos miseráveis, poderão melhorar de vida sem estudar!

    -Caso descubra essa fórmula mágica, venda aos coreanos e japoneses, “raças”
    que tiveram o país destruído, mas que achataram a bunda em cadeira escolar para chegar onde chegaram!

  4. A imprensa continua mentindo descaradamente, ninguém disse que a escravidão foi boa para os negros. Vergonhoso que o editor desse blog mergulhe nas fake news, e não pode sequer alegar ignorância, pois é perfeitamente capaz de entender um texto.

  5. Gosto das reflexões do Gabeira, mas ultimamente parece pisar em ovos.
    Ele discorreu muito bem sobre a pós verdade, porém quando chegou em Paraisópolis, a mosca do politicamente correto o picou de leve e aí, também usou da “narrativa” para não falar claramente que os pancadões não podem coexistir à 3 metros da janela e da porta de uma residência!!!
    As pessoas que moram e trabalham tem direito, como todos os outros moradores da cidade de dormir, ouvir SUA música, ver filmes, estudar, etc. De sair de casa e voltar. de chegar de moto, bicicleta, carro, uber, na sua rua e de não ter a porta urinada cheia de lixo, de quinta a domingo.
    “Certamente algo terá de mudar, assim como a própria ideia desses bailes funks chamados pancadões precisa ser, de uma certa forma, adaptada à vida das pessoas.”
    Não Gabeira. Não tem certa forma. Eles tem que sair da porta e da rua das pessoas. Ponto!
    Qualquer outra visão é pós verdade.

  6. Discordo de Francisco Vieira quando diz que este erudito ensaio de Fernando Gabeira é, no seu entender, que: “O título do artigo não condiz com o conteúdo, mas sim é forçação de polêmica, já que o texto se refere a vários outros assuntos”. Francisco Vieira leu mas não entendeu o texto. O texto fala de nossa digressão cultural na pós-modernidade, em que estamos submersos, e por isso, discorre sobre vários aspectos nefastos de nossa época. Mas o título do artigo condiz, sim, com o conteúdo.

    Um dos aspectos mais importantes descritos por Gabeira estão nas seguintes frases, que justificam o título dado ao texto. Diz Fernando Gabeira: “Considerar como apenas perfumaria nossa história de escravidão, tentar que se revolvam nos túmulos nossos formadores (como Joaquim Nabuco), mas sobretudo milhares de negros açoitados e assassinados, é introduzir um elemento de corrosão que apodrece todo o tecido nacional”

    Digo, por exemplo, que as trabalhadoras domésticas têm um traço marcante quando à questão de gênero, de posição econômica e de etnia ou cor.

    Comparando resultados obtidos em questionários aplicados junto às trabalhadoras domésticas sindicalizadas e não sindicalizadas, faca evidente um empoderamento positivamente diferenciado quanto à autodeclaração de cor/etnia por parte das domésticas sindicalizadas, o que favoreceu uma reflexão importante sobre o tema, que passo a detalhar: Houve predominância da cor negra nos municípios de Salvador, Rio de Janeiro e João pessoa num percentual de 80% e de 100% no Recife, enquanto nos mesmos municípios, as domésticas não sindicalizadas se declaram brancas ou pardas em 20% dos casos.

    O debate sobre classificação racial no Brasil constitui um tema de investigação que, apesar de ter merecido a atenção de vários estudiosos ao longo de décadas, tem recebido maior visibilidade pública nos últimos anos em decorrência da mobilização tanto favorável quanto contrária às ações afirmativas.

    É plenamente conhecida a distância que separa os negros e os brancos no país no que diz respeito à posição ocupacional. O movimento de mulheres negras vem pondo em relevo essa distância, que assume proporções ainda maiores quando o tópico de gênero e raça é levado em consideração.

    Nesse sentido, é importante destacar os ganhos obtidos pela luta feminista no mercado de trabalho, mas em que pese se constituírem em grandes avanços, não conseguiram dirimir as desigualdades raciais que obstaculizam maiores avanços para as mulheres negras nessa esfera.

    As propostas universalistas da luta das mulheres não só mostram a sua fragilidade, como a impossibilidade de as reivindicações que daí advém tornarem-se viáveis para enfrentar as especificidades do racismo brasileiro.

  7. O RACISMO NO BRASIL

    CORREIO BRAZILIENSE – 10/12/2019

    ALUNO DA UFRB SE RECUSA A RECEBER MATERIAL DE PROFESSORA NEGRA

    De acordo com estudantes, Danilo Araujo de Góis se recusa a pegar coisas das mãos de pessoas negras ou até mesmo sentar perto

    Reportagem de Fernanda Borges/
    ESTADO DE MINAS

    https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/eu-estudante/ensino_ensinosuperior/2019/12/10/interna-ensinosuperior-2019,812927/video-aluno-da-ufrb-se-recusa-a-receber-material-de-professora-negra.shtml?utm_source=onesignal&utm_medium=push

  8. Quem apoia e gosta dos pancadões é a galera “no limites”, comerciante e traficantes, fato! Moradores mesmo, desejam este inferno nos quintos, ou, na porta da casa dos simpatizantes.A imprensa, manipuladora como sempre, não divulga a apreensão de janeiro até a presente data, de 1,5T de drogas na “comunidade da paz”.Se este foi o resultado, os mercadores da morte venderam impunemente, mais de 30T… culpa da PMSP! Está na cara a participação do crime nas mortes ocorridas.

  9. No dia em que os simpatizantes e jornalistas que defendem os pancadões passarem a conviver com a presença deles em sua rua começando a algazarra na sexta-feira e terminando na segunda-feira de manhã cedo, com certeza eles mudarão de opinião. Rua não é lugar para baile, show e muito menos reunião patrocinada por bandidos e criminosos que lucram muito encima daqueles que acham que pancadão é diversão.

  10. A filosofia dos espertos é sempre divulgada, a escravidão foi boa para os descendentes e Bolsonaro é o doido, o jatinho de luxo do narigudo comprado com grana do BNDS a 5% foi boa, deu lucro pra a Embraer.

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