Dizer que tem ódio de política não resolve nada

Luiz Tito
O Tempo

Descia no elevador de um prédio comercial no centro de Belo Horizonte. Na mesma viagem, estavam jovens que aparentavam ter entre 20 e 25 anos, falantes e risonhas. O ascensorista só olhava e ouvia, cuidando para que o trajeto consumisse o tempo suficiente para que ele se inteirasse do assunto das moças. Um monitor de TV no elevador expunha slides de propaganda e ainda trazia o ocorrido no dia. Eis que aparece a presidente Dilma falando sobre os cortes que sua tesoura operará no orçamento.

De uma das jovens, em alto e bom som, partiu sua avaliação do momento da economia brasileira, com impressionante delicadeza: “essa vaca ainda vai tomar meu emprego; por isso que eu detesto política”.

Essa é a dimensão que o cidadão comum tem do momento brasileiro. Importam o emprego, o vale-transporte, a mensalidade da escola, o aluguel ou a prestação da Caixa, a compra do supermercado, o consórcio da moto ou do carro, a escova progressiva, a balada no fim de semana. É justo.

PRIMEIRA PARADA

O cidadão é a primeira parada do arrocho. É ele que está na linha de tiro, que vai pagar pela irresponsabilidade do gestor público que corrompe, que inverte as opções, que troca a nomeação de parentes-assessores por cargos necessários para que a educação, a saúde, a segurança aconteçam como uma prestação obrigatória do Estado. É ele que pagará a conta se o seu prefeito preferir custear, com milhões de reais, uma escola de samba do Rio. Tudo para que leve o nome do município no próximo Carnaval. Enquanto isso, na mesma cidade, faltam medicamentos nos postos de saúde, falta merenda nas escolas e as contas da prefeitura seguem atrasadas, definhando servidores e fornecedores. Isso não é apenas uma suposição. É fato e foi cogitado numa cidade da Grande Belo Horizonte. O assunto, mesmo polêmico, não está sepultado. Pode acontecer. O cidadão paga também a farra das câmaras municipais, com vereadores sentados em gabinetes inchados de apadrinhados, inservíveis quase todos.

ORGIA CUSTEADA

Os legislativos pontualmente decotam do orçamento de todos os municípios até 5% de suas receitas líquidas para custear essa orgia. As assembleias estaduais, a Câmara dos Deputados e o Senado têm o mesmo tratamento: chova ou faça sol, receberão sempre sua grana, terão abastecidos seus carros, pagas todas as verbas parlamentares, de gasolina à moradia, passando pela contratação de assessores que lá nunca vão.

Esse mesmo cidadão – que tem ódio de política – paga com sua omissão, permitindo que tudo isso ocorra e nunca mude. A política, gostemos ou não, é o único espaço onde pode o cidadão discutir o seu trabalho, pode brigar pela construção de políticas públicas, pode exigir a contraprestação do poder público aos impostos que se arrecadam. Não participar, escolher mal, ter ódio de política é o caminho natural para se chegar a lugar nenhum. É preciso mudar o destino dessa viagem.

One thought on “Dizer que tem ódio de política não resolve nada

  1. APEGO DE POLÍTICOS AO PODER FAZ GENTE DE BEM ODIAR A POLÍTICA

    A presidente Dilma Rousseff quebra ovos pra fazer omelete, é até fácil entender quando graduados petistas como Frei Betto vêm a público afirmar que em 12 anos nenhuma mudança estrutural foi feita.

    O lulismo carrega seu erro maior das décadas de 1980/90, quando embarcava em canoas furadas da grande mídia e dos grupos econômicos contra a ascensão de Leonel Brizola. As concessões que fizeram para subir foram bem mais desastrosas, sob lógicas concretas e históricas diante do que se deixou de avançar em 20 anos, comparando com vícios acumulados e revelados em seus anos dourados de poder.

    Diante do diagnóstico de ‘Frei Betto Sem Censura’ (face), se a coisa vinha ruim pior não pode ficar, desde agora pensem mais no Brasil e menos nas concessões desses 35 anos, não só dos doze anos de consequências, não é verdade? Lula que o diga (ou disse) pelo tom desesperado de sua aparição no programa do PT, como nunca antes na história recente sem a presença de Dilma ou qualquer menção à figura da presidente, como se nada de positivo tivesse a dizer http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1614720872077511&set=t.100006188403089&type=3&theater

    Fonte comentada: http://www.brasil247.com/pt/247/pernambuco247/182862/Frei-Betto-Esta-reforma-%C3%A9-uma-sem-vergonhice.htm

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